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Museu do Tiradentino virtual |
César
Reis
O Fotógrafo
das Invisibilidades
Ele
fotografa diariamente. César sai de casa com o dia ainda escuro, à procura da luminosidade
adequada para suas fotografias. Persegue os primeiros raios de luz, segue
trilhas para ver o colchão de neblina sobre a cidade. Aprecia e registra aquela
movimentação alva que nos revela detalhes encantadores da Paisagem.
Investigador da luz e das sombras. Assim, nos apresenta imagens absolutamente
únicas, daquele click mágico. Nossa arquitetura fica mais enobrecida com as
suas fotografias. As nossas serras, ganham mais imponência através das suas
imagens, especialmente a Serra de São José e a Serra do Lenheiro – dois
elementos marcantes da paisagem do Campo das Vertentes.
César Reis na Cachoeira do Bom Despacho. Serra de São José.
Fotografia: Luiz Cruz.
O nome
dele é Paulo César Reis da Costa. Nasceu em 19 de novembro de 1967, em Resende
Costa, o Arraial da Lage, que integrava o termo da antiga Vila de São José.
Filho de Paulo Reis da Costa e Maria Clara dos Reis. O pai foi militar, por
isso morou em outras localidades, depois de Resende Costa, dos 3 aos 7 anos,
passou a viver em Ritápolis e daí por diante a família acabou estabelecida em
Tiradentes.
O
casal Paulo e Maria Clara teve outros filhos: Elizabete Simone, Elizete Regina,
Wiler Carlos e Edson Antônio. Dona Maria Clara faleceu ainda jovem, aos 49 anos
e o Sr. Paulo partiu em 2020.
César
Reis estudou até o 8º ano, ainda pegou o antigo Ginásio Estadual Dom Delfim
Ribeiro Guedes e depois transferido para a Escola Estadual Basílio da Gama. Foi
no Ginásio que ouviu pela primeira vez a palavra “greve”. Os professores
entraram em greve e as aulas foram suspensas por certo período. Em São João
del-Rei, estudou na Escola de Comércio Tiradentes.
Os
avós
A
passagem de César Reis por Resende Costa, onde viviam os avós maternos, foi
rápida. Ia ocasionalmente visitá-los, por isso, teve pouco convívio com eles.
Mas com os avós paternos vivenciou inúmeras experiências e expressivo
aprendizado.
O avô,
Sr. Antônio Sotero da Costa, viveu na casa do Largo do Chafariz, a que aparece
na fotografia abaixo. A avó, Dona Maria Luiza da Costa, vivia em uma casa que
não existe mais, que ficava próxima à Trilha do Mangue. Dessa edificação
subsistem vestígios arqueológicos. Ela era da família Campos, irmã do afamado
Lourenço Campos, que por muitos anos manteve a “jardineira” circulando entre
Tiradentes e São João del-Rei.
Chafariz de
São José, ao fundo a casa onde viveu o avô de César Reis.
Fotografia: Paul Stille, Aciphan-RJ, arquivo Luiz Cruz.
Após se casarem, Antônio e Maria Luiza foram viver em uma casa nas proximidades do sopé da Serra de São José. Essa edificação e seu grande terreno pertenciam a Fidélis Guimarães – área onde atualmente se encontra a Pousada Calçada da Serra. Antônio sempre trabalhou com o cultivo de verduras e naquele terreno plantava de meia com o proprietário, que vivia em Belo Horizonte. Nessa casa, próxima à Trilha do Carteiro, nasceram os três primeiros filhos do casal: Margarida Almeida, Tarcísio José dos Santos e Paulo Reis. Hoje subsistem os vestígios arqueológicos dessa edificação, a vegetação encobriu o que sobrou das paredes, alicerces, soleiras e entradas com fragmentos de calçada. Resultou num dos mais interessantes sítios arqueológicos da Serra de São José, merecedor de estudos, prospecção, registro e proteção.
Ruínas da casa onde viveram os avós paternos de César Reis,
sopé da Serra de São José. Hoje, precioso sítio arqueológico. Fotos: Luiz Cruz.
Sr. Antônio e Dona Maria Luiza viveram bom tempo nessa casa, sempre trabalhando com plantação de verduras, até conseguirem adquirir a casa do Largo do Ó, a de número 1.
Os avós paternos
Na
casa do Largo do Ó nasceu a quarta filha do casal, a Carmelita, depois, os
demais. Trata-se de uma das mais belas edificações da cidade, que conta com um
conjunto de tetos pintados, com cartelas, rocalhas, flores e fingidos de marmorizados.
A fachada tem duas portas, uma era da capela particular.
Casa do Largo do Ó, número 1.
Fotografia: Luiz Cruz.
Com os
avós, nessa casa, César Reis construiu vasta memória do seu cotidiano de
criança. Com brilho nos olhos, relembra a “vó” tão querida. Ressalta o seu
papel fundamental na educação dos filhos e dos netos. Na companhia dela
conheceu os encantamentos da Serra de São José, quando iam buscar as areias
coloridas e as plantas para armar o Presépio; quando saía para coletar os ramos
de arnica para as garrafadas; quando apanhava as sempre-vivas a serem aplicadas
no artesanato vendido para turista.
Com a mãe, Dona Clara, aprendeu a cuidar da casa. Tinha que encerar o assoalho de tábuas largas e o
chão da cozinha em vermelhão. Encerava e lustrava com o “escovão”. Tudo tinha
que ficar impecável, brilhando, para depois ir brincar.
Foi a “vó”
que o preparou para os mandados em São João del-Rei. Aos sete anos, já
circulava entre as duas cidades, para comprar o que se necessitava – de linha
para bordar até o fumo de rolo para o avô. Assim, aos poucos, foi construindo
sua vivência de menino, que sempre trabalhou.
Conta
que semanalmente ia à Cerâmica Progresso buscar cinzas dos fornos, para a “vó”
fazer sabão de bola e vender. Por vários anos, saía para vender em balaios os
caquis maduros em São João del-Rei. Circulava pelas ruas oferecendo a fruta
saborosa para os possíveis interessados. Vendia tudo. O mesmo ocorria com as
outras frutas sazonais.
Dona
Maria Luiza era benzedeira. Benzia de tudo, para gente e para os animais. Certo
dia, bateram à porta da casa, era um estrangeiro, do Circo de Roma, que chegara
na cidade. A grande atração do circo era o elefante – uma fêmea ainda jovem,
que ao passar na rua, o piso afundou e ela teve uma torção na pata e sentia
muito. O homem do circo pediu à Dona Maria Luiza para ir benzer a elefante. Lá
foram eles, a avó e o neto César Reis. A benzeção era com uma bola de cera,
pregos e uma linha. Dona Maria Luiza rezava e o neto respondia, como se fosse o
animal. O menino se viu diante aquele paquiderme gigantesco e fabuloso – conta
que ficou gravado em sua memória para sempre as suas impressões sobre o bicho –
o odor, a textura da pele, o volume, o movimento das orelhas, os pelos, a pata
ferida... No dia seguinte, o homem do circo bateu novamente à porta da casa,
agora para levar “tickets” de entrada para toda a família. A elefanta ficara
boa e todos foram convidados para o espetáculo inaugural do Circo de Roma.
A “vó”
benzia de tudo e sempre manteve atrás da porta da alcova as três estrelas, a
representar os santos Reis Magos, Baltasar, Gaspar e Melquior. Mulher de forte
personalidade e potente religiosidade. Aprendera com os seus antepassados de
origem indígena os segredos das plantas de uso medicinal tradicional, cuidou da
saúde dos seus descendentes com os chás caseiros. Como lenheira, subia as
trilhas da Serra de São José para buscar lenha para o uso doméstico e entre os
galhos secos, trazia as ervas necessárias para tratar da prole.
Procissão de
Corpus Christi, Dona Maria Luiza, a primeira da fila a direita,
na companhia
de suas netas. Década de 1980. Fotografia: Luiz Cruz.
A
primeira vez que entramos na casa do Largo do Ó ficamos surpresos, havia muitas
plantas e muitas flores. Os copos-de-leite estavam lindos. Dona Maria Luiza nos
disse: “plantamos, cuidamos, colhemos e oferecemos à Nossa Senhora. É só para
ela”. Essa fala ficou guardada em nossas lembranças.
Por
décadas consecutivas Dona Maria Luiza cuidou da Igreja de São João Evangelista,
com a ajuda das filhas e dos netos. Para as celebrações da Semana Santa,
ornamentava os andores, com as flores que cultivava e ainda as das pessoas que
faziam promessas, ao cultivar e enviar as flores para os andores. O mesmo
ocorria com o andor do Pai Eterno, do Santuário da Santíssima Trindade. Dona
Maria Luiza fez a ornamentação dos andores por muitos anos, com muita
dedicação. Era tudo singelo, mas com arranjos elegantes e de bom gosto. O
principal era a imagem, a ornamentação era um componente secundário; diferentemente
da atualidade, agora as floriculturas são contratadas e as flores são
utilizadas em profusão, a sobrepor a imagem no andor – prima a ostentação.
Ainda,
ao longo de muitos anos, Dona Maria Luiza cuidou do Passo da Paixão do Largo do
Ó, limpando e preparando-o para as procissões. Depois, esse encargo ficou com
as filhas, até que a Paróquia de Santo Antônio e a Irmandade do Senhor dos
Passos tomaram as chaves das tradicionais zeladoras dos Passos.
Dona Maria Luiza ornamentando o andor do Pai Eterno,Santuário da Santíssima Trindade. Década de 1970. Fotografia: acervo da família.
Sr.
Antônio, que descendia da família “Veloso”, sempre se dedicou à plantação no
terreno de sua propriedade, outros da família também cultivavam e trabalhavam com
olaria. Gostava muito pescar na lagoa do Cacheu e levava o neto César Reis em
sua companhia. Sempre apreciou futebol e torcia para o time do Grêmio Esportivo
São João Evangelista. Foi um torcedor empolgado.
Antônio Sotero da Costa, no adro da
Matriz de Santo Antônio. Fotografia: Walter Firmo, década de 1980.
Fachada da Casa do Largo do Ó, 1.
Fotografia: Luiz Cruz.
Da
casa dos avós paternos, César Reis guarda muitas recordações e muito
aprendizado. Posteriormente, Yves Alves adquiriu e restaurou o imóvel; e nele,
por 17 anos consecutivos, funcionou a sede do Instituto Cultural Biblioteca do
Ó, onde foram desenvolvidas suas atividades. Uma delas foi a criação do Congado
de São Benedito, projeto que contou com o apoio financeiro da Fundação Palmares.
Percorrendo
seu caminho
Paulo
Reis que era militar, deixou a PMMG e foi trabalhar como pedreiro e com a
montagem de taipá. Por oito anos, César acompanhou o pai ajudando-o como seu
auxiliar. Até que partiu para a carreira solo, na atividade de pintor. Em 1989,
prestou concurso para a Funrei, a atual UFSJ, para o cargo de pintor. Obteve
aprovação e iniciou no trabalho em janeiro de 1990. Nesse mesmo ano, conheceu e
se casou com Bernadete Maria Silva Reis Costa. A filha única do casal, Jéssica
Augusta Reis da Costa, nasceu em 1992.
Bernadete e César. Fotografia: Luiz Cruz.
A fotografia
Nos tempos de criança descobriu o fascínio pela fotografia. Sua tia, a Dona Carmelita, sempre foi uma pessoa independente economicamente, ela trabalhava como ourives na Oficina São Judas Tadeu, do Mitula. Gostava de viajar e um dia comprou uma câmera fotográfica. Sempre que passeava na Serra de São José, fazia os registros fotográficos. Foi através de Dona Carmelita que César se encantou pela fotografia. Ele conta, ainda, que quando criança, gostava de observar o Eros Conceição fotografando as celebrações de primeira comunhão, formatura e outras. Quando Eros usava o seu potente “flash” ficava maravilhado – “aquela luz, aquele som”. Hoje, César possui um acervo fotográfico gigantesco, todo digitalizado.
César Reis, aos 10 anos, atravessando a Serra de São José.
Fotografia: Dona Carmelita, acervo César Reis.
César Reis no Alto da Serra de São José contemplando a
Paisagem de Tiradentes. Fotografia: César Reis.
Orgulhoso,
fala que Jéssica, sua filha, foi a grande vencedora do concurso de fotos da
primeira edição do Festival de Fotografia de Tiradentes. César já participou de
exposição desse festival e foi também homenageado. Uma de suas fotografias
ilustrou o catálogo do evento, a imagem teve reprodução e distribuição pelo
festival.
Praticamente
em todos os eventos externos da cidade encontramos o César fotografando. Sempre
bem-humorado e fascinado por sua terrinha, nossa amada Tiradentes. É grande
incentivador e apoiador das nossas lutas em defesa da Serra de São José, por
isso esteve presente em todas as nossas manifestações “Pelo Tombamento Federal
da Serra de São José Já”.
César Reis fotografando o Cortejo das
Artes. Fotografia: Luiz Cruz.
César Reis na grande manifestação em defesa da Serra de São José,
Largo das Forras, Tiradentes. Fotografia: Luiz
Cruz.
César Reis no grande Cortejo das Artes da Mostra de Cinema de Tiradentes,
Ala Verde da Serra de São José. Fotografia: Luiz Cruz.
Um homem de paixões ardentes
Desde
a tenra idade, César devota imensurável paixão à avó Maria Luiza, uma cidadã
admirada por todos os familiares e pela comunidade tiradentina. Depois,
conheceu sua amada Bernadete, esposa e companheira do cotidiano. Encantou-se pela
filha Jéssica, o amor de sua vida. Mas ele tem mais paixões potentes, além das mulheres
e da fotografia. Outra paixão é o seu time de coração, o Flamengo. Ama o
ciclismo – já percorreu diversas trilhas do Campo das Vertentes, conhece tudo
como as linhas da sua mão. Adora as atividades na Serra de São José,
principalmente a caminhada matinal para apreciar a luminosidade sobre as rochas
e a vegetação. Segue de perto o calendário lunar, para obter as fotografias
mais sensíveis e ao mesmo tempo as mais espetaculares do Irmão Sol e da Irmã
Lua.
Além e
tudo isso, é um grande companheiro nosso. É sobretudo um homem generoso.
Compreende que o Planeta Terra foi um grande presente para a humanidade e que
juntos precisamos promover ações para deixá-lo em melhores condições para os
nossos descendentes.
Mais
uma vez, com os olhos a brilhar, nos conta que tudo na sua vida foi muito forte.
Porém, nada supera a alegria ao nascer do seu neto – Bernardo Costa Silveira,
em 2019. Depois que o neto nasceu, tudo ficou mais bonito, mais sensível, mais
vívido. E arremata, “ser avô foi a maior alegria da minha vida!”.
Luiz
Cruz
Nasceu e vive em Tiradentes. É
professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela
EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG.
Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela
UEMG/U.S.Fish e em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou
artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.
Apoio institucional:









