quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

Dona Bela

 

Izabel Lopes da Cruz nasceu em 28 de outubro de 1935, em uma casa da antiga Rua do Sol, a atual Rua Padre Toledo. Seus pais foram Joanito Lopes da Cruz e Carminda Maria da Conceição. A família Lopes da Cruz aportou na Vila de São José em 1728 e seus descendentes mantém-se firmes em Tiradentes, de geração a geração. Izabel casou-se com Antônio dos Santos e passou assinar Izabel Lopes dos Santos, o casal teve os seguintes filhos: Regina, Rosemeire, Raquel, Edson, Edilson e Suzete.

É conhecida na cidade como Dona Bela. É a última sobrevivente do núcleo familiar de Joanito e Carminda. Ontem, em torno dos filhos, netos, bisnetos, familiares e amigos celebrou o aniversário. Alegria, muita alegria em comemorar mais um novo ciclo de vida, dessa pessoa tão querida e que sempre nos transmitiu energias positivas e um imensurável encantamento pela vida.

 

Dona Bela em sua casa, celebrando a vida. Fotografia: Luiz Cruz.


A família Lopes da Cruz sempre esteve vinculada à Rua Padre Toledo, lá gerações sucessivas viveram, conseguiram se envolver com os diversos aspectos da cultura local, em especial a religiosidade. Joanito e Carminda partiram cedo, mas o legado de ensino ficou impresso para sempre na boa educação dos filhos. A música esteve presente nesse núcleo; quando se inaugurou o harmônio da Igreja da Santíssima Trindade, as filhas do casal lá estavam, na composição do coral. Era 1951 e as três irmãs se vestiram de preto, em luto, pela perda da mãe, Dona Carminda, conforme a fotografia abaixo.


 

Inauguração do harmônio da Igreja da Santíssima Trindade, 1951, Tiradentes. 

As três irmãs vestidas de preto: Dodô, Bela e Lena. Acervo: Luiz Cruz. 

 

Casada, viveu durante muitos anos na antiga Rua da Praia, a atual Rua Ministro Gabriel Passos, depois morou na Rua Direita e agora vive na Rua Alberto Paolucci.

É pessoa de fé inabalada, devota de Nossa Senhora Aparecida e de São Judas Tadeu. Com seus recursos, promoveu na cidade, por alguns anos a festa do seu santo protetor. Participou de inúmeras romarias ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Gostava de viajar com os amigos e a parentada.

Sua cor preferida sempre foi o roxo. Aprecia todas as variações desse tom até chegar ao lilás pálido. Gostava das roupas roxas, toalhas roxas, guardanapos roxos... Para celebrar seu aniversário, o bolo e tudo mais sempre foi roxo. 


 

Dona Bela em sua casa, Rua Alberto Paolucci, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

 Dona Bela com os sobrinhos Giselda, Cecília e o saudoso Airton. Romaria ao Santuário

 Nacional de Nossa Senhora Aparecida, Aparecida-SP. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

    

Dona Bela e a vizinha, Dona Selma Wiermann, na cerimônia de batismo do Sino Pedro,

Matriz de Santo Antônio, Tiradentes. Fotografias: Luiz Cruz.  

 

Dona Bela participou ativamente da vida cotidiana de Tiradentes. Sua presença e seu sorriso alegraram a todos e os lugares em que passou. Agora, com a idade avançada e com os problemas de mobilidade, com os filhos casados, vive só em sua casa, mas toda cercada de atenção e carinho. Ela está sempre rodeada pelos familiares. 

 

O filho Edson Lopes dos Santos

 

Começou a trabalhar muito cedo, a acompanhar o pai, que era funcionário do Iphan. Edson é a terceira geração consecutiva a dedicar a vida profissional ao Patrimônio. Seu avô paterno – João Domingo dos Santos, foi Oficial do órgão e trabalhou em diversas obras realizadas em Tiradentes e São João del-Rei.

Edson passou a integrar a Equipe de Obras do Iphan e também se tornou Oficial desse órgão de proteção ao Patrimônio Cultural; sua admissão ocorreu em 15 de fevereiro de 1984; ou seja, conta com 42 anos dedicados aos trabalhos de restauração de igrejas, casarões, mobiliário e sinos. Parte do trabalho que excuta tem sido realizado na Oficinal de Carpintaria do Iphan, instalada anexa ao Museu Casa Padre Toledo.

Homem de muitas habilidades e refinado apuro técnico, mantém o conhecimento das técnicas vernaculares. Conhece na palma da mão cada edificação do Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de Tiradentes, tombado desde 1938, através do Decreto-Lei 25, que reconhece e regulamenta do patrimônio cultural brasileiro.

 

Edson na Oficina de Carpintaria do Iphan, anexa ao Museu Casa Padre Toledo,

com os sinos em restauração. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.


 

Cerimônia de batismo do novo sino da Igreja de Nossa Senhora das Mercês,

o trabalho de restauro e montagem foi executado por Edson.Tiradentes:  Foto: Luiz Cruz.



Cuidar com afeto

 

Crislaine Trindade Nascimento dos Santos é filha do Edson. Formada em Educação Física, trabalha como personal e cuida da avó Bela. Dedicar à saúde é importante, mas quando se trata com afeto e amor, tudo transcorre melhor. Crislaine foi uma menina muito bonita, fizemos uma fotografia dela em 2002, para a exposição Tiradentes e os Tiradentinos – 300 Anos, realizada no Centro Cultural Yves Alves. Agora é uma profissional com boa atuação junto à comunidade tiradentina.

 

 

 Crislaine em 2002, fotografia que integrou a exposição Tiradentes e os

 Tiradentinos – 300 Anos. Foto: Luiz Cruz.


  

Crislaine e a avó Bela. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 As primaveras

 

No dia 28 de outubro de 2026, Dona Bela comemorou 91 primaveras. A casa ficou cheia e lá ocorreram muitos momentos de alegria. Cercada pelos filhos e filhas, as noras e os netos. Os familiares compareceram e os vizinhos também. Esse dia é o do seu santo protetor: Judas Tadeu (?-70) – discípulo de Jesus, que teve como martírio o espancamento e foi esfaqueado. É presentado ainda jovem, com barba curta, em veste judaica, com alabarda, machado e livro. É o santo das causas impossíveis (Bohrer, 2026, p. 180). Essa “devoção relativamente recente, posterior a 1920, mas alcançando uma popularidade invejável, tanto nas cidades, como no sertão. Nascido em Caná, na Galileia, primo de Jesus Cristo, pois era filho de Cleófas, ou Alfeu, irmão de São José” (Megale, 2003, p. 145). 

 

Dona Bela com os filhos e as filhas, 28 de outubro de 2026. Fotografia: Luiz Cruz.


Dona Bela com os filhos e filhas e demais familiares, 28 de outubro de 2026.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

Agora já são 91 primaveras completas, cercada pelos queridos, com bom humor, ainda dando os passinhos de dança e um incrível espírito de jovialidade, Dona Bela segue a vida. É um bom exemplo de pessoa que soube aproveitar cada bom momento que a vida lhe propiciou, mas sempre com fé e dedicação aos seus familiares. Rogamos para que seu novo ciclo seja iluminado pelo Espírito Santo, abençoado por Nossa Senhora Aparecido e protegido por São Judas Tadeu – santo de sua devoção e das causa impossíveis.

Luiz Cruz


Referências:

CRUZ, Luiz Antonio da. Et al. Manual de Técnicas de Preservação e Manutenção de Patrimônio. Tiradentes: IHGT, 2016.

BOHRER, Alex Fernandes. A História dos Santos Católicos para quem tem pressa. Rio de Janeiro: Valentina, 2026.

MEGALE, Nilza Botelho. O Livro de Ouro dos Santos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

sábado, 19 de setembro de 2026

 

Chico Curió

multiartista de Tiradentes

 

Francisco Trindade da Silva tornou-se conhecido como Chico Curió. Nasceu em 29 de novembro de 1954 e faleceu a 18 de setembro de 2026.

 

Chico Curió no Largo das Forras, Tiradentes. Fotografia da exposição

Tiradentes e os Tiradentinos, idealizada e montada por Luiz Cruz, em 2002.

 

Chico Curió passou a infância em uma casa implantada num vasto terreno, no Beco do Curió. A edificação ficava nos fundos e havia muitas árvores frondosas: mangueiras, abacateiros, goiabeiras, pitangueiras, bananeiras, além de galinhas e cachorros. Com tantas árvores frutíferas, a passarinhada se deleitava, principalmente os sabiás e as saíras.

Já adulto, viveu no bairro Cascalho e depois se mudou para o bairro Várzea de Baixo, em casa bem próxima à linha do trem da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas. Em cada detalhe das soluções construtivas de sua morada, podíamos perceber os detalhes a expressar sua identidade.


Aspecto da casa do Chico Curió, bairro Várzea de Baixo, Tiradentes.

Fotografia: Luiz Cruz, 2018.

 

Muito cedo, teve que trabalhar acompanhando o pai – o velho Curió, nas lidas da roça. Não conseguiu ir longe com os estudos, mas sempre cultivou suas habilidades para as artes, especialmente a música, as artes visuais e o teatro. Ainda na infância, comprou o seu primeiro violão e aprendeu a tocá-lo sozinho. Apaixonou-se pela música e gostava de tocar o seu violão pelas ruas, as vezes se sentava no Largo das Forras e sua música ocupava o espaço. Muitas vezes tocou nos Quatro Cantos e mais recentemente no passeio da Antiga Cadeia, onde agora funciona o Museu de Sant’Ana.

Chico Curió gostava de desenhar. Grafite e lápis de cor. Seus primeiros desenhos retrataram as suas edificações preferidas, as capelas de São Francisco de Paula e da Santíssima Trindade. Depois, incluía os elementos arquitetônicos com o seu universo da roça, onde trabalhou por longo período. A paisagem rural, as árvores, os bois, os pastos.

Em alguns desenhos, ele recriou sua própria arquitetura, impactante e imponente, a nos lembrar as paisagens arquitetônicas do pintor grego Giorgio de Chirico (1888-1978). Nas cenas rurais, Chico Curió apresentava-se onírico e telúrico. Seu trabalho ganhou expressividade e as cenas se tornaram poéticas, tanto quanto a obra do grande pintor José Antônio da Silva (1909-1996). Na nossa coleção, temos 27 desenhos, que foram adquiridos e guardados pelo casal Yves Alves e Dona Dalma; tempos depois, a família nos doou este acervo. 


Chico Curió. Capela de São Francisco de Paula, grafite e lápis de cor, década de 1980. 

Acervo: Luiz Cruz.

 

 

Chico Curió. Capela da Santíssima Trindade, grafite e lápis de cor, década de 1980. 

Acervo: Luiz Cruz.

 

  
 Chico Curió. Paisagens rurais, 
grafite e lápis de cor, década de 1980. Acervo: Luiz Cruz.

  

 

Chico Curió. Paisagem arquitetônica, grafite e lápis de cor, década de 1980. 

Acervo: Luiz Cruz.


Chico Curió. Paisagem rural, grafite e lápis de cor, década de 1980. Acervo: Luiz Cruz.

 

Posteriormente, Chico Curió se dedicou ao desenho com o pirografo – uma ferramenta elétrica com a ponta metálica incandescente para gravar, desenhar e escrever em suportes de madeira, couro e outros. Dessa fase, não subsistiu em Tiradentes nenhum trabalho dele, praticamente todos foram vendidos para turistas. Há que se destacar, ele não assinou nenhum dos desenhos que produziu.

Prestamos homenagem ao Chico em 2002, quando idealizamos e montamos a exposição Tiradentes e os Tiradentinos, com fotografias de 300 pessoas da cidade, entre os nativos e os adotados de coração. Cada personagem fotografado representou um dos 300 anos do antigo Arraial de Santo Antônio, depois Vila de São José e o atual município de Tiradentes. Lá estava presente o Chico Curió com sua fotografia.

Em 2018, Chico Curió foi homenageado na publicação O Caminho do alferes Tiradentes – uma viagem pela Trilha dos Inconfidentes, do historiador Ivan Alves Filho, editado pela Mandala Produção, editora da cidade de Tiradentes:


Chico Curió – O filósofo alemão Theodor Adorno errou feio quando questionou a utilidade do rádio. Acontece com as melhores cabeças. De fato, o homem não tinha lá muito jogo de cintura, como se diz, apesar de se referir constantemente à dialética. No mínimo era um dialético desprovido de molejo. Pois, sem o rádio, milhares de pessoas deixariam de ouvir boas músicas ou mesmo se inteirar do que se passa no mundo. Ou seja, o rádio, além de informar, também forma. Cria com o ouvinte uma cumplicidade duradoura, uma intimidade que talvez só o livro consiga estabelecer com as pessoas, conforme indicou certa feita o cronista Artur da Távola. O violeiro Curió que o diga. Vamos à sua história. Curió trabalhava na roça. Apaixonado pela música, aprendeu violão sozinho, ouvindo a Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, e a Rádio Cultura, de São Paulo. Apreciava valsas e choros, mas também composições barrocas e clássicas. Eu mesmo o vi tocar um dos mestres do barroco espanhol, Fernando Sor, pelas ruas de Tiradentes. Seu primeiro violão – e primeiro violão ninguém esquece – ele o conseguiu de forma inusitada. Ou seja, trocou pelo cavalo que ganhara do pai pouco tempo antes. Foi um Deus nos acuda em casa. O samba atravessou dessa feita. Vida que segue e Curió foi como que socorrido por um tio violeiro, com quem aprendeu a tocar Som de carrilhões, de João Pernambuco. Aos 12 anos de idade vinha da roça e tomava o caminho da cidade, onde fazia serenatas para as moças. Estava sempre pedindo a alguns violeiros para que tocassem mais e mais – e assim assimilava todas as técnicas que podia. Chico Curió gosta mais de violão do que de cavaquinho. Mas reconhece: “cavaquinho foi feito para quem sabe tocar mesmo”. Nunca viveu profissionalmente de música, mas tocou durante muitos anos se apresentando de graça, “para dar força”. Chico Curió é uma alma pura. Religioso, sempre faz suas orações. A solidariedade é, para ele, algo essencial: “nunca neguei um prato de comida a ninguém”, afirma. Vive só e confessa não se sentir à vontade em um mundo baseado “na ganância”. Sua pureza é contagiante. Curió me lembrou Mário Quintana. Ou o poeta não escreveu “eles passarão / e eu passarinho”? (Alves Filho, 2018, p. 42-43).

 

Hoje, cedo, a primeira notícia que vimos nas mídias, apesar de toda turbulência da vida política, foi o informe do falecimento do Chico Curió, através dum belo texto do pesquisador Rogério Paiva, nosso primo, que destacou sua percepção sobre o famoso violeiro de Tiradentes:


Chico do Curió talvez tenha sido um dos últimos artistas populares de Tiradentes. Violonista autodidata, tinha o instrumento como extensão da própria mente e corpo. O som pensado era imediatamente reproduzido em improvisos perfeitos. Andava à noite pelas ruas e praças da cidade tocando pra quem quisesse ou não quisesse ouvir. Parecia que não tocava para ninguém, ou melhor, tocava principalmente para ele mesmo ouvir, motivo pelo qual nunca se preocupou com plateia ou fama. A música pra ele era tão natural que não exigia esforço, estudo, ensaio... Era como se fosse mais uma forma que tinha de falar. Tinha ouvido musical apurado e reproduzia de imediato tudo o que ouvia, desde as canções mais simples às mais elaboradas composições... Tinha um dedilhado peculiar e conciliava tradicionais acordes a verdadeiras ideias musicais. Arrancava sons dissonantes como quem brincava de desafinar, porém tinha domínio total do instrumento, que fazia parte do seu próprio corpo. O violão para ele era como um brinquedo sério. Nas serenatas solitárias das noites frias e desertas da cidade de antigamente ao burburinho de turistas de hoje em dia, ele sempre foi o mesmo, assim como a voz do seu violão. Chico, mesmo depois de reconhecido como artista popular, não mudou sua rotina e nem seu modo de ser. Atravessou a estrada da vida e agora nos acena do outro lado, enquanto sobe em sua bicicleta com o violão a tiracolo, pronto para mais uma apresentação... 

(https://www.facebook.com/rogerio.geraldodepaiva, 18-9-2026).


E logo, apareceu a homenagem ao Curió, do violeiro tiradentino Gabriel Pitta, que vive na Argentina.


Chico Curió, na Várzea de Baixo, Tiradentes. Fonte: ttps://www.facebook.com/gabriel.pitta

 

Chico Curió foi um personagem e tanto. O Instituto Cultural Biblioteca do Ó, em sua sede no Largo do Ó, foi a primeira instituição a lhe abrir as portas para apresentações. Depois, tocou em vários bares e restaurantes da cidade. Fez apresentações solo no Centro Cultural Yves Alves, tocou juntamente com a Orquestra Ramalho e o Grupo de Seresta da Oficina de Teatro Entre & Vista. Recebeu homenagem no Festival Foto em Pauta.

A 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes apresentou o filme Chico Curió, a abordar aspectos da sua vida, produzido pela Peteca, com direção de Theo Guarnieri e Daniel Schwarz. Num longa-metragem que consumiu cerca de dois anos de gravações. Oportunidade para que Curió apresentasse parte do seu cotidiano e suas relações com familiares e amigos.

 

Cena do filme Chico Curió, direção de Theo Guarnieri e Daniel Schwarz.

Fonte: www.mostratiradentes.com.br 

 

Na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Chico Curió apareceu novamente na grande tela do Cine Praça, no curta-metragem Um Talvez em Tiradentes, obra inspirada no livro Lendas de Tiradentes, publicado pelo IHGT-Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, com direção de Amaury Bassi, roteiro de Paula Cavalcanti, produção de Hosanan Conceição e com atores da Oficina de Teatro Entre & Vista. Como um autêntico multiartista, Curió tinha presença e ganhava maior dimensão com o seu violão e sua música. O filme Um Talvez em Tiradentes foi exibido novamente, na Mostra Tiradentes Abraça a Cidade, em 12 de agosto de 2026, no Centro Cultural Yves Alves.

 

Fonte: www.mostratiradentes.com.br

 

Homem muito simples, vivia na absoluta invisibilidade para muitos da terra, mas conquistava sempre amigos queridos e que reconheciam sua importância no cenário artístico local. Curió, como afirmou Rogério Paiva: “Andava à noite pelas ruas e praças da cidade tocando pra quem quisesse ou não quisesse ouvir”, sempre foi assim, por isso, ao apreciar sua trajetória, lembramos aquela composição do Milton Nascimento e Fernando Brandt:


        Foi nos bailes da vida ou num bar

        Em troca de pão

        Que muita gente boa pôs o pé na profissão

        De tocar um instrumento e de cantar

        Não importando se quem pagou quis ouvir

        Foi assim [...]



Curió está numa das instalações do Beco do Zé Moura, local de manifestações artísticas em prol da Cultura Afrobrasileira, seus amigos artistas lhe renderam homenagens, ele está entre duas figuras emblemáticas de Tiradentes, o Capitão Prego – do Congado de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia e a Benzedeira Dona Erci Paiva.


Chico Curió – pintura no Beco do Zé Moura, Tiradentes. Obra de Bruno Souza e André Frade. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Entre 2025/2026 tentamos montar a exposição com os desenhos do Chico Curió, que seriam mostrados em conjunto pela primeira vez. Infelizmente não conseguimos apoio cultural/financeiro.

 

Luiz Antonio da Cruz

 

Agradecimentos: Família Yves Alves, Rogério Paiva, Ivan Alves Filho, Gabriel Pitta,

Maria José Boaventura, Sérvulo Matias Filho.

 

Referências:

ALVES FILHO, Ivan. O caminho do alferes Tiradentes – uma viagem pela Trilha dos Inconfidentes. Tiradentes: Mandala Produção, 2018.

Lendas de Tiradentes – Histórias da gente da cidade contada através de gerações. Tiradentes: IGHT, 2011.

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

Zé Ruela e João da Rosa

Os ofícios tradicionais em Tiradentes

 

José Francisco da Silva nasceu em 27 de agosto de 1955. Sempre viveu na casa número 90, da Rua da Santíssima Trindade. Seus pais eram José Benedito da Silva e a mãe Dona Rosa Lourenço da Silva. O casal teve sete filhos e José – que foi alcunhado de Zé Ruela é o primogênito. Desde muito cedo Zé teve que trabalhar e estudou apenas o primário, teve como professoras as donas Alice Lima Barbosa, Vitória Gomes, Maria Gomes e Leonor Gomes.

 

Zé Ruela, na Rua da Santíssima Trindade, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz, 2002. 

 

Seus avós paternos foram Geraldo Dias da Silva e Dona Abigail Trindade da Silva. Geraldo trabalhava com caulim retirado e trazido do Chapadão da Serra de São José. Caulim é um minério composto de silicatos hidratados de alumínio, utilizado na fabricação de papel, cerâmica, tintas e outros produtos. O mineral é formado pela caulinnita, em geral de cor branca ou quase branca, devido ao baixo teor de ferro. Era um serviço pesado e levou o filho José Benedito para lhe ajudar nessa tarefa que propiciava o sustento familiar. José Benedito – acabou conhecido como Zé da Abigail. Certo tempo depois, abandonou o caulim e foi trabalhar na Oficina de Ourives do Pinduca. Lá conheceu as ferramentas, os materiais, a solda, os desenhos. Aprendeu tudo rapidamente e conseguiu tirar o pai do trabalho com o caulim da Serra de São José e o levou para a Oficina do Pinduca.

Zé da Abigail se tornou um dos exímios artífices de Tiradentes e dominava a bigorna como poucos. Produzia bingas, isqueiros, rosas de prata, peixes e galos fundidos aos pares. Trabalhava para os Barbosa e em sua casa se dedicava à ferragem. Produzia de tudo em ferro batido. Tornou-se armeiro e confeccionava cópias primorosas de armas antigas, em todos os seus detalhes, inclusive as coronhas em madeira.

Os filhos cresceram nesse ambiente de muito trabalho e habilidades surpreendentes do Zé da Abigail. Zé Ruela, o primogênito, diz que não era fácil ter um pai assim. Ele ensinava tudo, mas apenas uma vez. Não repetia nada. Produzia as ferramentas e tudo era artesanal. Era um homem sério, justo e honesto. Sua palavra proferida era um documento. Trabalhava muito. Mas gostava de pescar, caçar, consertar carros velhos. Reunia a meninada e contava casos de assombração – era um entusiasta contador de histórias. Como todos os ourives de Tiradentes, sempre que pôde, participou do tradicional Jubileu do Senhor Bom Jesus, em Congonhas-MG.

 

O casal Zé da Abigail, Dona Rosa e filhos, mais João Passarinho. Jubileu do Senhor Bom Jesus, Congonhas-MG. Fotografia: acervo Família Silva, arquivo: Luiz Cruz.

 

Zé Ruela conta sobre a avó, a Dona Abigail, tinha que acompanhá-la em todas as celebrações religiosas. Ela mantinha a disciplina só com o olhar. Dona Abigail foi dama do Sagrado Coração de Jesus e foi figurante do filme As Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz, gravado em Tiradentes em 1967 e dirigido por Paulo Gil Soares. Até chegar aos 18 anos, Zé Ruela esteve sob os rigores da disciplina familiar: durante o Jubileu da Santíssima Trindade, não saia; aos sábados, podia passear no Largo das Forras, mas às 21h tinha que estar em casa.

Casou-se com Maria Malta em 1978. Maria passou assinar Maria da Trindade Silva. Tirou o Malta, mas todos se referem a ela com a “Malta”. O casal tem três filhos e três netos.

Zé Ruela trabalhou na Oficina de Ourives São Judas Tadeu, do Geraldo Conceição, o Mitula. Produzia as peças soldadas por uma série de mulheres que trabalhavam com ele. As oficinas de ourives geravam muitos empregos e a cidade, naquele período, era referenciada como a “cidade da prata”. Como ourives habilidoso, ajustava os cilindros da oficina, consertava as moendas, apertava as arruelas. O Tião Marrom foi quem lhe deu o apelido de Zé Ruela, quando contava com 16 anos.

Na década de 1970, Yves Alves chegou a Tiradentes e comprou as casas do início da Rua da Santíssima Trindade – a casa do avô Geraldo Dias da Silva, a casa do tio Antônio e a casa do Zé da Abigail. Tudo foi colocado abaixo. Quando iniciaram as obras da construção da casa de Yves Alves, Zé Ruela foi convidado para produzir toda a ferragem da nova edificação, com o design do século XVIII, dobradiças, trincos, trancas, aldravas e cravos. Depois, produziu a ferragem para as casas de Antônio Carlos Muniz, do Padre José Nacif, do Eros Conceição e de sua própria residência; ainda trabalhando na Oficina de Ourives São Judas Tadeu.

 

Zé Ruela, Maria Malta e o filho Paulo José. Fotografia: acervo Família Silva. 

  

      



Ferragem feita por Zé Ruela para a sua casa. Fotografias: Luiz Cruz. 

 

Posteriormente, Zé Ruela e Malta trabalharam para o Yves Alves. Ele acompanhou Yves Alves até o seu falecimento. Zé teve um infarto. Fez dois cateterismos e se aposentou. Não voltou mais para as atividades de ferreiro.  Agora só acompanha a vida familiar. Gosta de cuidar do seu jardim suspenso. Prepara as refeições para as reuniões familiares, quando coloca em prática outra habilidade – a de cozinheiro. Gosta de fazer churrasco, bacalhoada, galinhada, pão de queijo. Sempre fez broa para o Yves Alves e Dona Dalma, mas na sua casa a melhor broa de fubá com queijo é a que a Malta faz. Ele assegura, é uma delícia e imbatível.

 

Zé Ruela em sua casa, Rua da Santíssima Trindade, Tiradentes. Foto: Luiz Cruz, 2018.

 

 
 

Plantas do jardim suspenso cultivado por Zé Ruela e Malta. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz.

  

A tradição do ofício de ferreiro continua na casa do Zé Ruela. Seu filho, José Carlos, mantém a Oficina de Ferreiro nos fundos da casa do Zé Ruela, na Rua da Santíssima Trindade. Lá estão algumas peças que foram da oficina do avô, o Zé da Abigail. Tudo é feito manualmente e mantendo os desenhos das peças originais do século XVIII. E a boa ferragem mantém um dos ofícios mais tradicionais da antiga Vila de São José, a atual Tiradentes.

 

Antigo fole, da oficina do Zé da Abigail. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Peças da Oficina de Ferragem do José Carlos. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

    


Peças da Oficina de Ferragem do José Carlos. Tiradentes. Fotografias: Luiz Cruz.

  

João da Rosa

João Batista da Silva nasceu em 19 de março de 1960. Tornou-se conhecido como João da Rosa, em referência à sua mãe – Dona Rosa Lourenço da Silva. Muito cedo descobriu suas habilidades para os trabalhos manuais. Trabalhou nas oficinas de ourives e com o pai. Por certo tempo, foi caseiro em São Paulo. Ao retornar para Tiradentes, trabalhou 16 anos como caseiro de Dona Vivi Nabuco, em sua casa na Rua da Câmara. Lá manteve sua oficina e fazia as lanternas, que aprendera com o pai.

 

João da Rosa em sua oficina, a produzir lanternas. Fonte: Frota, 1993.

 

João da Rosa desenvolveu uma linha de lanternas e resgatou os desenhos originais. Depois passou a fazer os lampiões para iluminação pública. Numa única encomenda, produziu 360 lampiões para a cidade de Paraty, no estado do Rio de Janeiro.  Teve uma vida intensa. Participou como figurante de algumas gravações realizadas na cidade e se divertia. Contribuiu com as obras da sede do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes. Sempre esteve atento com as questões ambientais.

Recebeu um desafio, higienizar e restaurar a prataria da Paróquia de Santo Antônio, de Tiradentes. Com prudência, conseguiu executar bom trabalho.

 

João de Rosa e Vicente da Florinda, Jubileu da Santíssima Trindade. Fonte: Muniz, 2024.

 

João da Rosa, de vestido preto, figurante de uma das minisséries gravadas em Tiradentes, 1997. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

João da Rosa, de camisa verde, em atividade na sede do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz, 1998. 

 

João da Rosa se casou com Maria Nazaré de Oliveira Silva. O casal teve o filho Ricardo de Oliveira Silva. João e Nazaré sempre gostaram de cuidar das plantas e a grande paixão deles foram as orquídeas. Os dois cultivavam as orquidáceas no jardim, nos troncos das árvores e construíram um orquidário. Plantas adquiridas em orquidários profissionais. 

 

Lustre em cobre, trabalho de João da Rosa. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

  

Lampião de parede, trabalho de João da Rosa. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

João enfrentou as turbulências da vida, com os problemas de saúde. Teve cinco aneurismas. Graças ao SUS, foi submetido a uma cirurgia em Juiz de Fora e colocou uma prótese no valor de R$130.000,00. Em um dos aneurismas, sua perna direita teve que ser amputada. Tornou-se cadeirante, mas logo de adaptou às muletas, voltou a trabalhar e produzir as lanternas. Trabalhou muito e gostava da sua atividade. O último aneurisma ocorreu em uma veia do coração e não resistiu, foi a óbito. João da Rosa faleceu na Sexta-Feira da Paixão, dia 29 de março de 2024.

De pai para filho, a tradição continua. Ricardo, seu filho único, mantém a oficina de lanternas e fornece as peças para os clientes de várias partes do Brasil. Conta que não tem sido fácil, mas gosta do ofício herdado do pai, sente-se orgulhoso em manter a tradição dos seus antepassados. 

 

Zé da Abigail e seu pai Geraldo, avô e bisavô de Ricardo, ambos exímios artesãos. Fotografia: acervo Família Silva. 

 

Ricardo e sua produção de lanternas e luminárias, seguindo a tradição familiar. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Ricardo e sua produção de lanternas e luminárias, seguindo a tradição familiar. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

  

Lampião de rua, feito por Ricardo. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

  

A dupla Zé e João

 

Os dois irmãos formavam uma bela dupla, não de cantores sertanejos, mas sim de exímios artesãos. Zé Ruela foi ferreiro e João da Rosa foi lanterneiro. Habilidades oriundas dos tempos coloniais e agora mantidas por seus filhos. Esses irmãos começaram a trabalhar ainda na infância e absorveram bem o aprendizado. Estiveram junto em todos os momentos da vida, em especial nos turbulentos. Um tinha orgulho da trajetória do outro e sempre foi assim. Tiveram boas referências familiares e entre elas há que se destacar a matriarca Dona Rosa. Uma cidadã fabulosa, cozinheira esplêndida, que também trabalhou muito para ajudar na criação da prole. Doceira – o mais delicado doce de limão capeta que apreciamos foi produzido por Dona Rosa. Aquela textura delicada, o sabor refinado e o cheirinho do limão com canela.

  

Chico Lourenço, Dona Rosa, sentado Zé da Abigail, netos e bisneto – quatro gerações. Fotografia: acervo Família Silva.

  

Dona Rosa, mãe dos artesãos Zé e João. Fotografia: acervo da Família Silva.

 

 

João e Zé irmãos sempre juntos e em todos os momentos. Fotografia: acervo Família Silva. 

 

A história dos irmãos artesãos Zé e João enrique a vida cultural de Tiradentes. Eles, com os seus ofícios, conseguiram manter e transmitir saberes herdados do período colonial. Isso enriquece nosso Patrimônio Imaterial e nosso Patrimônio Humano. Os tiradentinos com seus fazeres e suas habilidades tradicionais contribuem para que nossa amada cidade continue em destaque no cenário cultural brasileiro.

  

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

  

Referências:

CRUZ, Luiz Antonio da. Recortes de Memórias. Tiradentes: IHGT, 2014.

CRUZ, Luiz Antonio da. A arte da ferragem. Disponível em: https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2024/09/a-arte-da-ferragem.html. Visitado em: 26 de agosto de 2026.

FROTA, Lélia Coelho. Tiradentes: Retrato de uma cidade. Rio de Janeiro: Campos Gerais, Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, 1993.

MUNIZ, Vicente Pedro. Reminiscências. Tiradentes: Entre & Vista, 2024.

 

Apoio institucional:


 

 

  Dona Bela   Izabel Lopes da Cruz nasceu em 28 de outubro de 1935, em uma casa da antiga Rua do Sol, a atual Rua Padre Toledo. Seus pai...