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Museu do Tiradentino Virtual
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Dona
Florinda
A
formosa flor de cidade
Ela
nasceu em 13 de março de 1933, em Tiradentes. Filha de Antônio Moreira da Costa
e Maria Glória da Luz. Foi criada na casa do Beco do Chafariz e quando criança
gostava de passear e brincar no Alto de São Francisco, ia sempre lá na
companhia da avó. Teve uma infância difícil, pelas condições econômicas; as
roupas passavam por muitos remendos e o avô fazia os calçados artesanais, para
que pudesse ir à escola. No Grupo Escolar Basílio da Gama, do 1º ao 4º ano, Rosina
Paolucci foi sua professora, de quem guarda belas recordações. Na juventude,
gostava de dançar nos bailes. Sua família veio do Cajuru, distrito de São João
del-Rei, que tem como padroeiro São Miguel Arcanjo.
Fotografia:
Luiz Cruz.
Em
1950, aos 17 anos, Dona Florinda casou-se com José Maria Muniz e passou a
assinar Florinda Joana Muniz. O pai de José era o proprietário da Chácara do
Pacu, onde viviam. Depois de casados, Dona Florinda e José foram morar na Rua
Direita, na casa de número 55, que fora emprestada por Dona Gininha, onde
posteriormente viveu Antônio Tibúrcio.
Dona
Florinda e José construíram uma família numerosa. O primogênito é Vicente Pedro
Muniz, depois vieram Francisco de Paula, Maria Luiza, Lúcia de Fátima, Lizete
Geralda e Lucilene das Neves. Tem muitos netos e muitos bisnetos.
José
Maria Muniz trabalhava para Vicente Guerra, possuidor de imóveis na cidade. Por
certo tempo, o casal morou na casa do Beco do Chafariz, depois se mudou para a
Chácara, no Largo das Mercês, 149, propriedade de Vicente Guerra. Desse imóvel,
a família se transferiu para outro, na Rua da Câmara, 58, também propriedade de
Vicente Guerra.
Maria Luiza,
Dona Florinda, José, Lizete e Lucilene.
Fotografia: Acervo
Família Muniz.
Dona
Florinda vivenciou bons momentos na Chácara, no Largo das Mercês. A casa foi
instalada num amplo terreno, cheio de árvores frutíferas e havia fartura de
frutas. Esse imóvel foi adquirido e doado para as freiras de Nossa Senhora das
Dores e atualmente abriga o Instituto Mário Mendonça, que pode ser visitado,
através de agendamento. Posteriormente, a propriedade foi denominada “Chácara
das Pitangueiras”.
Chácara onde
Dona Florinda viveu com a família.
Atualmente abriga o Instituto Mário Mendonça. Fotografia: Luiz Cruz.
A
família Muniz morou em outras casas e teve um terreno, que fora vendido para Nicolau
Panzera. Até que se fixaram no bairro Cascalho, na Rua Vereador Antônio Hipólito
do Nascimento, 79, onde vive há mais de quatro décadas. E Dona Florinda
ressalta: – O Cascalho é uma beleza, adoro morar aqui, é tudo de bom.
Dona
Florinda tem orgulho de suas raízes e sempre frequentou o Cajuru,
principalmente para participar das celebrações a São Miguel Arcanjo. Lembra-se
que a Capela de São Miguel chegou a ficar em péssima situação de conservação;
depois, foi restaurada. Toda orgulhosa, conta que era bisneta de Maria
Joaquina, que faleceu com 100 anos de idade, ainda lúcida. Ela gostava de
preparar as comidinhas simples como o palmito e o broto de samambaia, colhidos
em lugares mais frescos. Maria Joaquina vivia no Cajuru; tinha só uma “vista”,
a outra ficara comprometida em consequência da varicela.
Dona Florinda, em registro da família. Fotografia: Acervo Família Muniz.
Dona
Florinda trabalhou muito para ajudar no sustento da família. Fazia bolinho de
feijão. Fazia os doces juntamente com o marido, o biscoito de amendoim na calda
cristalizada, os doces de frutas: mamão, cidra e figo. Preparava o crocante
canudinho de doce de leite e o doce de batata-doce. Semanalmente mandava quatro
balaios de doces para os “fregueses” em São João del-Rei. No trem, da EFOM –
Estrada de Ferro Oeste de Minas, mandava doces para Barroso e para Antônio
Carlos.
Foi
fazendo e vendendo doces que o marido José e ela conseguiram se aposentar.
Os
filhos Vicente e Francisco aprenderam a fazer os tradicionais doces.
Dona Florinda, em registro da família. Fotografia: Acervo Família Muniz.
No Cajuru
Por
causa de sua devoção a São Miguel e pela tradição familiar de fazer e vender
doces, vivenciou uma experiência dramática, no Cajuru. Era domingo da festa, na
rua, dezenas de barracas estavam preparadas para a chegada dos romeiros. O
movimento era intenso, quando no topo da ladeira um caminhão perdeu o freio e
desceu arrastando barracas e romeiros. Dona Florinda estava lá com o filho Vicente
e o carrinho de doces. No pânico geral, Vicente só teve tempo para puxar e
proteger a mãe. Não fosse ter colidido com o carro de Vicente, o caminhão
continuaria atropelando barracas e romeiros.
Esse
acidente deixou muitos feridos e vítimas fatais, inclusive crianças. O Corpo de
Bombeiros Voluntários de Tiradentes foi acionado e participou do resgate das vítimas.
Diversos aspectos desse grave acidente do Cajuru foram registrados
fotograficamente.
Quando as providências estavam concluídas, os Voluntários retornaram a Tiradentes e trouxeram Dona Florinda para sua casa. E ela nos contou: – Só fui salva por ação de meu protetor São Miguel Arcanjo.
Acidente no
Cajuru, o caminhão desenfreado colidiu com o veículo
de Vicente e causou grande tragédia, com
vítimas fatais.
Cajuru, São João del-Rei-MG. Fotografia: Luiz Cruz.
Moradora
do bairro Cascalho por décadas consecutivas, conhece todos. Sempre que
passávamos por sua casa, trocávamos um dedo de prosa. Dona Florinda gosta de
contar sobre a vida tão difícil que foi em Tiradentes na primeira metade do
século passado. Com orgulho, fala sobre a proeza de criar a família produzindo doces.
Agora,
nossa amiga nonagenária está mais resguardada. A saúde requer mais atenção e
mais cuidados.
Dona Florinda
em sua casa, no bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2018.
Fotografia: Luiz Cruz.
Era com alegria que sempre parávamos e fazíamos a saudação: – Boa Tarde, Dona Florinda! Como a Senhora está? Logo, ela respondia: – Boa Tarde, meu filho! Estou bem. Estou aqui aproveitando o sol da tarde. E ela abria aquele sorriso iluminado. Sabíamos que aquela saudação era importante para ela. Considerar, reverenciar e humanizar é necessário.
Dona Florinda
em sua casa, no bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2022.
Fotografia: Luiz
Cruz.
O marido
José
Maria Muniz, seu marido, trabalhou demais na vida. Mas fazia o que gostava. Foi
musicista, tocava trompa e integrava a Sociedade Orquestra e Banda Ramalho,
atuante desde 1860. Participava de todas as apresentações musicais, as
religiosas e as civis. Dona Florinda gostava de viajar com os músicos e uma
dessas apresentações da Orquestra Ramalho ocorreu em Brasília, na década de
1970.
José Maria Muniz em Brasília, década de
1970. Fotografias: Acervo Família Muniz.
José Maria
Muniz com integrantes da Banda Ramalho
Fotografias: Acervo
Família Muniz.
Em 1976, por iniciativa de Yves Alves e com o apoio institucional da Rede Globo Minas, foi gravado o LP Minas, 1717-1977 (Região do Rio das Mortes), pela Som Livre. Teve a participação das orquestras de Tiradentes, Prados e São João del-Rei. A gravação da Orquestra Ramalho foi um sucesso e ocorreu no coro da Matriz de Santo Antônio, que contou com a participação dos antigos musicistas e lá estava José Maria Muniz. O período de apoio e divulgação da música da região do Rio das Mortes se tornou elementar para o fortalecimento das tradicionais instituições musicais da região.
Coro da Matriz
de Santo Antônio, Tiradentes-MG.
Orquestra Ramalho durante a gravação para o LP
da Som Livre, 1976.
Fotografia: Francisco Botelho, acervo: Luiz Cruz.
LP gravado em
1976, com a participação da Orquestra Ramalho e
do musicista José Maria Muniz. Acervo: Luiz
Cruz.
Vicente Pedro Muniz
O
primogênito dos Muniz nasceu em 29 de junho de 1954, na casa do Beco do
Chafariz. Estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama. Desde cedo, teve que
trabalhar e ajudar na venda dos doces. Mais tarde se dedicou às mais variadas
atividades, inclusive como vigilante de instituição financeira, até se aposentar.
Porém, sempre produzindo e comercializando os doces caseiros.
Vicente foi presença nas festas religiosas com o carrinho de doces, tornou-se figura tradicional no Jubileu da Santíssima Trindade e nas festas regionais, como a de São Miguel Arcanjo, no Cajuru; a de Santo Antônio, no Rio das Mortes; a do Livramento, em Prados; a de Nossa Senhora de Nazaré, em Nazareno; a de Sant’Ana, em Barroso e tantas outras.
Casou-se cedo, aos 19 anos, com a bela Nilza Silveira. O casal teve os filhos Giovani, Jackson, Eva e Vilma e tem cinco netos: Miguel, Inácio, Andreza, Valentina e Bárbara.
Vicente e Dona Nilza, com os seus padrinhos de casamento.
Ao lado da noiva, o seu pai, Mário Silveira. Matriz de Santo Antônio, 1973.
Fotografia: Acervo Família Muniz.
Depois de aposentado, Vicente escreveu e publicou um livro de memórias intitulado Reminiscências. Na obra, ricamente ilustrada, a contar suas peripécias de menino e suas atividades, sobretudo a produção dos doces caseiros.
Vicente Muniz e seu Carrinho de Doces, no Jubileu da Santíssima Trindade,
Tiradentes-MG,
2024. Fotografia: Luiz Cruz.
Detalhe do Carrinho de Doces de Vicente Muniz. Tiradentes-MG, 2024.
Fotografia: Luiz Cruz.
Em Reminiscências, Vicente apresenta a receita e o modo de fazer do “Biscoito de Amendoim”, que aprendeu a fazer com os pais. Trata-se de um doce muito tradicional de Tiradentes e bastante apreciado.
O
livro de Vicente Muniz foi publicado através de projeto idealizado pela Oficina
de Teatro Entre & Vista e contou com o apoio do Conselho Municipal de
Políticas Culturais e Patrimônio de Tiradentes.
Francisco de Paula Muniz
É
o segundo filho de Dona Florinda e José, nascido em 5 de maio de 1956. Estudou
no Grupo Escolar Basílio da Gama e no Ginásio Dom Delfim Ribeiro Guedes. Em São
João del-Rei, cursou o Ensino Médio na Escola Estadual Cônego Osvaldo Lustosa;
naquele tempo para estudar naquela escola tinha que passar por exame de
seleção. Conta que teve excelentes professores e deles guarda boas lembranças.
Ia
estudar em São João del-Rei e levava os balaios de doces para vender. Assim,
conseguiu completar os seus estudos. Sempre trabalhando.
Chiquinho da
Florinda, em 2002. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.
Com a família, viveu em algumas casas do núcleo antigo de Tiradentes e nasceu em uma que não existe mais na Rua Direita (atualmente sem número), a que ficava ao lado da antiga Cadeia, a casa do Chico Machado. Essa edificação ruiu completamente no início da década de 1970. De todas as casas que morou, gostou mais da Chácara, do Largo das Mercês.
Chácara do Largo das Mercês, onde viveu a Família Muniz. Tiradentes-MG.
Fotografia: Luiz Cruz.
Sempre gostou de cozinhar e ajudou os pais nos preparos dos doces. Chiquinho da Florinda, como é conhecido na cidade, sempre teve uma vida dinâmica. Montou o time de futebol, o São José, que participou e venceu vários torneios. Apreciava o volleyball. Ainda, jogava baralho e tem uma coleção de troféus dessa atividade.
Parte da
coleção de troféus que Chiquinho conquistou nos torneios de baralho.
Fotografia: Luiz Cruz.
Durante
certo tempo manteve a coluna Contos e Lendas da Cidade, publicada no
jornal editado pela Mazé. Teve o Grupo de Teatro Pintando o Sete, que realizou
diversas apresentações em Tiradentes, Resende Costa, São João del-Rei, Muriaé e
outras localidades.
Durante
anos consecutivos fez caminhadas na Serra de São José. Passeava. Ia para
apreciar a exuberante natureza – a vegetação – em especial as orquídeas, os
pássaros, as rochas, as cachoeiras, os riachos. Conhecia tudo. Aproveitou bem as frutas da
serra: gabirobas, jacas, araçás, jambos, araticuns, banana do brejo, marmelo,
veludo, ingá. Trazia os pinhões para assar em casa.
É
devoto da Santíssima Trindade e durante muitos anos trabalhou voluntariamente
na cozinha, durante o Jubileu. Fazia comida para muita gente. Passava a novena
toda trabalhando, cozinhando.
Ia
à Serra de São José para buscar ramos para a Procissão de Domingo de Ramos e
arnica para enfeitar os altares das igrejas. Ajudava na organização da Semana
Santa, por certo tempo cuidou da produção do figurado de Sexta-feira da Paixão
e nesse dia ia às fazendas para pedir leite para fazer arroz-doce.
Um
dos passeios que mais gostava era o de trem, quando circulava entre São João
del-Rei e Antônio Carlos. Saía de Tiradentes às 8h e chegava lá às 12h. A
função durava o dia todo. Organizou vários grupos para fazer esse passeio de
trem completo, na EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas.
Chiquinho da
Florinda e amigos, antigo Parque de Exposições de Tiradentes.
Fotografia: Luiz Cruz.
Trabalhou
muito. Incialmente, no Bar do Ivan. Depois como restaurador e pintor de parede.
Pintou várias igrejas. Por certo tempo, dedicou-se à cerâmica artística e
produção de vasos ornamentais. Finalmente, foi parar na rede hoteleira local,
trabalhou por cerca de 30 anos no Pouso das Geraes, onde se aposentou.
Chiquinho da
Florinda, no seu posto de trabalho no Pouso das Gerais.
Fotografia: Luiz Cruz.
É devoto da Santíssima Trindade e de Nossa Senhora Aparecida. Torcedor do time tricolor, o Fluminense. Tem uma paixão imensurável na vida, sua mãe, Dona Florinda, com quem vive.
Chiquinho da Florinda e Dona Florinda. Fotografia: Acervo Família Muniz.
Rafael Muniz Batista
É um dos netos de Dona Florinda. Nasceu em 17 de dezembro de 1988 e seus pais são José Tarcísio Batista e Lucilene das Neves Muniz Batista. Morou na companhia da avó Florinda durante 17 anos e gostava muito da vida no bairro Cascalho.
Rafael Muniz Batista,
neto de Dona Florinda. Tiradentes, 2002.
Fotografia: Luiz Cruz.
Estudou
na Escola Municipal Marília de Dirceu e na Escola Estadual Basílio da Gama. Atuou
como coroinha na Paróquia de Santo Antônio. Seu primeiro trabalho foi na
Pousada Vila Alferes, depois exerceu outras atividades, nos serviços gerais e
pintor. Com Suelen Oliveira teve o filho Leonardo Oliveira Muniz – um dos
bisnetos de Dona Florinda. Atualmente vive Divinópolis.
A
matriarca Muniz
Dona
Florinda trabalhou intensamente para ajudar na criação dos filhos e dos netos. Agora,
nonagenária, olha para o tempo, aprecia a bela história de vida que construiu e
repleta de muitos sabores. Sempre esteve de bem com tudo e com todos, mas nos
momentos difíceis invoca os santos de sua proteção: São Geraldo Majela e São
Miguel Arcanjo.
Dona Florinda
em sua casa, bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2018.
Fotografia:
Luiz Cruz.
Dona Florinda é muito admirada pelos familiares, vizinhos e comunidade. Sua história de vida enriquece o Patrimônio Cultural de Tiradentes.
Luiz Cruz
Nasceu e vive em Tiradentes. É
professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela
EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG.
Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela
UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou
artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.
Agradecimentos ao Maestro Willer
Silveira e a Demétrio Campos Bissulle.
Apoio institucional:
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