sexta-feira, 24 de julho de 2026

 

 

 Museu do Tiradentino

 Virtual

 

 

 

Lúcia Gomes e as memórias

do Largo das Mercês


 

Dona Lúcia Gomes, em 2002, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Maria Lúcia Gomes Paolucci é antiga moradora do Largo das Mercês, nascida em 18 de agosto de 1939; filha de João Andrade Gomes – Sô Nhonhô Gomes e Maria da Glória Rocha Gomes – a Dona Zizi. O casal teve prole numerosa, foram quinze filhos.

A família Gomes sempre viveu no Largo das Mercês, mas por certo período, a casa recebeu obra e teve que se mudar. Os Gomes moraram no Largo das Forras, em imóvel que pertencia a Nelson Paolucci, posteriormente propriedade do casal Francisco Barbosa Junior e Diva Fonseca Barbosa. Foi nessa casa que nasceu Maria Lúcia Gomes.

 

 O casal Sô Nhonhô Gomes, Dona Zizi e a família. Casa do Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes.


Os filhos iniciavam no trabalho cedo e quando os mais velhos iam estudar ou casar, os mais novos sucediam nas atividades cotidianas. Desde a infância Lúcia Gomes trabalhou muito. Pastoreava os carneiros, buscava água potável no Poço da Sá Ritinha e para o uso doméstico. Nesse poço, ajudava na lavagem das roupas. Dona Zizi fazia os seus deliciosos doces nos grandes tachos de cobre, em especial os das frutas sazonais. Lúcia Gomes vendia leite e doces para a mãe.

Dona Zizi foi doceira afamada na cidade, fazia muitos doces e os organizava em balaios. Lúcia saia para vendê-los. Quando chegava o Jubileu da Santíssima Trindade, a produção de doces era destinada ao Sr. Teixeira, que vendia na festa – ele tinha o mote: – Olha o doce, passa fome quem quer.


Dona Zizi e Sô Nhonhô Gomes. Fotografia: Acervo Família Gomes.


A família numerosa contava ainda com os agregados, os homens que trabalhavam nas plantações – milho, arroz, feijão, mandioca, nos “Gomes” e no Cacheu. Tinha os que cuidavam dos animais, Sô Nhonhô foi um importante criador de muares e recebeu prêmios nacionais; ainda tinha as tropas e os carros de boi.

Tudo era exagerado, muita roupa para lavar e cuidar, muita comida para preparar e servir, fazer as merendas para o café.


Primeiro Prêmio conferido ao Sô Nhonhô Gomes, pela participação do “muar denominado Brasileiro”, V Exposição Nacional de Animais e Produtos Derivados,Rio de Janeiro, 1936. Acervo Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.


O trombone do Sô Nhonhô Gomes. Acervo: Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Sô Nhonhô Gomes tocava trombone e integrou a Banda Ramalho. Apreciava o violão. Foi caçador tradicional e teve muitos cachorros de caça. Participava de grandes caçadas no Pantanal, a demandar tempo e organização para transcorrer bem. Tudo era montado no Largo das Mercês. Como a matilha era numerosa, nessa ocasião a cidade toda ouvia a algazarra dos animais. Quando era possível, as caças eram soltas nas matas da Serra de São José para reproduzir. Manter os cães dava trabalho, Lúcia Gomes ajudava a preparar a comida deles, angu com aparas de carne.

 

Sô Nhonhô Gomes nos preparativos para a caça, Largo das Forras, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.


Lúcia Gomes estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama, depois ingressou no internato do Colégio Imaculada Conceição, em Barbacena. Conta que lá vivenciou boas experiências, tinha as salas para as atividades manuais que gostava. Foi do Coral Canto Orfeônico e apresentava na Rádio de Barbacena e até no Rio de Janeiro. Sempre gostou muito de música, fazia a 2ª e a 3ª voz.

Na infância, participou das Pastorinhas preparadas pela cantora lírica Dona Olinda Rocha. Com as Pastorinhas saia visitando os presépios no final do ano.

Trabalhou sempre, mas teve uma infância feliz.

Em 1959, formou-se e em 1960 começou a trabalhar como professora. Adorava lecionar.

Casou-se em 1963, na Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, com Humberto de Oliveira Paolucci e passou a assinar Maria Lúcia Gomes Paolucci. Foram morar no Sobrado dos Quatro Cantos, depois viveram por certo tempo na Casa da Cerâmica. O casal tem dois filhos: Solange e Humberto e cinco netos.

 

Humberto e Lúcia, cortando o bolo de casamento. Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci. 

 

Humberto e Lúcia, Largo das Mercês. Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci. 

 

Dona Lúcia Gomes fez um curso para ser “Supervisora de Merenda no Município”. Trabalhou no Departamento Municipal de Educação e Saúde e dava assistência pedagógica nas escolas municipais de Tiradentes, na administração dos prefeitos: Josafá Pereira Filho, Nilzio Barbosa e Mauro Barbosa. Após se aposentar, trabalhou por certo período no Cartório de Registro Civil e Notas de Tiradentes.

 

Dona Lúcia Gomes em sua casa no Largo das Mercês. Fotografia: Luiz Cruz.

 


O marido Humberto Paolucci

 

A família Paolucci tem origem italiana, com forte presença na Toscana. No século XIX, com a imigração, os Paolucci acabaram bastante populares. A base dos pioneiros no Campo das Vertentes foi em Barbacena. Desde os primeiros anos do século XX, Martins Paolucci e Alberto Paolucci tornaram-se importantes referências em Tiradentes.

Humberto trabalhou na Cerâmica Progresso e no Cartório de Registro Civil e Notas de Tiradentes. Gostava de pintura e de fotografia. Na Várzea do Cacheu, onde Sô Nhonhô Gomes plantava, recolheu um conjunto de artefatos dos povos originários, atualmente no acervo do Museu Casa Padre Toledo.


Humberto Paolucci próximo ao Ribeiro Santo Antônio e a antiga ponte ao fundo, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.

 

Humberto Paolucci e João Lopes – que foi Juiz de Paz, no Cartório, Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.


A rede familiar

 

Até construir a casa da família, no Largo das Mercês, Humberto e Dona Lúcia viveram certo tempo na Casa da Cerâmica – na Cerâmica Progresso e no Sobrado dos Quatro Cantos, na atual Rua Direita, outrora Rua 15 de Novembro. Essa edificação pertenceu ao avô dela, Galdino Rocha, que lá montou o Hotel São José. A avó era Josefina Ramalho, irmã do velho maestro Joaquim Ramalho.

Muitos hóspedes do Hotel São José vinham fazer estação de águas, no Balneário das Águas Santas e para tal, utilizavam o trem da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas. Faziam baldeação, com a parada na Estação Chagas Dória, com a ramificação até o Balneário. Infelizmente esse trecho da linha férrea foi desativado e a Estação das Águas Santas demolida.

A Família Gomes guarda até o presente, parte da louça inglesa, dos serviços do Hotel São José, que funcionou no Sobrado dos Quatro Cantos. 

 

Louça inglesa do serviço do Hotel São José, que funcionou no Sobrado dos Quatro Cantos. Acervo: Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.


Nota do Hotel São José, propriedade de Galdino Rocha, avô de Dona Lúcia Gomes. Arquivo: Luiz Cruz.

 


 Fundo do Sobrado Quatro Cantos, onde funcionou o Hotel São José. Fotografia: Luiz Cruz.

 

As Gomes se dedicaram à Educação. Dona Leonor e Dona Vitória foram professoras e supervisoras pedagógicas, trabalharam em Tiradentes e em São João del-Rei.

 

 

Dona Lúcia em sua casa, Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

As três irmãs


Do grande núcleo familiar Gomes, três estiveram muito unidas: Dona Leonor, Dona Vitória e Dona Lúcia. Cada uma com sua personalidade e afinidades, e em comum o gosto pela vida e a participação do cotidiano de Tiradentes. Dona Leonor foi uma das mais animadas carnavalescas da história da cidade, a única que tinha energia para sair em todos os blocos. Desfilava, ia para casa trocava de fantasia e lá estava ela novamente. Criou o Bloco Palhaçada, que atualmente arrasta milhares de foliões pelas ruas do centro antigo. Escreveu e publicou o seu livro de memórias. O lançamento da sua obra ocorreu no jardim do Centro Cultural Yves Alves, a propiciar um agradável encontro de muitos familiares, amigos e admiradores dessa animadíssima tiradentina.


Dona Leonor no dia do lançamento do seu livro: História, Lembranças, Memórias. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Dona Lúcia, Dona Leonor e o prefeito Nilzio Barbosa no dia do lançamento do livro. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

 Dona Lúcia e Dona Leonor com familiares no lançamento do livro. Jardim do Centro Cultural, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

As Gomes sempre prestigiaram os eventos culturais da cidade. Apoiaram os projetos sociais, em especial a APAE de Tiradentes, que realiza trabalho de inclusão, educação e assistência especializada da maior relevância para a comunidade. Mas em todas as oportunidades, realizaram viagens pelo Brasil e exterior. Dona Lúcia aproveitou e enfatiza que dos países que mais apreciou foram Portugal e Itália.

 

  

Dona Vitória, Dona Lúcia e a filha Solange, Dona Nilber Barbosa e Dona Vanda. Exposição de trabalhos dos assistidos da APAE de Tiradentes. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Dona Vitória, Dona Lúcia e Dona Cenira e sua filha Mariana. Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Dona Vitória acompanhando obra de canalização de água pluvial.Rua Alberto Paolucci, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.  


Muito religiosa, após se aposentar, Dona Vitória foi Ministra da Eucaristia. Prestou relevante trabalho voluntário junto à Paróquia de Santa Antônio. 

 

A Ministra da Eucaristia Dona Vitória, na Procissão de Ramos. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz. 

 

As três irmãs, com quem tivemos o privilégio de conviver, sempre alegraram o Largo das Forras, cada uma à sua maneira. A casa grande, implantada em amplo terreno, tem diversos cômodos e guarda histórias e infinitas memórias. O mobiliário, as fotografias, as louças, as imagens devocionais, os utensílios de cozinha – inclusive os tachos de cobre usados por Dona Zizi para fazer os doces. Os objetos do tropeirismo, das tropas do Sô Nhonhô Gomes. Tantas janelas, tantas portas. Tudo está ali bem cuidado e pronto para nos revelar casos e mais casos, basta parar e indagar cada elemento.

  

Casa da Família Gomes. Largo das Forras, Tiradentes.Fotografia: Luiz Cruz.

 

Aspecto da cozinha da casa da Família Gomes. Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Com o passar do tempo, assistiram as transformações urbanísticas e arquitetônicas do Largo das Mercês, por onde passam as tradicionais procissões da Festa de Passos e de Nossa Senhora das Mercês. No largo, eram montadas as tendas dos circos. Foi agenciado na década de 1980, através de projeto de autoria do mais importante paisagista brasileiro, Roberto Burle Marx. Por lá passam as guardas de congado para reverenciar uma das mais arraigadas devoções do povo de origem afro-brasileira – Nossa Senhora das Mercês. Abrigou as “Chácaras e Queima do Judas”, encerrando as festividades da Semana Santa e com participação do povo. No largo passa ainda o Cortejo de Carros de Boi, organizado pelas famílias Costa e Zerlotini. Lá ocorreu a 1ª Mostra de Cinema de Tiradentes – em uma tenda circense e com expressiva participação da comunidade. O largo abrigou exposições de esculturas dos eventos culturais de Tiradentes e nos finais de ano, recebe o Presépio.

Infelizmente, o Largo das Mercês já foi utilizado de maneira inadequada, especialmente como estacionamento nos períodos de maior fluxo de visitantes. Quando ocorre os temporais, o Largo das Mercê fica alagado e as águas pluviais invadem as casas, porque na parte alta do Parque das Abelhas existia uma represa de coleta dessas águas e foi soterrada, como como o córrego que lá existia. Essa área do Parque das Abelhas foi loteada e o prejuízo ficou para os moradores da parte mais baixa da cidade, especialmente os do Largo das Mercês.

 

Largo das Mercês, Tiradentes, década de 1980. Foto: Eros Conceição, arquivo Luiz Cruz.

 

Projeto de Roberto Burle Marx para o Largo das Mercês, Tiradentes,1980. Acervo IHGT.

   

 

Uso inadequado do Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografias: Luiz Cruz.

 

 

 Obra de restauração do calçamento do Largo das Mercês, Tiradentes, 2015. Foto: Luiz Cruz.

  

Amanhecer no Largo das Mercês. Fotografia: Luiz Cruz.

 

O sobrinho das Gomes, o engenheiro agrônomo e pesquisador Arthur Moraes Gomes, realizou profunda pesquisa sobre o Largo das Mercês, tema da sua dissertação de mestrado, sob o título: Levantamento histórico, sociocultural e paisagístico do Largo das Mercês em Tiradentes, Minas Gerais, defendida em 2021, na UFLA-Universidade Federal de Lavras. Essa, tornou-se a principal referência bibliográfica sobre esse importante logradouro.

 

 

Dona Zizi. Fotografia: Acervo Família Gomes.

 

O numeroso núcleo familiar Gomes teve uma matriarca muito admirada. A cada visita que fizemos às três irmãs, ouvíamos relatos inflamados e repletos de carinho por Dona Zizi.

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

 

Referências:

CRUZ, Luiz Antonio da. BOAVENTURA, Maria José. (Org.). Memória Tropeira. Tiradentes: IHGT, 2014.

CRUZ, Luiz Antonio da. BOAVENTURA, Maria José. (Org.). Memórias e tradições Populars. Tiradentes: IHGT, 2016.

CRUZ, Luiz Antonio da. Tiradentes, a cidade enlutada. Disponível em:

https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2022/08/cidade-enlutada-dona-leonor-no-dia-do.html

CRUZ, Luiz Antonio da. Palhaçada em Tiradentes. Disponível em:

https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2020/02/palhacadaem-tiradentes-luizcruz-hoje.html

GOMES, Arthur Moraes. Levantamento histórico, sociocultural e paisagístico do Largo das Mercês em Tiradentes, Minas Gerais. Dissertação (mestrado acadêmico) - Universidade Federal de Lavras, 2021.


 Apoio institucional:



terça-feira, 14 de julho de 2026

  

 

 

 Museu do Tiradentino

 Virtual

 



Dona Florinda

A formosa flor de cidade

 

Ela nasceu em 13 de março de 1933, em Tiradentes. Filha de Antônio Moreira da Costa e Maria Glória da Luz. Foi criada na casa do Beco do Chafariz e quando criança gostava de passear e brincar no Alto de São Francisco, ia sempre lá na companhia da avó. Teve uma infância difícil, pelas condições econômicas; as roupas passavam por muitos remendos e o avô fazia os calçados artesanais, para que pudesse ir à escola. No Grupo Escolar Basílio da Gama, do 1º ao 4º ano, Rosina Paolucci foi sua professora, de quem guarda belas recordações. Na juventude, gostava de dançar nos bailes. Sua família veio do Cajuru, distrito de São João del-Rei, que tem como padroeiro São Miguel Arcanjo.



Dona Florinda em sua casa, bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2002.

Fotografia: Luiz Cruz.


          

Em 1950, aos 17 anos, Dona Florinda casou-se com José Maria Muniz e passou a assinar Florinda Joana Muniz. O pai de José era o proprietário da Chácara do Pacu, onde viviam. Depois de casados, Dona Florinda e José foram morar na Rua Direita, na casa de número 55, que fora emprestada por Dona Gininha, onde posteriormente viveu Antônio Tibúrcio.

Dona Florinda e José construíram uma família numerosa. O primogênito é Vicente Pedro Muniz, depois vieram Francisco de Paula, Maria Luiza, Lúcia de Fátima, Lizete Geralda e Lucilene das Neves. Tem muitos netos e muitos bisnetos.

José Maria Muniz trabalhava para Vicente Guerra, possuidor de imóveis na cidade. Por certo tempo, o casal morou na casa do Beco do Chafariz, depois se mudou para a Chácara, no Largo das Mercês, 149, propriedade de Vicente Guerra. Desse imóvel, a família se transferiu para outro, na Rua da Câmara, 58, também propriedade de Vicente Guerra.

 

Maria Luiza, Dona Florinda, José, Lizete e Lucilene.

Fotografia: Acervo Família Muniz.


Dona Florinda vivenciou bons momentos na Chácara, no Largo das Mercês. A casa foi instalada num amplo terreno, cheio de árvores frutíferas e havia fartura de frutas. Esse imóvel foi adquirido e doado para as freiras de Nossa Senhora das Dores e atualmente abriga o Instituto Mário Mendonça, que pode ser visitado, através de agendamento. Posteriormente, a propriedade foi denominada “Chácara das Pitangueiras”.

 

Chácara onde Dona Florinda viveu com a família.

Atualmente abriga o Instituto Mário Mendonça. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

A família Muniz morou em outras casas e teve um terreno, que fora vendido para Nicolau Panzera. Até que se fixaram no bairro Cascalho, na Rua Vereador Antônio Hipólito do Nascimento, 79, onde vive há mais de quatro décadas. E Dona Florinda ressalta: – O Cascalho é uma beleza, adoro morar aqui, é tudo de bom.

Dona Florinda tem orgulho de suas raízes e sempre frequentou o Cajuru, principalmente para participar das celebrações a São Miguel Arcanjo. Lembra-se que a Capela de São Miguel chegou a ficar em péssima situação de conservação; depois, foi restaurada. Toda orgulhosa, conta que era bisneta de Maria Joaquina, que faleceu com 100 anos de idade, ainda lúcida. Ela gostava de preparar as comidinhas simples como o palmito e o broto de samambaia, colhidos em lugares mais frescos. Maria Joaquina vivia no Cajuru; tinha só uma “vista”, a outra ficara comprometida em consequência da varicela.

 

Dona Florinda, em registro da família. Fotografia: Acervo Família Muniz. 


Dona Florinda trabalhou muito para ajudar no sustento da família. Fazia bolinho de feijão. Fazia os doces juntamente com o marido, o biscoito de amendoim na calda cristalizada, os doces de frutas: mamão, cidra e figo. Preparava o crocante canudinho de doce de leite e o doce de batata-doce. Semanalmente mandava quatro balaios de doces para os “fregueses” em São João del-Rei. No trem, da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas, mandava doces para Barroso e para Antônio Carlos.

Foi fazendo e vendendo doces que o marido José e ela conseguiram se aposentar.

Os filhos Vicente e Francisco aprenderam a fazer os tradicionais doces.


Dona Florinda, em registro da família. Fotografia: Acervo Família Muniz. 


 

No Cajuru 

 

Por causa de sua devoção a São Miguel e pela tradição familiar de fazer e vender doces, vivenciou uma experiência dramática, no Cajuru. Era domingo da festa, na rua, dezenas de barracas estavam preparadas para a chegada dos romeiros. O movimento era intenso, quando no topo da ladeira um caminhão perdeu o freio e desceu arrastando barracas e romeiros. Dona Florinda estava lá com o filho Vicente e o carrinho de doces. No pânico geral, Vicente só teve tempo para puxar e proteger a mãe. Não fosse ter colidido com o carro de Vicente, o caminhão continuaria atropelando barracas e romeiros.

Esse acidente deixou muitos feridos e vítimas fatais, inclusive crianças. O Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes foi acionado e participou do resgate das vítimas. Diversos aspectos desse grave acidente do Cajuru foram registrados fotograficamente.

Quando as providências estavam concluídas, os Voluntários retornaram a Tiradentes e trouxeram Dona Florinda para sua casa. E ela nos contou: – Só fui salva por ação de meu protetor São Miguel Arcanjo. 


 

Acidente no Cajuru, o caminhão desenfreado colidiu com o veículo

 de Vicente e causou grande tragédia, com vítimas fatais.

Cajuru, São João del-Rei-MG. Fotografia: Luiz Cruz.  

 

Moradora do bairro Cascalho por décadas consecutivas, conhece todos. Sempre que passávamos por sua casa, trocávamos um dedo de prosa. Dona Florinda gosta de contar sobre a vida tão difícil que foi em Tiradentes na primeira metade do século passado. Com orgulho, fala sobre a proeza de criar a família produzindo doces.

Agora, nossa amiga nonagenária está mais resguardada. A saúde requer mais atenção e mais cuidados.

  

Dona Florinda em sua casa, no bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2018.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

Era com alegria que sempre parávamos e fazíamos a saudação: – Boa Tarde, Dona Florinda! Como a Senhora está? Logo, ela respondia: – Boa Tarde, meu filho! Estou bem. Estou aqui aproveitando o sol da tarde. E ela abria aquele sorriso iluminado. Sabíamos que aquela saudação era importante para ela. Considerar, reverenciar e humanizar é necessário. 

 

 

Dona Florinda em sua casa, no bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2022.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

O marido

 

José Maria Muniz, seu marido, trabalhou demais na vida. Mas fazia o que gostava. Foi musicista, tocava trompa e integrava a Sociedade Orquestra e Banda Ramalho, atuante desde 1860. Participava de todas as apresentações musicais, as religiosas e as civis. Dona Florinda gostava de viajar com os músicos e uma dessas apresentações da Orquestra Ramalho ocorreu em Brasília, na década de 1970.


                

José Maria Muniz em Brasília, década de 1970. Fotografias: Acervo Família Muniz.

 

José Maria Muniz com integrantes da Banda Ramalho

Fotografias: Acervo Família Muniz.


Em 1976, por iniciativa de Yves Alves e com o apoio institucional da Rede Globo Minas, foi gravado o LP Minas, 1717-1977 (Região do Rio das Mortes), pela Som Livre. Teve a participação das orquestras de Tiradentes, Prados e São João del-Rei. A gravação da Orquestra Ramalho foi um sucesso e ocorreu no coro da Matriz de Santo Antônio, que contou com a participação dos antigos musicistas e lá estava José Maria Muniz. O período de apoio e divulgação da música da região do Rio das Mortes se tornou elementar para o fortalecimento das tradicionais instituições musicais da região.

 

Coro da Matriz de Santo Antônio, Tiradentes-MG.

 Orquestra Ramalho durante a gravação para o LP da Som Livre, 1976.

Fotografia: Francisco Botelho, acervo: Luiz Cruz. 


 


LP gravado em 1976, com a participação da Orquestra Ramalho e

 do musicista José Maria Muniz. Acervo: Luiz Cruz.


 

Vicente Pedro Muniz 

 

O primogênito dos Muniz nasceu em 29 de junho de 1954, na casa do Beco do Chafariz. Estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama. Desde cedo, teve que trabalhar e ajudar na venda dos doces. Mais tarde se dedicou às mais variadas atividades, inclusive como vigilante de instituição financeira, até se aposentar. Porém, sempre produzindo e comercializando os doces caseiros.

Vicente foi presença nas festas religiosas com o carrinho de doces, tornou-se figura tradicional no Jubileu da Santíssima Trindade e nas festas regionais, como a de São Miguel Arcanjo, no Cajuru; a de Santo Antônio, no Rio das Mortes; a do Livramento, em Prados; a de Nossa Senhora de Nazaré, em Nazareno; a de Sant’Ana, em Barroso e tantas outras. 

Casou-se cedo, aos 19 anos, com a bela Nilza Silveira. O casal teve os filhos Giovani, Jackson, Eva e Vilma e tem cinco netos: Miguel, Inácio, Andreza, Valentina e Bárbara.  


 

Vicente e Dona Nilza, com os seus padrinhos de casamento. 

Ao lado da noiva, o seu pai, Mário Silveira. Matriz de Santo Antônio, 1973.

 Fotografia: Acervo Família Muniz.


Depois de aposentado, Vicente escreveu e publicou um livro de memórias intitulado Reminiscências. Na obra, ricamente ilustrada, a contar suas peripécias de menino e suas atividades, sobretudo a produção dos doces caseiros. 


 

Vicente Muniz e seu Carrinho de Doces, no Jubileu da Santíssima Trindade, 

Tiradentes-MG, 2024. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Detalhe do Carrinho de Doces de Vicente Muniz. Tiradentes-MG, 2024.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Em Reminiscências, Vicente apresenta a receita e o modo de fazer do “Biscoito de Amendoim”, que aprendeu a fazer com os pais. Trata-se de um doce muito tradicional de Tiradentes e bastante apreciado. 


 



O livro de Vicente Muniz foi publicado através de projeto idealizado pela Oficina de Teatro Entre & Vista e contou com o apoio do Conselho Municipal de Políticas Culturais e Patrimônio de Tiradentes.

 

Francisco de Paula Muniz 

 

É o segundo filho de Dona Florinda e José, nascido em 5 de maio de 1956. Estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama e no Ginásio Dom Delfim Ribeiro Guedes. Em São João del-Rei, cursou o Ensino Médio na Escola Estadual Cônego Osvaldo Lustosa; naquele tempo para estudar naquela escola tinha que passar por exame de seleção. Conta que teve excelentes professores e deles guarda boas lembranças.

Ia estudar em São João del-Rei e levava os balaios de doces para vender. Assim, conseguiu completar os seus estudos. Sempre trabalhando.


 

Chiquinho da Florinda, em 2002. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Com a família, viveu em algumas casas do núcleo antigo de Tiradentes e nasceu em uma que não existe mais na Rua Direita (atualmente sem número), a que ficava ao lado da antiga Cadeia, a casa do Chico Machado. Essa edificação ruiu completamente no início da década de 1970. De todas as casas que morou, gostou mais da Chácara, do Largo das Mercês. 

 

Chácara do Largo das Mercês, onde viveu a Família Muniz. Tiradentes-MG.

 Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Sempre gostou de cozinhar e ajudou os pais nos preparos dos doces. Chiquinho da Florinda, como é conhecido na cidade, sempre teve uma vida dinâmica. Montou o time de futebol, o São José, que participou e venceu vários torneios. Apreciava o volleyball. Ainda, jogava baralho e tem uma coleção de troféus dessa atividade. 

 

Parte da coleção de troféus que Chiquinho conquistou nos torneios de baralho.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Durante certo tempo manteve a coluna Contos e Lendas da Cidade, publicada no jornal editado pela Mazé. Teve o Grupo de Teatro Pintando o Sete, que realizou diversas apresentações em Tiradentes, Resende Costa, São João del-Rei, Muriaé e outras localidades.

Durante anos consecutivos fez caminhadas na Serra de São José. Passeava. Ia para apreciar a exuberante natureza – a vegetação – em especial as orquídeas, os pássaros, as rochas, as cachoeiras, os riachos.  Conhecia tudo. Aproveitou bem as frutas da serra: gabirobas, jacas, araçás, jambos, araticuns, banana do brejo, marmelo, veludo, ingá. Trazia os pinhões para assar em casa.

É devoto da Santíssima Trindade e durante muitos anos trabalhou voluntariamente na cozinha, durante o Jubileu. Fazia comida para muita gente. Passava a novena toda trabalhando, cozinhando.

Ia à Serra de São José para buscar ramos para a Procissão de Domingo de Ramos e arnica para enfeitar os altares das igrejas. Ajudava na organização da Semana Santa, por certo tempo cuidou da produção do figurado de Sexta-feira da Paixão e nesse dia ia às fazendas para pedir leite para fazer arroz-doce.

Um dos passeios que mais gostava era o de trem, quando circulava entre São João del-Rei e Antônio Carlos. Saía de Tiradentes às 8h e chegava lá às 12h. A função durava o dia todo. Organizou vários grupos para fazer esse passeio de trem completo, na EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas.

  

Chiquinho da Florinda e amigos, antigo Parque de Exposições de Tiradentes.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

Trabalhou muito. Incialmente, no Bar do Ivan. Depois como restaurador e pintor de parede. Pintou várias igrejas. Por certo tempo, dedicou-se à cerâmica artística e produção de vasos ornamentais. Finalmente, foi parar na rede hoteleira local, trabalhou por cerca de 30 anos no Pouso das Geraes, onde se aposentou.

 

Chiquinho da Florinda, no seu posto de trabalho no Pouso das Gerais.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

É devoto da Santíssima Trindade e de Nossa Senhora Aparecida. Torcedor do time tricolor, o Fluminense. Tem uma paixão imensurável na vida, sua mãe, Dona Florinda, com quem vive.

 

Chiquinho da Florinda e Dona Florinda. Fotografia: Acervo Família Muniz.



Rafael Muniz Batista 

 

É um dos netos de Dona Florinda. Nasceu em 17 de dezembro de 1988 e seus pais são José Tarcísio Batista e Lucilene das Neves Muniz Batista. Morou na companhia da avó Florinda durante 17 anos e gostava muito da vida no bairro Cascalho.

 

Rafael Muniz Batista, neto de Dona Florinda. Tiradentes, 2002.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Estudou na Escola Municipal Marília de Dirceu e na Escola Estadual Basílio da Gama. Atuou como coroinha na Paróquia de Santo Antônio. Seu primeiro trabalho foi na Pousada Vila Alferes, depois exerceu outras atividades, nos serviços gerais e pintor. Com Suelen Oliveira teve o filho Leonardo Oliveira Muniz – um dos bisnetos de Dona Florinda. Atualmente vive Divinópolis.

 

A matriarca Muniz

 

Dona Florinda trabalhou intensamente para ajudar na criação dos filhos e dos netos. Agora, nonagenária, olha para o tempo, aprecia a bela história de vida que construiu e repleta de muitos sabores. Sempre esteve de bem com tudo e com todos, mas nos momentos difíceis invoca os santos de sua proteção: São Geraldo Majela e São Miguel Arcanjo.

  

Dona Florinda em sua casa, bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2018.

Fotografia: Luiz Cruz.


Dona Florinda é muito admirada pelos familiares, vizinhos e comunidade. Sua história de vida enriquece o Patrimônio Cultural de Tiradentes. 

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

 

Agradecimentos ao Maestro Willer Silveira e a Demétrio Campos Bissulle.

 

 Apoio institucional:






 

      

      

      

 

     

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