sábado, 19 de setembro de 2026

 

Chico Curió

multiartista de Tiradentes

 

Francisco Trindade da Silva tornou-se conhecido como Chico Curió. Nasceu em 29 de novembro de 1954 e faleceu a 18 de setembro de 2026.

 

Chico Curió no Largo das Forras, Tiradentes. Fotografia da exposição

Tiradentes e os Tiradentinos, idealizada e montada por Luiz Cruz, em 2002.

 

Chico Curió passou a infância em uma casa implantada num vasto terreno, no Beco do Curió. A edificação ficava nos fundos e havia muitas árvores frondosas: mangueiras, abacateiros, goiabeiras, pitangueiras, bananeiras, além de galinhas e cachorros. Com tantas árvores frutíferas, a passarinhada se deleitava, principalmente os sabiás e as saíras.

Já adulto, viveu no bairro Cascalho e depois se mudou para o bairro Várzea de Baixo, em casa bem próxima à linha do trem da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas. Em cada detalhe das soluções construtivas de sua morada, podíamos perceber os detalhes a expressar sua identidade.


Aspecto da casa do Chico Curió, bairro Várzea de Baixo, Tiradentes.

Fotografia: Luiz Cruz, 2018.

 

Muito cedo, teve que trabalhar acompanhando o pai – o velho Curió, nas lidas da roça. Não conseguiu ir longe com os estudos, mas sempre cultivou suas habilidades para as artes, especialmente a música, as artes visuais e o teatro. Ainda na infância, comprou o seu primeiro violão e aprendeu a tocá-lo sozinho. Apaixonou-se pela música e gostava de tocar o seu violão pelas ruas, as vezes se sentava no Largo das Forras e sua música ocupava o espaço. Muitas vezes tocou nos Quatro Cantos e mais recentemente no passeio da Antiga Cadeia, onde agora funciona o Museu de Sant’Ana.

Chico Curió gostava de desenhar. Grafite e lápis de cor. Seus primeiros desenhos retrataram as suas edificações preferidas, as capelas de São Francisco de Paula e da Santíssima Trindade. Depois, incluía os elementos arquitetônicos com o seu universo da roça, onde trabalhou por longo período. A paisagem rural, as árvores, os bois, os pastos.

Em alguns desenhos, ele recriou sua própria arquitetura, impactante e imponente, a nos lembrar as paisagens arquitetônicas do pintor grego Giorgio de Chirico (1888-1978). Nas cenas rurais, Chico Curió apresentava-se onírico e telúrico. Seu trabalho ganhou expressividade e as cenas se tornaram poéticas, tanto quanto a obra do grande pintor José Antônio da Silva (1909-1996). Na nossa coleção, temos 27 desenhos, que foram adquiridos e guardados pelo casal Yves Alves e Dona Dalma; tempos depois, a família nos doou este acervo. 


Chico Curió. Capela de São Francisco de Paula, grafite e lápis de cor, década de 1980. 

Acervo: Luiz Cruz.

 

 

Chico Curió. Capela da Santíssima Trindade, grafite e lápis de cor, década de 1980. 

Acervo: Luiz Cruz.

 

  
 Chico Curió. Paisagens rurais, 
grafite e lápis de cor, década de 1980. Acervo: Luiz Cruz.

  

 

Chico Curió. Paisagem arquitetônica, grafite e lápis de cor, década de 1980. 

Acervo: Luiz Cruz.


Chico Curió. Paisagem rural, grafite e lápis de cor, década de 1980. Acervo: Luiz Cruz.

 

Posteriormente, Chico Curió se dedicou ao desenho com o pirografo – uma ferramenta elétrica com a ponta metálica incandescente para gravar, desenhar e escrever em suportes de madeira, couro e outros. Dessa fase, não subsistiu em Tiradentes nenhum trabalho dele, praticamente todos foram vendidos para turistas. Há que se destacar, ele não assinou nenhum dos desenhos que produziu.

Prestamos homenagem ao Chico em 2002, quando idealizamos e montamos a exposição Tiradentes e os Tiradentinos, com fotografias de 300 pessoas da cidade, entre os nativos e os adotados de coração. Cada personagem fotografado representou um dos 300 anos do antigo Arraial de Santo Antônio, depois Vila de São José e o atual município de Tiradentes. Lá estava presente o Chico Curió com sua fotografia.

Em 2018, Chico Curió foi homenageado na publicação O Caminho do alferes Tiradentes – uma viagem pela Trilha dos Inconfidentes, do historiador Ivan Alves Filho, editado pela Mandala Produção, editora da cidade de Tiradentes:


Chico Curió – O filósofo alemão Theodor Adorno errou feio quando questionou a utilidade do rádio. Acontece com as melhores cabeças. De fato, o homem não tinha lá muito jogo de cintura, como se diz, apesar de se referir constantemente à dialética. No mínimo era um dialético desprovido de molejo. Pois, sem o rádio, milhares de pessoas deixariam de ouvir boas músicas ou mesmo se inteirar do que se passa no mundo. Ou seja, o rádio, além de informar, também forma. Cria com o ouvinte uma cumplicidade duradoura, uma intimidade que talvez só o livro consiga estabelecer com as pessoas, conforme indicou certa feita o cronista Artur da Távola. O violeiro Curió que o diga. Vamos à sua história. Curió trabalhava na roça. Apaixonado pela música, aprendeu violão sozinho, ouvindo a Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, e a Rádio Cultura, de São Paulo. Apreciava valsas e choros, mas também composições barrocas e clássicas. Eu mesmo o vi tocar um dos mestres do barroco espanhol, Fernando Sor, pelas ruas de Tiradentes. Seu primeiro violão – e primeiro violão ninguém esquece – ele o conseguiu de forma inusitada. Ou seja, trocou pelo cavalo que ganhara do pai pouco tempo antes. Foi um Deus nos acuda em casa. O samba atravessou dessa feita. Vida que segue e Curió foi como que socorrido por um tio violeiro, com quem aprendeu a tocar Som de carrilhões, de João Pernambuco. Aos 12 anos de idade vinha da roça e tomava o caminho da cidade, onde fazia serenatas para as moças. Estava sempre pedindo a alguns violeiros para que tocassem mais e mais – e assim assimilava todas as técnicas que podia. Chico Curió gosta mais de violão do que de cavaquinho. Mas reconhece: “cavaquinho foi feito para quem sabe tocar mesmo”. Nunca viveu profissionalmente de música, mas tocou durante muitos anos se apresentando de graça, “para dar força”. Chico Curió é uma alma pura. Religioso, sempre faz suas orações. A solidariedade é, para ele, algo essencial: “nunca neguei um prato de comida a ninguém”, afirma. Vive só e confessa não se sentir à vontade em um mundo baseado “na ganância”. Sua pureza é contagiante. Curió me lembrou Mário Quintana. Ou o poeta não escreveu “eles passarão / e eu passarinho”? (Alves Filho, 2018, p. 42-43).

 

Hoje, cedo, a primeira notícia que vimos nas mídias, apesar de toda turbulência da vida política, foi o informe do falecimento do Chico Curió, através dum belo texto do pesquisador Rogério Paiva, nosso primo, que destacou sua percepção sobre o famoso violeiro de Tiradentes:


Chico do Curió talvez tenha sido um dos últimos artistas populares de Tiradentes. Violonista autodidata, tinha o instrumento como extensão da própria mente e corpo. O som pensado era imediatamente reproduzido em improvisos perfeitos. Andava à noite pelas ruas e praças da cidade tocando pra quem quisesse ou não quisesse ouvir. Parecia que não tocava para ninguém, ou melhor, tocava principalmente para ele mesmo ouvir, motivo pelo qual nunca se preocupou com plateia ou fama. A música pra ele era tão natural que não exigia esforço, estudo, ensaio... Era como se fosse mais uma forma que tinha de falar. Tinha ouvido musical apurado e reproduzia de imediato tudo o que ouvia, desde as canções mais simples às mais elaboradas composições... Tinha um dedilhado peculiar e conciliava tradicionais acordes a verdadeiras ideias musicais. Arrancava sons dissonantes como quem brincava de desafinar, porém tinha domínio total do instrumento, que fazia parte do seu próprio corpo. O violão para ele era como um brinquedo sério. Nas serenatas solitárias das noites frias e desertas da cidade de antigamente ao burburinho de turistas de hoje em dia, ele sempre foi o mesmo, assim como a voz do seu violão. Chico, mesmo depois de reconhecido como artista popular, não mudou sua rotina e nem seu modo de ser. Atravessou a estrada da vida e agora nos acena do outro lado, enquanto sobe em sua bicicleta com o violão a tiracolo, pronto para mais uma apresentação... 

(https://www.facebook.com/rogerio.geraldodepaiva, 18-9-2026).


E logo, apareceu a homenagem ao Curió, do violeiro tiradentino Gabriel Pitta, que vive na Argentina.


Chico Curió, na Várzea de Baixo, Tiradentes. Fonte: ttps://www.facebook.com/gabriel.pitta

 

Chico Curió foi um personagem e tanto. O Instituto Cultural Biblioteca do Ó, em sua sede no Largo do Ó, foi a primeira instituição a lhe abrir as portas para apresentações. Depois, tocou em vários bares e restaurantes da cidade. Fez apresentações solo no Centro Cultural Yves Alves, tocou juntamente com a Orquestra Ramalho e o Grupo de Seresta da Oficina de Teatro Entre & Vista. Recebeu homenagem no Festival Foto em Pauta.

A 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes apresentou o filme Chico Curió, a abordar aspectos da sua vida, produzido pela Peteca, com direção de Theo Guarnieri e Daniel Schwarz. Num longa-metragem que consumiu cerca de dois anos de gravações. Oportunidade para que Curió apresentasse parte do seu cotidiano e suas relações com familiares e amigos.

 

Cena do filme Chico Curió, direção de Theo Guarnieri e Daniel Schwarz.

Fonte: www.mostratiradentes.com.br 

 

Na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Chico Curió apareceu novamente na grande tela do Cine Praça, no curta-metragem Um Talvez em Tiradentes, obra inspirada no livro Lendas de Tiradentes, publicado pelo IHGT-Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, com direção de Amaury Bassi, roteiro de Paula Cavalcanti, produção de Hosanan Conceição e com atores da Oficina de Teatro Entre & Vista. Como um autêntico multiartista, Curió tinha presença e ganhava maior dimensão com o seu violão e sua música. O filme Um Talvez em Tiradentes foi exibido novamente, na Mostra Tiradentes Abraça a Cidade, em 12 de agosto de 2026, no Centro Cultural Yves Alves.

 

Fonte: www.mostratiradentes.com.br

 

Homem muito simples, vivia na absoluta invisibilidade para muitos da terra, mas conquistava sempre amigos queridos e que reconheciam sua importância no cenário artístico local. Curió, como afirmou Rogério Paiva: “Andava à noite pelas ruas e praças da cidade tocando pra quem quisesse ou não quisesse ouvir”, sempre foi assim, por isso, ao apreciar sua trajetória, lembramos aquela composição do Milton Nascimento e Fernando Brandt:


        Foi nos bailes da vida ou num bar

        Em troca de pão

        Que muita gente boa pôs o pé na profissão

        De tocar um instrumento e de cantar

        Não importando se quem pagou quis ouvir

        Foi assim [...]



Curió está numa das instalações do Beco do Zé Moura, local de manifestações artísticas em prol da Cultura Afrobrasileira, seus amigos artistas lhe renderam homenagens, ele está entre duas figuras emblemáticas de Tiradentes, o Capitão Prego – do Congado de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia e a Benzedeira Dona Erci Paiva.


Chico Curió – pintura no Beco do Zé Moura, Tiradentes. Obra de Bruno Souza e André Frade. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Entre 2025/2026 tentamos montar a exposição com os desenhos do Chico Curió, que seriam mostrados em conjunto pela primeira vez. Infelizmente não conseguimos apoio cultural/financeiro.

 

Luiz Antonio da Cruz

 

Agradecimentos: Família Yves Alves, Rogério Paiva, Ivan Alves Filho, Gabriel Pitta,

Maria José Boaventura, Sérvulo Matias Filho.

 

Referências:

ALVES FILHO, Ivan. O caminho do alferes Tiradentes – uma viagem pela Trilha dos Inconfidentes. Tiradentes: Mandala Produção, 2018.

Lendas de Tiradentes – Histórias da gente da cidade contada através de gerações. Tiradentes: IGHT, 2011.

 

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