terça-feira, 26 de maio de 2026

 

Museu do Tiradentino

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Airton – um voluntário pela vida

 

Airton Fernando Silva, 2002. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Filho de Heitor Silva e Maria Madalena Lopes e Silva, nasceu em 7 fevereiro de 1957, na casa da Rua da Santíssima Trindade, nº 381. O casal teve os filhos: Elizete, Tadeu, Getúlio, Airton, Cid, João Goulart (Jango) e Kleber. A propriedade em que nasceram e foram criados era grande, a casa foi implantada num vasto terreno, com árvores frondosas e morros. Fazia esquina da Rua da Santíssima com o Beco da Pedreira. De lá se descortinava ampla vista para a Serra de São José.

Airton Fernando Silva herdou as habilidades artísticas da mãe, ourives, costureira, musicista, cantora e organista da Matriz de Santo Antônio. Como os irmãos artistas – Tadeu e Jango, sempre gostava de desenhar anjos alados. Por certo tempo, integrou a gloriosa Banda Ramalho, fundada em 1860 e atuante até o presente.

Ainda na adolescência teve que ajudar a família e trabalhou como ourives na Oficina de Ourives São Judas Tadeu, do Geraldo Conceição, popularmente conhecido como Mitula. Aprendeu a lidar com as ferramentas e caprichar na confecção de anéis, colares, pulseiras.

Heitor Silva foi fiscal de obras da Prefeitura de Tiradentes e ao se aposentar, Airton ocupou esse cargo, até se aposentar, também. Sempre realizou suas atividades com calma e atenção. Primava por evitar equívocos e problemas desnecessários. Como fiscal, dedicou boa parte da sua vida às demandas do Jubileu da Santíssima Trindade; fez o que foi possível, principalmente para facilitar a vida dos barraqueiros – gente muito sofrida, que enfrentava frio, às vezes a chuva e condições precárias para o trabalho. Na Prefeitura, exerceu suas habilidades, executou diversos serviços, como eletricista, pedreiro e de manutenção geral.

   


Imagem do Pai Eterno e a fachada frontal do Santuário da Santíssima Trindade.

Fotografias: Luiz Cruz. 

 

Devoto fervoroso da Santíssima Trindade, de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora das Mercês. Foi Juiz mercedário e irmão da Arquiconfraria da Santíssima Trindade.

Airton casou-se com Aparecida de Freitas Moura. Viveram na casa nº 100, do antigo Beco da Lagoa do Canjica, atual Rua Professor Pinto. O casal não teve filho e ela faleceu ainda jovem.

Apreciava a arte da boa política e foi eleito vereador. Exerceu esse cargo com discrição, polidez e honestidade. Ajudou muitos cidadãos tiradentinos, sempre com dignidade e prudência.

Após a aposentadoria na Prefeitura de Tiradentes, passou a trabalhar como pedreiro. Sempre admirou o ato de se construir e bem. Edificou as casas do irmão Kleber, da artista visual Renata Franca e da sobrinha Lilian.

 

Um voluntário Nota 10

 

Em 1992, Airton participou conosco da criação da Brigada Voluntária de Combate a Incêndio de Tiradentes, que estatutariamente tinha o objetivo de proteger o Patrimônio Ambiental, Cultural e Humano da cidade e do entorno da Serra de São José. Incentivada pelos Bombeiros Militares de Minas Gerais, a Brigada foi transformada em Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes.

Os voluntários se fortaleceram, conseguiram construir sua sede própria e se equipar. Receberam até a visita do Governador do Estado – Itamar Franco e do Secretário de Estado da Cultura – Ângelo Oswaldo Araújo Santos. Ganharam um caminhão de combate a incêndios zero km, com os recursos do Estado e a parceria com o BNDES.


 

Airton em Andrelândia-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Realizaram amplo trabalho de Educação Patrimonial e Educação Ambiental no Campo das Vertentes e várias cidades da região Sudeste. Por isso, por duas vezes, receberam o Prêmio Rodrigo Mello Franco de Andrade, concedido pelo Ministério da Cultura, através do IPHAN.

 

Geraldo Veloso, Airton, Antônio de Paiva e Eros Conceição. Lambari-MG. Foto: Luiz Cruz.

 

Airton foi um companheiro Nota 10. Presença constante em nossas atividades. Tinha orgulho em ser bombeiro voluntário. Chegava sempre cedo e vinha com o seu uniforme impecável. Para as reuniões, em nossa sede própria, era o primeiro a chegar, abria as instalações e preparava o café para todos.

Nos plantões, principalmente do Jubileu da Santíssima Trindade, era o primeiro a chegar e organizava a Unidade Móvel – o trailer, para os atendimentos aos romeiros. Atuava sempre com seriedade e o espírito de voluntário dedicado.

 


Plantão de Primeiros Socorros dos Bombeiros Voluntários, 

Jubileu da  Santíssima Trindade. Tiradentes-MG. Fotografias: Luiz Cruz.


Juntos, enfrentamos os desafios para a proteção da Serra de São José, especialmente os incêndios florestais. Atuamos em muitas cabeças de fogo, com a participação do Airton. Ele dedicou centenas de horas da sua vida no enfrentamento das chamas e para salvar as diversas formas de vida. Muitas vezes ficamos na serra até extinguir o fogo, madrugada afora e no dia seguinte, às 7h, cada um deveria estar no seu posto de trabalho. Durante as enchentes, ajudamos a socorrer muitas famílias e a resgatar os seus bens. Atuamos em diversos desmoronamentos.

Fizemos algumas viagens a Belo Horizonte, para treinamentos no 1º Batalhão de Bombeiros Militares e capacitação no Hospital João XXIII. Uma das viagens foi para uma confraternização entre BM e BV, com uma partida de futebol à tarde. Tivemos um dia memorável. A partida esportiva, foi um caso à parte. Nossa equipe jogou muito. Airton, de baixa estatura, mas bem-preparado fisicamente, deu olé na moçada de BH. Ele jogou demais, por isso foi vítima de entradas violentas, daquelas para quebrar as pernas e a coluna vertebral. Começamos ganhando e perdemos, a partida terminou em 3 a 2. Eles nos venceram, mas voltamos radiantes de alegria, com a certeza de que nossa equipe estava firme e unida.

     


Equipe de Bombeiros Voluntários após debelar incêndio na mata do

 sopé da  Serra de São José. Tiradentes-MG. Fotografias: Luiz Cruz.

 

Participou das nossa cerimônias cívicas e das manifestações religiosas apoiadas pelos Bombeiros voluntários; em especial, os cortejos da Guarda de Congado de São Benedito, iniciativa do Instituto Cultural Biblioteca do Ó, que contou com o apoio institucional da Fundação Palmares. Em todos os cortejos, lá estava o Airton e como de sempre, impecável. E sem medo do preconceito estrutural...

 

Airton hasteando a Bandeira do Brasil, sede própria do  Bombeiros Voluntários.

 Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 


Pedro Luiz e Airton, primos, no Largo do Ó, aguardando a saída do cortejo da

 Guarda de Congado de São Benedito. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Os BVs de Tiradentes promoveram duas romarias ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo. Uma delas foi para celebrar e agradecer a Deus pelos 20 anos da Sociedade Corpo de Bombeiros Voluntários. Fomos convidados a ocupar o espaço do altar-mor. Coube ao Airton a entrada com a imagem de Nossa Senhora Aparecida – a padroeira do Brasil. Foi tudo muito lindo e muito emocionante.


Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, na entrada  com a imagem

 da padroeira, conduzida por Airton. Aparecida, São Paulo. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Bombeiros Voluntários de Tiradentes a celebrar os 20 anos de história no  

Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Aparecida-SP. Foto: Luiz Cruz. 

 

Dentre tantos projetos realizados, sob orientação de professores da UFLA – Universidade Federal de Lavras, cuidamos das velhas árvores do Largo das Forras e quem esteve lá, liderando essa jornada foi o voluntário Airton.

 

Airton fazendo a manutenção das árvores do Largo das Forras,  

sob orientação de profissionais da UFLA. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Atuamos como Bombeiros Voluntários por mais de três décadas, com boa dedicação às atividades. Até que chegou o governador Zema (Partido Novo) – ser desprovido de cultura, devastador e reflexo da extrema direita – conseguiu ser o pior governador da história de Minas Gerais. Ele desativou os Bombeiros Voluntários e a cada saída para qualquer atividade, os Voluntários seriam multados pelos Bombeiros Militares.

 

Após aposentado, Airton passou a trabalhar como pedreiro,  com o seu

 colaborador Val – Genivaldo. Tiradentes-MG.  Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Um dia, encontramos Airton na Mococa, na obra em que trabalhava. Conversamos. Ele mantinha firme o espírito do voluntariado e queria a retomada das atividades em nossa sede própria, na Praça da Estação. Seria impossível, pois a multa seria creditada à Sociedade Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes. Então, rememoramos! Concluímos que ao longo das décadas fizemos o melhor, conquistamos o apoio e a confiança da comunidade; obtivemos reconhecimento nacional. Conseguimos formar um grupo de cidadãos comprometidos. Despertamos em todos o orgulho de ser tiradentino e fizemos a apropriação do Patrimônio como bem comum. Promovemos o senso de pertencimento e reforçamos os vínculos identitários. Inovamos e os Bombeiros de Tiradentes tornaram-se referência no Brasil.

Ele, Airton Fernando Silva, foi um voluntário por excelência e ajudou empenhadamente a escrever essa bela História, repleta de ações para salvar vidas, proteger o patrimônio cultural e do compartilhamento de solidariedade.

Agora, Airton está adoentado. Fomos visitá-lo, ao despedir, pegou nossa mão e disse: Vá com Nossa Senhora! Respondemos: Fique com Nossa Senhora! 


Luiz Cruz


O Museu do Tiradentino – virtual – preparou a homenagem ao Airton Fernando Silva, nosso último encontro ocorreu no dia 20 de maio, terça-feira. Na quarta-feira, ele foi hospitalizado e faleceu no sábado, dia 23 de maio. 

Essa homenagem acabou sendo in memoriam.

Gratidão especial ao Jango, Enoquina, Milene e Lucas que se dedicaram aos cuidados do nosso primo Airton Fernando Silva (07-02-1957 / 23-05-2026)

terça-feira, 19 de maio de 2026

      

Museu do Tiradentino

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Jorge – o retratista de Tiradentes


 Jorge Carioca. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Jorge Braz da Trindade, o Jorge Carioca, acabou conhecido também como Jorge Retratista e Jorge Fotógrafo. Tudo começou em 1982, durante o Carnaval, quando veio passar uns dias em Tiradentes e fez algumas fotografias juntamente com seus irmãos. O ato de fotografar e ser fotografado ficou gravado em sua memória para sempre.

Jorge Carioca teve informações com o amigo Antônio Pedro Barbosa sobre um curso. Gostou da ideia, viajou, fez a prova de seleção e foi aprovado para o Curso Técnico de Agropecuária, estudou em Urutaí, no estado de Goiás. Após se formar, retornou a Tiradentes, quando se lembrou da Fotografia e dela fez o seu meio de sobrevivência. Parte de sua vida foi dedicada à Fotografia, ao registrar a vida sociocultural da cidade. Ao longo das décadas, fotografou as cerimônias de batizado, primeira comunhão, casamento, formatura, aniversário, Carnaval, Semana Santa, Festa de Passos e as ações da Sociedade São Vicente de Paula. Além das atividades esportivas dos clubes Aimorés e Grêmio. Jorge Retratista realmente retratou os personagens e a vida cotidiana da cidade.

 

                                                          

               

João Capitão – fotografia de autor não identificado, acervo da famíla; Dona Trindade – Fotografia de Luiz Cruz.  Os pais de Jorge Braz da Trindade.

 

Filho de João Paulo da Trindade e Maria da Trindade Silva, nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de novembro de 1958 – o sexto filho dos dez que o casal teve. Os primeiros filhos nasceram em Tiradentes, os demais no Rio de Janeiro. Em 1967, o casal e a prole se mudaram definitivamente para Tiradentes. Foram morar numa casa na Prainha – a atual Rua Custódio Gomes.

João Paulo era filho do velho João Capitão, um dos mais habilidosos ferreiros da cidade. Com o pai aprendeu tudo sobre o tradicional ofício de ferreiro, os seus segredos e especialmente o refinado desenho das peças produzidas desde os tempos coloniais. Ficaram conhecidos como João Capitão, tanto o pai quanto o filho. Ao retornar a Tiradentes só conseguiu trabalhar como servente de pedreiro, porque praticamente não havia trabalho na cidade e tinha numerosos filhos para “tratar”. A família passou por momentos difíceis, naqueles idos da década de 1960, quando Tiradentes ainda estava adormecida, em profunda crise econômica.

     

 

Jorge Retratista no Largo das Forras e no Bar do Francisquinho. Fotografias: Gerarde (Alface). Década de 1980.

 

Rememorar é preciso. Então, Jorge nos conta como foi viver na Prainha. Era uma longa trilha, de um lado havia do Córrego do Moinho e do outro o Ribeiro Santo Antônio. Um caminho ladeado por bananeiras e bambuzais. Águas cristalinas corriam tanto no Ribeiro Santo Antônio quanto no Córrego do Moinho. Acima ficava o Açude e mais abaixo, bem atrás do Matadouro, o moinho de fubá, para movimentá-lo, havia a água desse córrego, que também era usada na limpeza do Matadouro.

Ainda bem menino, tomou sangue quente de vaca abatida no Matadouro e levava um pouco para a mãe, a Dona Trindade, fazer cozido para a família. Quando havia dinheiro, comprava um pedaço de fígado, cortado “no olho”, em tira e sem pesar. Levava o bofe e a fissura para a mãe preparar para todos.

A irmã Martinha fazia pipas e a meninada ia à casa da Prainha para comprar e soltar no Alto de São Francisco. A pipa era novidade, porque os meninos estavam acostumados com os papagaios tradicionais. Com as vendas de pipas, Martinha ajudava na manutenção da casa. Ainda muito pequeno, Jorge foi vender pastel para a Chica do Mulatão. Colocava tudo em um balaio e saia pela rua. Ganhava 20% do faturamento e o dinheiro ia para ajudar a família.

 

Jorge Retratista, seu irmão Zé Carioca e amigos. Bar do Francisquinho. Década de 1990. Fotografia: Gerarde (Alface). 

 

Em Tiradentes havia duas possibilidades de trabalho – na Cerâmica Progresso, onde os salários poderiam atrasar meses consecutivos ou nas oficinas de ourives. Antes de entrar na adolescência, Jorge Carioca começou a trabalhar na Oficina de Ourives do Cabral. Torcia arames num motor, para a confecção de bijuterias. Um dia o arame arrebentou e bateu em seu olho direito. Perdeu a visão. Era 1970 e o acidente deixou a família Trindade abalada. Contou apenas com o apoio de Maria Barbosa para se tratar e logo retornar ao trabalho. Dois anos após o ocorrido, teve sua Carteira de Trabalho assinada.

Estudou no Ginásio Dom Delfim Ribeiro Guedes e por três meses teve que se afastar dos estudos. Trabalhava até às 17h e as aulas começavam às 18h. Na casa da Prainha, não havia energia elétrica e para estudar tinha que ser com a luz da lamparina. Foram tempos difíceis e de superação.


Cenira, Jorge e Mariana. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Depois de formado em Urutaí, já em Tiradentes, lembrou das fotografias feitas em 1982. Então, comprou uma “máquina fotográfica” Tuka, que fazia fotos 9 X 9, em preto e branco, começou a fotografar e a atender as encomendas.


“Câmera” Tuka, similar à primeira que Jorge Retratista teve. Imagem disponível na internet.


Comprava os filmes, fotografava e mandava para revelar em São João del-Rei. Quando fotografava eventos maiores, colocava as fotografias afixadas num painel no Bar do João Rosa. Na verdade, era uma tábua de fundo de guarda-roupa que ele aproveitou. Durante o Carnaval, ia acrescentando as fotos dos dias consecutivos e na Quarta-feira de Cinzas recolhia tudo. Nessas ocasiões, os filmes eram revelados em Barroso, ia para lá e aguardava pela revelação e voltava com os álbuns. Tiradentinos e turistas compravam suas fotografias.

Passou constrangimento por causa de sua câmera bastante modesta. Os fotógrafos amadores sempre perguntavam como conseguia fazer fotos com um equipamento tão simples. Com o passar do tempo conseguiu comprar uma câmera melhor, até que conquistou a Nikon FM2 e suas fotografias ficaram com excelente resolução.


Câmera Nikon, similar à uma das que Jorge Retratista teve. Imagem disponível na internet.

 

Dedicando-se mais à fotografia, passou a comprar os filmes em rolos grandes e rebobinava de acordo com os eventos a serem registrados. Conseguiu emprestado de Paulo Marostegan um laboratório de revelação fotográfica. Teve que aprender sozinho como lidar com os materiais e obter resultados satisfatórios.

Esteve nas escolas do município para fazer retratos dos alunos, aquela fotografia tradicional do menino ou da menina sentado juntamente com material escolar. Anualmente, ia ao Grupo Escolar Basílio da Gama fotografar os alunos. Fotografou as manifestações políticas locais, em especial os comícios realizados na sede e na zona rural, independente das questões partidárias. 

 

    Mariana acompanhada de seu pai – Jorge Retratista, no dia de sua formatura. Fotografia de autor não identificado. 

 

Ficou conhecido como Jorge Retratista e nos grandes eventos conviveu com os principais “fotógrafos” da região, como Eros Conceição, Mauro do Projeto, Miltinho, Dimas, Lúcio, Anselmo, Mário Sergio, João Hipólito, Murilo e Edson.

Sempre fotografou as atividades do Jubileu da Santíssima Trindade, em especial a procissão com a imagem do Pai Eterno; geralmente, os devotos que carregam o andor estão a pagar promessa e a fotografia era o ex-voto oferecido e depositado da Sala dos Milagres do Santuário da Santíssima Trindade.

 

Sala dos Milagres, com as paredes revestidas por fotografias. Santuário da Santíssima Trindade. Fotografia: Luiz Cruz.


Jorge Retratista na Capela so Santíssimo – Matriz de Santo Antônio e junto ao andor com a imagem do Pai Eterno. Fotografia de autor não identificado.

 

Puxando o fio da memória, conta que ia ao Bichinho e ao Elvas de bicicleta para fazer retrato 3 X 4 dos moradores, principalmente para documentos. Fotografou o Bloco Ver-Te-Cana quando saiu pela primeira vez – que neste ano completou 40 anos; fotografou as Pastorinhas da Dona Ana de Menezes; fotografou as procissões do Bichinho, sua primeira Semana Santa e tantos outros momentos. No Bichinho, seus melhores clientes foram o Zezinho e o Sô Hélio do Caminhão.


Jorge Retratista no primeiro Bloco Ver-Te-Cana. Fotografia: Gerarde (Alface).


Fotografou as manifestações da cidade, uma delas foi a da Antiga Cadeia, quando foi inaugurado o Museu de Arte Sacra Tancredo Neves. A pedido de Dona Maria do Carmo Nabuco, através de contato do João da Rosa, fez mais de 600 fotografias da manifestação que teve o lema “Eia, eia, queremos a Cadeia”. Fotografou a manifestação do povo de Tiradentes contra a desativação do trem da EFOM-Estrada de Ferro Oeste de Minas, quando as instituições locais e o povo local se mobilizaram e impediram a circulação da Maria Fumaça. O trem ficou retido na Estação de Tiradentes. A manifestação causou impacto, foi notícia nacional. O trecho entre Tiradentes e São João del-Rei foi preservado – uma grande vitória da população tiradentina. Jorge Retratista estava lá e registrou tudo. Fotografou ainda a primeira visita dos Trapalhões e da Xuxa a Tiradentes, quando estavam no auge da carreira e por onde passavam, causavam grandes mobilizações dos fãs.

Esteve presente nas cenas de violência e assassinatos, fotografou as vítimas. Conta-nos que numa sexta-feira de Carnaval fotografou um personagem no Bloco das Domésticas e no sábado o fotografou assassinado.

Teve clientes especiais que contratavam o seu trabalho e destaca que Dona Leonor Gomes foi a melhor cliente, porque ela participava de tudo e gostava de ser fotografada. Outras boas clientes foram: Alice Lima Barbosa, Elzira Lopes da Cruz e Ondina Rodrigues do Rosário.


Jorge Retratista, a saudosa Dona Maria do Mulatão e Cristiane. Acervo: Jorge e Família.


Como técnico, trabalhou na Horta do Abrigo Tiradentes, contratado pela Prefeitura Municipal. Cuidou do pomar e fez inovações, uma delas foi produzir mudas de ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) para vender para os turistas. Participou da Semana do Meio Ambiente e lá recebeu os alunos das escolas, inclusive da zona rural. Descobriu uma doença que atacou a “batata baroa” e passou uma semana na UFLA, em Lavras, contribuindo para as pesquisas e solucionar o problema. Fez convênios com o SENAR para a melhoria da produção de queijos, biscoitos, doces, rapaduras, legumes, verduras e mel. Participou de um programa do PT, de compra antecipada de alimentos e valorização dos produtores rurais. Conseguiu muitos alimentos para a distribuição gratuita na cidade. Foi pioneiro na introdução da inseminação artificial em bovinos e acompanhou todo o processo, até o nascimento dos primeiros animais. Ou seja, como técnico, contribuiu para a melhoria da qualidade de vida de inúmeras famílias.

Sempre gostou de futebol. Participou de torneios e campeonatos. Lembra dos times São José, do Chiquinho da Florinda; Galinho, do Beto do Luiz Carcereiro; Ajax, do Zé Norberto e Sheshell; Fazenda, do Paulo André.

 

Cenira, Jorge e Mariana. Fotografia: Luiz Cruz.


Em 1984, Jorge Retratista casou-se com Cenira Maria dos Santos Trindade e tem a filha Mariana dos Santos Trindade. Ao se casarem, ele foi morar na casa do pai de Cenira – Joaquim dos Santos, no bairro Cascalho.

Joaquim dos Santos foi funcionário do Iphan, trabalhou nas obras de restauração realizadas em Tiradentes, a partir da década de 1940. Um dos primeiros moradores do Cascalho, antes mesmo da abertura das ruas. Além dele, moravam mais três famílias, as das donas Dalzira, Polola e Conceição. 

   


Dona Trindade, na Matriz de Santo Antônio e Mariana no cenário do Festival de Gastronomia. Fotografias de Jorge Retratista. Acervo: Família Trindade.

 

Jorge é um homem de fé. É devoto de São Jorge, santo forte e guerreiro. Nas religiões de matriz afro, São Jorge é sincretizado com o orixá Ogum. Vincula-se às figuras guerreiras, associadas ao ferro e à luta pela proteção. É também devoto fervoroso da Santíssima Trindade.


Jorge Retratista e São Jorge, o santo de sua devoção. Fotografia: Luiz Cruz.


Ao longo das décadas, fotografou muito. Acumulou inúmeros negativos que ia guardando. Chegou a ter uma caixa de embalagem de fogão cheia de negativos. Sem espaço para continuar guardando, colocou fogo e destruiu tudo. Muitas pessoas encomendavam as fotografias e depois não pagavam. As fotografias se acumulavam e os prejuízos também. Com o passar do tempo, as fotografias encomendadas eram centenas e de pessoas que nem lembrava mais quem eram. Certo dia, juntou tudo e queimou. Conta: “livrei-me daquele peso”.

 

Certificado de reconhecimento de sua atividade de fotógrafo.

 

Jorge Retratista, que perdeu o olho direito quando trabalhava, ainda criança, acabou ficando com baixa visão, devido aos problemas de saúde e principalmente a diabetes. Porém, ao longo de quase cinco décadas fotografou os tiradentinos e sua manifestações culturais.

Jorge Braz da Trindade foi o homenageado do Festival de Fotografia de Tiradentes, edição 2026. Na cerimônia de abertura, ocorrida no Centro Cultural Yves Alves, sob a coordenação do fotógrafo Eugênio Sávio, fizemos a apresentação do retratista de Tiradentes – história, memória, pertencimento e fotografia. O homenageado também falou, contou um pouco do trabalho com a fotografia e foi uma fala forte, emocionante, mas depois descontraída.



Abertura do Festival de Fotografia de Tiradentes – Eugênio, Jorge, Cenira e Mariana. Centro Cultural Yves Alves. Fotografia: Luiz Cruz.

 


Abertura do Festival de Fotografia de Tiradentes – Jorge, Cenira e Mariana.Centro Cultural Yves Alves. Fotografia: Luiz Cruz.

Abertura do Festival de Fotografia de Tiradentes – Luiz Cruz, Eugênio e Jorge. Centro Cultural Yves Alves. Fotografia: Mariana.

 

Abertura do Festival de Fotografia de Tiradentes – os fotógrafos Gui Christ e Jorge. Centro Cultural Yves Alves. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Justa e merecida homenagem! O Festival de Fotografia de Tiradentes foi um grande sucesso, com diversas exposições, lançamentos de livros, apresentações de portfólio, palestras, workshops e rodas de conversas. E o melhor de tudo, o encontro de muitos amigos fotógrafos do Brasil e do exterior. Jorge gostou imensamente da exposição M’Kumba, do fotógrafo Gui Christ. Tanto que no dia seguinte, mesmo com grave problema de mobilidade e baixa visão foi assistir a palestra do prestigiado fotógrafo e estudioso das religiões de matriz afro. Jorge e Christ se entenderam bem, ambos são protegidos por Ogum.

Axé!  

Luiz Cruz


Agradecimentos à Família Trindade e ao Festival de Fotografia de Tiradentes




terça-feira, 12 de maio de 2026

 

  Museu do Tiradentino - virtual

 

Tiradentes, a antiga Vila de São José, foi a primeira ocupação da região do Rio das Mortes. Ao longo do tempo, vivenciou o fausto com a produção aurífera e com os recursos do extrativismo se estruturou arquitetonicamente, em uma malha urbana singela e decorosa. Seus habitantes viram esgotar as jazidas de ouro e sentiram na pele a opressão portuguesa na arrecadação dos impostos – o quinto do ouro. Rebelaram-se, promoveram insurgências e sonhos libertários. Idealizaram uma República. Após denúncia, prisão e execução do líder, o são-josefense Joaquim José da Silva Xavier, a vila passou por longo período de declínio econômico e sucessivas perdas de território. No início do século XX, os poetas que passaram pela antiga vila, referiram-se a ela como “cidade morta”.             

Os séculos se passaram. Nos primórdios eram só os indígenas, depois chegaram os paulistas, os portugueses, os de outras capitanias, os africanos, os estrangeiros, os adotivos. Seus moradores garimparam, trabalharam, edificaram, plantaram, subsistiram. Conheceram o brilho do ouro e sua bonança, mas também vivenciaram amarguras com o isolamento e a economia devastada, após o malogro da Inconfidência Mineira e o esgotamento das jazidas auríferas. Conseguiram manter preservado o seu conjunto arquitetônico e paisagístico, que tanto impressionou os viajantes modernistas da expedição de 1924. Isso acabou por se tornar uma das principais inspirações para se pensar na preservação do Patrimônio Cultural do Brasil.

Na década de 1970 começou a despertar atenção e teve o seu primeiro museu, instalado na casa do inconfidente Padre Toledo, pela Fundação Rodrigo Melo Franco de Andrade. Mas somente a partir dos anos 80, Tiradentes teve seu patrimônio revitalizado e o turismo se tornou sua principal fonte econômica.

Ao povo de Tiradentes, aos nativos e aos de coração, devemos a preservação dessa cidade, com o seu acervo cultural e ambiental. Cada um construiu uma história nessa terra, cada um tem história para contar. Quando preparávamos para celebrar os 300 anos da instalação do Arraial de Santo Antônio, 1702 / 2002 – fotografamos 900 pessoas da cidade. Desse total, selecionamos 300 fotografados e montamos a exposição Tiradentes e os Tiradentinos, no Centro Cultural Yves Alves. Revestimos as paredes com as fotografias das pessoas que viviam e se orgulhavam da terrinha amada. Para celebrar os 300 anos de elevação do Arraial de Santo Antônio à Vila de São José – ocorrida a 19 de janeiro de 1718, programamos apresentar os fotografados de 2002, juntamente com as fotografias de 2018. Conseguimos registrar mais de 100, mas tivemos que abandonar a ideia porque alguns haviam falecido, outros agendavam o dia para fazer a fotografia, mas na hora diziam que não estavam bem. Ainda, outros pediram para não ser fotografados.

Ficamos com os 300 fotografados de 2002 e mais de 100 entrevistas registradas em 2018 – um material precioso do nosso Patrimônio Humano.

Esse material é nosso acervo, mas queremos compartilhar com a comunidade. Por isso, criamos o Museu do Tiradentino – Virtual. Vamos compartilhar as fotografias e as entrevistas. Algumas inseridas além dos 300 fotografados em 2002, por questões estratégicas, consideração à história e à vivência de cada um.

O texto do catálogo da exposição Tiradentes e os Tiradentinos, ocorrida em 2002, é de autoria do jornalista e advogado Ângelo Oswaldo de Araújo Santos. Trata-se de um dos maiores defensores da proteção do Patrimônio Cultural de Tiradentes, sócio-fundador da SAT-Sociedade Amigos de Tiradentes, que a partir de 1980, executou diversos projetos que resultaram na revitalização local. Ele era, então, o Secretário de Estado da Cultura e é o atual prefeito da antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto. Esse texto, expressa bem a nossa proposta em homenagear a cidade e os seus habitantes:

 

Acareação de Tiradentes

 

Entre as iniciativas que assinalam o tricentenário do surgimento do núcleo urbano de Tiradentes, vai permanecer por longos anos na memória da cidade a exposição de fotografia concebida e curada pelo artista Luiz Cruz.

Desde muito mais jovem um militante das melhores causas tiradentinas, experimentado em frentes de ataque e de resistência, ele conhece fundamente a paisagem em que se inscreve. Nesse trabalho, parece inspirado na grande pintura parietal da capela de São Francisco de Paula, ao recolher rostos emblemáticos e instalar como um grande ex-voto, o memorial dos 300 anos.

Enquanto três séculos nos contemplam da Ponta do Morro, 300 caras nos olham nos nossos olhos e nelas nos miramos a nós mesmos, em busca, talvez, do significado da nossa presença no tempo, na trama da vida, na reviravolta do mundo.

Terra dos homens, a cidade se refaz nas imagens que testemunham sua permanência. Encará-la com a consciência dos seus desafios, do nosso compromisso e das potencialidades de cada qual é o que nos pedem os retratos de Tiradentes. Com cara e coragem, despidos de carapuças e de máscaras, estamos diante do enigma. Quem somos e o que somos no espelho da saga?

 

Ângelo Oswaldo de Araújo Santos

Secretário de Estado da Cultura de Minas Gerais e

sócio fundador da SAT – Sociedade Amigos de Tiradentes

 

 

 

Pintura parietal da Capela de São Francisco de Paula, obra de G. Rodrigues, 1942.Tiradentes-MG.



A querida Tia Tereza (1927-2021), na pintura parietal, jovem, com sua longa trança e já com seus cabelos brancos. Dos registrados nessa obra, ela foi a última a partir.

 

Assinatura da pintura parietal da Capela de São Francisco de Paula, Tiradentes-MG. (Pintor G. Rodrigues, de S. S. do Paraíso – 16-3-1942) 

 

Como disse Ângelo Oswaldo, ao se referir à pintura da Capela de São Francisco de Paula, que retrata a cena da primeira comunhão de uma menina, lá estão diversas pessoas da cidade, todas já partiram e deixaram saudades. Agora, elas compõem nossa história e memória.

Acompanhe as publicações e encontre aqui no Museu do Tiradentino histórias e imagens de cidadãos que colaboraram para a preservação do nosso Patrimônio Cultural e Ambiental. Alguns registrados em 2002 já partiram, outros estavam bem jovens, certos ainda bebês e ao longo desse tempo estão escrevendo suas histórias de vida. Então, registrar é preciso!

Seja bem-vindo ao Museu do Tiradentino. 


 Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro. Graduado em Letras pelo INCA/UFSJ, doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG.

  Museu do Tiradentino   virtual   Airton – um voluntário pela vida   Airton Fernando Silva, 2002. Tiradentes-MG. Fot...