terça-feira, 14 de julho de 2026

  

 

 

 Museu do Tiradentino

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Dona Florinda

A formosa flor de cidade

 

Ela nasceu em 13 de março de 1933, em Tiradentes. Filha de Antônio Moreira da Costa e Maria Glória da Luz. Foi criada na casa do Beco do Chafariz e quando criança gostava de passear e brincar no Alto de São Francisco, ia sempre lá na companhia da avó. Teve uma infância difícil, pelas condições econômicas; as roupas passavam por muitos remendos e o avô fazia os calçados artesanais, para que pudesse ir à escola. No Grupo Escolar Basílio da Gama, do 1º ao 4º ano, Rosina Paolucci foi sua professora, de quem guarda belas recordações. Na juventude, gostava de dançar nos bailes. Sua família veio do Cajuru, distrito de São João del-Rei, que tem como padroeiro São Miguel Arcanjo.



Dona Florinda em sua casa, bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2002.

Fotografia: Luiz Cruz.


          

Em 1950, aos 17 anos, Dona Florinda casou-se com José Maria Muniz e passou a assinar Florinda Joana Muniz. O pai de José era o proprietário da Chácara do Pacu, onde viviam. Depois de casados, Dona Florinda e José foram morar na Rua Direita, na casa de número 55, que fora emprestada por Dona Gininha, onde posteriormente viveu Antônio Tibúrcio.

Dona Florinda e José construíram uma família numerosa. O primogênito é Vicente Pedro Muniz, depois vieram Francisco de Paula, Maria Luiza, Lúcia de Fátima, Lizete Geralda e Lucilene das Neves. Tem muitos netos e muitos bisnetos.

José Maria Muniz trabalhava para Vicente Guerra, possuidor de imóveis na cidade. Por certo tempo, o casal morou na casa do Beco do Chafariz, depois se mudou para a Chácara, no Largo das Mercês, 149, propriedade de Vicente Guerra. Desse imóvel, a família se transferiu para outro, na Rua da Câmara, 58, também propriedade de Vicente Guerra.

 

Maria Luiza, Dona Florinda, José, Lizete e Lucilene.

Fotografia: Acervo Família Muniz.


Dona Florinda vivenciou bons momentos na Chácara, no Largo das Mercês. A casa foi instalada num amplo terreno, cheio de árvores frutíferas e havia fartura de frutas. Esse imóvel foi adquirido e doado para as freiras de Nossa Senhora das Dores e atualmente abriga o Instituto Mário Mendonça, que pode ser visitado, através de agendamento. Posteriormente, a propriedade foi denominada “Chácara das Pitangueiras”.

 

Chácara onde Dona Florinda viveu com a família.

Atualmente abriga o Instituto Mário Mendonça. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

A família Muniz morou em outras casas e teve um terreno, que fora vendido para Nicolau Panzera. Até que se fixaram no bairro Cascalho, na Rua Vereador Antônio Hipólito do Nascimento, 79, onde vive há mais de quatro décadas. E Dona Florinda ressalta: – O Cascalho é uma beleza, adoro morar aqui, é tudo de bom.

Dona Florinda tem orgulho de suas raízes e sempre frequentou o Cajuru, principalmente para participar das celebrações a São Miguel Arcanjo. Lembra-se que a Capela de São Miguel chegou a ficar em péssima situação de conservação; depois, foi restaurada. Toda orgulhosa, conta que era bisneta de Maria Joaquina, que faleceu com 100 anos de idade, ainda lúcida. Ela gostava de preparar as comidinhas simples como o palmito e o broto de samambaia, colhidos em lugares mais frescos. Maria Joaquina vivia no Cajuru; tinha só uma “vista”, a outra ficara comprometida em consequência da varicela.

 

Dona Florinda, em registro da família. Fotografia: Acervo Família Muniz. 


Dona Florinda trabalhou muito para ajudar no sustento da família. Fazia bolinho de feijão. Fazia os doces juntamente com o marido, o biscoito de amendoim na calda cristalizada, os doces de frutas: mamão, cidra e figo. Preparava o crocante canudinho de doce de leite e o doce de batata-doce. Semanalmente mandava quatro balaios de doces para os “fregueses” em São João del-Rei. No trem, da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas, mandava doces para Barroso e para Antônio Carlos.

Foi fazendo e vendendo doces que o marido José e ela conseguiram se aposentar.

Os filhos Vicente e Francisco aprenderam a fazer os tradicionais doces.


Dona Florinda, em registro da família. Fotografia: Acervo Família Muniz. 


 

No Cajuru 

 

Por causa de sua devoção a São Miguel e pela tradição familiar de fazer e vender doces, vivenciou uma experiência dramática, no Cajuru. Era domingo da festa, na rua, dezenas de barracas estavam preparadas para a chegada dos romeiros. O movimento era intenso, quando no topo da ladeira um caminhão perdeu o freio e desceu arrastando barracas e romeiros. Dona Florinda estava lá com o filho Vicente e o carrinho de doces. No pânico geral, Vicente só teve tempo para puxar e proteger a mãe. Não fosse ter colidido com o carro de Vicente, o caminhão continuaria atropelando barracas e romeiros.

Esse acidente deixou muitos feridos e vítimas fatais, inclusive crianças. O Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes foi acionado e participou do resgate das vítimas. Diversos aspectos desse grave acidente do Cajuru foram registrados fotograficamente.

Quando as providências estavam concluídas, os Voluntários retornaram a Tiradentes e trouxeram Dona Florinda para sua casa. E ela nos contou: – Só fui salva por ação de meu protetor São Miguel Arcanjo. 


 

Acidente no Cajuru, o caminhão desenfreado colidiu com o veículo

 de Vicente e causou grande tragédia, com vítimas fatais.

Cajuru, São João del-Rei-MG. Fotografia: Luiz Cruz.  

 

Moradora do bairro Cascalho por décadas consecutivas, conhece todos. Sempre que passávamos por sua casa, trocávamos um dedo de prosa. Dona Florinda gosta de contar sobre a vida tão difícil que foi em Tiradentes na primeira metade do século passado. Com orgulho, fala sobre a proeza de criar a família produzindo doces.

Agora, nossa amiga nonagenária está mais resguardada. A saúde requer mais atenção e mais cuidados.

  

Dona Florinda em sua casa, no bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2018.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

Era com alegria que sempre parávamos e fazíamos a saudação: – Boa Tarde, Dona Florinda! Como a Senhora está? Logo, ela respondia: – Boa Tarde, meu filho! Estou bem. Estou aqui aproveitando o sol da tarde. E ela abria aquele sorriso iluminado. Sabíamos que aquela saudação era importante para ela. Considerar, reverenciar e humanizar é necessário. 

 

 

Dona Florinda em sua casa, no bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2022.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

O marido

 

José Maria Muniz, seu marido, trabalhou demais na vida. Mas fazia o que gostava. Foi musicista, tocava trompa e integrava a Sociedade Orquestra e Banda Ramalho, atuante desde 1860. Participava de todas as apresentações musicais, as religiosas e as civis. Dona Florinda gostava de viajar com os músicos e uma dessas apresentações da Orquestra Ramalho ocorreu em Brasília, na década de 1970.


                

José Maria Muniz em Brasília, década de 1970. Fotografias: Acervo Família Muniz.

 

José Maria Muniz com integrantes da Banda Ramalho

Fotografias: Acervo Família Muniz.


Em 1976, por iniciativa de Yves Alves e com o apoio institucional da Rede Globo Minas, foi gravado o LP Minas, 1717-1977 (Região do Rio das Mortes), pela Som Livre. Teve a participação das orquestras de Tiradentes, Prados e São João del-Rei. A gravação da Orquestra Ramalho foi um sucesso e ocorreu no coro da Matriz de Santo Antônio, que contou com a participação dos antigos musicistas e lá estava José Maria Muniz. O período de apoio e divulgação da música da região do Rio das Mortes se tornou elementar para o fortalecimento das tradicionais instituições musicais da região.

 

Coro da Matriz de Santo Antônio, Tiradentes-MG.

 Orquestra Ramalho durante a gravação para o LP da Som Livre, 1976.

Fotografia: Francisco Botelho, acervo: Luiz Cruz. 


 


LP gravado em 1976, com a participação da Orquestra Ramalho e

 do musicista José Maria Muniz. Acervo: Luiz Cruz.


 

Vicente Pedro Muniz 

 

O primogênito dos Muniz nasceu em 29 de junho de 1954, na casa do Beco do Chafariz. Estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama. Desde cedo, teve que trabalhar e ajudar na venda dos doces. Mais tarde se dedicou às mais variadas atividades, inclusive como vigilante de instituição financeira, até se aposentar. Porém, sempre produzindo e comercializando os doces caseiros.

Vicente foi presença nas festas religiosas com o carrinho de doces, tornou-se figura tradicional no Jubileu da Santíssima Trindade e nas festas regionais, como a de São Miguel Arcanjo, no Cajuru; a de Santo Antônio, no Rio das Mortes; a do Livramento, em Prados; a de Nossa Senhora de Nazaré, em Nazareno; a de Sant’Ana, em Barroso e tantas outras. 

Casou-se cedo, aos 19 anos, com a bela Nilza Silveira. O casal teve os filhos Giovani, Jackson, Eva e Vilma e tem cinco netos: Miguel, Inácio, Andreza, Valentina e Bárbara.  


 

Vicente e Dona Nilza, com os seus padrinhos de casamento. 

Ao lado da noiva, o seu pai, Mário Silveira. Matriz de Santo Antônio, 1973.

 Fotografia: Acervo Família Muniz.


Depois de aposentado, Vicente escreveu e publicou um livro de memórias intitulado Reminiscências. Na obra, ricamente ilustrada, a contar suas peripécias de menino e suas atividades, sobretudo a produção dos doces caseiros. 


 

Vicente Muniz e seu Carrinho de Doces, no Jubileu da Santíssima Trindade, 

Tiradentes-MG, 2024. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Detalhe do Carrinho de Doces de Vicente Muniz. Tiradentes-MG, 2024.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Em Reminiscências, Vicente apresenta a receita e o modo de fazer do “Biscoito de Amendoim”, que aprendeu a fazer com os pais. Trata-se de um doce muito tradicional de Tiradentes e bastante apreciado. 


 



O livro de Vicente Muniz foi publicado através de projeto idealizado pela Oficina de Teatro Entre & Vista e contou com o apoio do Conselho Municipal de Políticas Culturais e Patrimônio de Tiradentes.

 

Francisco de Paula Muniz 

 

É o segundo filho de Dona Florinda e José, nascido em 5 de maio de 1956. Estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama e no Ginásio Dom Delfim Ribeiro Guedes. Em São João del-Rei, cursou o Ensino Médio na Escola Estadual Cônego Osvaldo Lustosa; naquele tempo para estudar naquela escola tinha que passar por exame de seleção. Conta que teve excelentes professores e deles guarda boas lembranças.

Ia estudar em São João del-Rei e levava os balaios de doces para vender. Assim, conseguiu completar os seus estudos. Sempre trabalhando.


 

Chiquinho da Florinda, em 2002. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Com a família, viveu em algumas casas do núcleo antigo de Tiradentes e nasceu em uma que não existe mais na Rua Direita (atualmente sem número), a que ficava ao lado da antiga Cadeia, a casa do Chico Machado. Essa edificação ruiu completamente no início da década de 1970. De todas as casas que morou, gostou mais da Chácara, do Largo das Mercês. 

 

Chácara do Largo das Mercês, onde viveu a Família Muniz. Tiradentes-MG.

 Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Sempre gostou de cozinhar e ajudou os pais nos preparos dos doces. Chiquinho da Florinda, como é conhecido na cidade, sempre teve uma vida dinâmica. Montou o time de futebol, o São José, que participou e venceu vários torneios. Apreciava o volleyball. Ainda, jogava baralho e tem uma coleção de troféus dessa atividade. 

 

Parte da coleção de troféus que Chiquinho conquistou nos torneios de baralho.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Durante certo tempo manteve a coluna Contos e Lendas da Cidade, publicada no jornal editado pela Mazé. Teve o Grupo de Teatro Pintando o Sete, que realizou diversas apresentações em Tiradentes, Resende Costa, São João del-Rei, Muriaé e outras localidades.

Durante anos consecutivos fez caminhadas na Serra de São José. Passeava. Ia para apreciar a exuberante natureza – a vegetação – em especial as orquídeas, os pássaros, as rochas, as cachoeiras, os riachos.  Conhecia tudo. Aproveitou bem as frutas da serra: gabirobas, jacas, araçás, jambos, araticuns, banana do brejo, marmelo, veludo, ingá. Trazia os pinhões para assar em casa.

É devoto da Santíssima Trindade e durante muitos anos trabalhou voluntariamente na cozinha, durante o Jubileu. Fazia comida para muita gente. Passava a novena toda trabalhando, cozinhando.

Ia à Serra de São José para buscar ramos para a Procissão de Domingo de Ramos e arnica para enfeitar os altares das igrejas. Ajudava na organização da Semana Santa, por certo tempo cuidou da produção do figurado de Sexta-feira da Paixão e nesse dia ia às fazendas para pedir leite para fazer arroz-doce.

Um dos passeios que mais gostava era o de trem, quando circulava entre São João del-Rei e Antônio Carlos. Saía de Tiradentes às 8h e chegava lá às 12h. A função durava o dia todo. Organizou vários grupos para fazer esse passeio de trem completo, na EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas.

  

Chiquinho da Florinda e amigos, antigo Parque de Exposições de Tiradentes.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

Trabalhou muito. Incialmente, no Bar do Ivan. Depois como restaurador e pintor de parede. Pintou várias igrejas. Por certo tempo, dedicou-se à cerâmica artística e produção de vasos ornamentais. Finalmente, foi parar na rede hoteleira local, trabalhou por cerca de 30 anos no Pouso das Geraes, onde se aposentou.

 

Chiquinho da Florinda, no seu posto de trabalho no Pouso das Gerais.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

É devoto da Santíssima Trindade e de Nossa Senhora Aparecida. Torcedor do time tricolor, o Fluminense. Tem uma paixão imensurável na vida, sua mãe, Dona Florinda, com quem vive.

 

Chiquinho da Florinda e Dona Florinda. Fotografia: Acervo Família Muniz.



Rafael Muniz Batista 

 

É um dos netos de Dona Florinda. Nasceu em 17 de dezembro de 1988 e seus pais são José Tarcísio Batista e Lucilene das Neves Muniz Batista. Morou na companhia da avó Florinda durante 17 anos e gostava muito da vida no bairro Cascalho.

 

Rafael Muniz Batista, neto de Dona Florinda. Tiradentes, 2002.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Estudou na Escola Municipal Marília de Dirceu e na Escola Estadual Basílio da Gama. Atuou como coroinha na Paróquia de Santo Antônio. Seu primeiro trabalho foi na Pousada Vila Alferes, depois exerceu outras atividades, nos serviços gerais e pintor. Com Suelen Oliveira teve o filho Leonardo Oliveira Muniz – um dos bisnetos de Dona Florinda. Atualmente vive Divinópolis.

 

A matriarca Muniz

 

Dona Florinda trabalhou intensamente para ajudar na criação dos filhos e dos netos. Agora, nonagenária, olha para o tempo, aprecia a bela história de vida que construiu e repleta de muitos sabores. Sempre esteve de bem com tudo e com todos, mas nos momentos difíceis invoca os santos de sua proteção: São Geraldo Majela e São Miguel Arcanjo.

  

Dona Florinda em sua casa, bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2018.

Fotografia: Luiz Cruz.


Dona Florinda é muito admirada pelos familiares, vizinhos e comunidade. Sua história de vida enriquece o Patrimônio Cultural de Tiradentes. 

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

 

Agradecimentos ao Maestro Willer Silveira e a Demétrio Campos Bissulle.

 

 Apoio institucional:






 

      

      

      

 

     

quarta-feira, 1 de julho de 2026

 

 

 

 Museu do Tiradentino

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Maria Luiza Boaventura Leite

a dama das mãos de fada

 

Maria Luiza Boaventura Leite. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Boaventura Leite é família de raízes que se conectaram a outras e aprofundaram nas Minas Gerais. Vincularam afetivamente regiões distintas e com culturas muito peculiares – de Pirapora a Paracatu, Curvelo a Morro da Garça, Cordisburgo ao portão do Sertão, da jovem Belo Horizonte à tricentenária Tiradentes.

Maria Luiza Boaventura Leite nasceu em Pirapora, em 1º de novembro de 1948. Seus pais eram Edmundo Boaventura Leite e Ilka Vargas Boaventura; nesse núcleo, os filhos são quatro mulheres e dois homens. Ela passou a infância toda em Pirapora, às margens do caudaloso Rio São Francisco – o rio da integração nacional. Estudou no Colégio Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e fez o Curso Normal no Ginásio São João Batista.

Conta que a infância foi maravilhosa, Pirapora era uma cidade cosmopolitana, aerada, leve e ponto de encontros. Tinha o “porto”, tinha a Marinha Mercante, tudo com muito movimento. As férias eram passadas no Morro da Garça, com os avós paternos. Havia a casa da “venda”, o armazém de secos e molhados, onde se podia comprar de tudo: tecidos, cadernos, querosene, fumo de rolo, algodão, artigos de armarinho, feijão, sal... Uma venda com muitas portas. Localizada bem à frente do Morro da Garça. Atualmente, a edificação abriga o Museu Casa Boaventura e seu acervo é formado por fotografias, objetos, móveis, a história familiar e a da localidade Morro da Garça.

 

Museu Casa Boaventura. Morro da Garça-MG.

Fotografia: acervo Museu Casa Boaventura.

 

O Morro da Garça tem origem antiga, encontrava-se na rota do “caminho dos boiadeiros”, a ligar a Bahia com as Minas de Sabará, ainda nos primeiros anos setecentistas. Lá, então, surgiu a Capela de Nossa Senhora das Maravilhas, construída em 1720 e infelizmente demolida em 1950.

A referência mais antiga do Morro da Garça figura na obra Cultura e Opulência do Brasil, de André João Antonil, publicada em Lisboa, em 1711. Morro da Garça, Campo da Garça e Fazenda da Garça foram mencionados nos roteiros dos boiadeiros da Bahia.  O primeiro vigário da capela dedicada à Nossa Senhora das Maravilhas foi o Padre João Batista Boaventura Leite (Barbosa, 1995, p. 212).

O Arraial do Morro da Garça integrava o termo de Curvelo, sua emancipação ocorreu em 1962. Toda mobilização para a emancipação do Morro da Garça contou com o empenho da família Boaventura Leite e seu primeiro prefeito foi José Boaventura Leite Júnior, que tomou posse nesse cargo em 3 de agosto de 1962. A paróquia da nova municipalidade é dedicada à Nossa Senhora da Conceição do Morro da Garça.

Da religiosidade familiar, Maria Luiza Boaventura herdou da avó materna, do Morro da Garça, Maria Amélia, a devoção a São José. Santo forte, o homem escolhido para ser o marido de Santa Maria e o pai de Jesus Cristo.

 

Uma trajetória para a formação

 

Edmundo Boaventura Leite foi um homem de visão. Adquiriu em Belo Horizonte um apartamento em 1967, para receber os filhos no período de formação. Nesse ano, Maria Luiza se mudou para a capital para estudar. Fez o Curso de Nutrição, na Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais e logo começou a trabalhar. Era um curso técnico e naquela época o Curso Superior de Nutrição só havia no Rio de Janeiro; em Minas, primeiro Curso de Nutrição foi em Ouro Preto, aprovado em 1978. Depois, iniciou em Comunicação, na PUC-MG, interrompeu para se casar e mudar para São Paulo. Às vésperas do casamento, seu futuro marido foi transferido para Belo Horizonte. Casou-se, mas não retornou para concluir Comunicação, na PUC-MG. Teve duas filhas: Ana Luiza Boaventura de Andrade e Laura Boaventura de Andrade.

 

Maria Luiza e suas filhas: Ana Luiza e Laura. 

Fotografia: acervo Família Boaventura Leite.

 

Sempre trabalhou em Belo Horizonte. Sempre teve autonomia, inclusive de mobilidade, há mais de 60 anos possui a CNH – Carteira Nacional de Habilitação. Trabalhou no Estado de Minas Gerais, no Procon que foi ligado ao Seplan, cuidou da criação do “Código do Consumidor” e para tal esteve algumas vezes em Brasília, para estudar como o órgão deveria funcionar da melhor maneira possível. Sempre se dedicou à área de alimentos. Em Belo Horizonte, prestou concurso no SESI, ainda dirigido por José de Alencar. Foi aprovada e trabalhou por curto período na Creche Bem-Me-Quer, em Tiradentes.

Maria Luiza conheceu Tiradentes em 1969. Voltou a frequentar a cidade a partir de 1984, quando a irmã Maria José Boaventura alugou o “Chalé” e para Tiradentes se mudou. Um dia, passeando pelo centro antigo, viu uma placa de “vende-se” na casa do Largo do Ó, número 13. Era Carnaval. Teve interesse em adquiri-la e 15 dias após, estava na cidade para assinar a documentação de compra da casa. Logo fez a reforma e uma das moradoras foi a artista visual Maria Lídia Magliani. Somente em 1993 veio viver definitivamente em Tiradentes.

A casa do Largo do Ó número 13 pertencera à Dona Eufrásia, irmã de Dona Trindade do João Capitão; que vendera o imóvel para viver mais próxima à irmã, na Prainha. Era uma casa pequena, mas repleta de história e memória, elemento componente de um dos largos mais charmosos do Brasil: o Largo do Ó, da antiga Vila de São José. Naquela singela edificação, abriu-se, então, a “Maria Luiza Casa de Chá, Café e Bordados”.

 


A Casa Maria Luiza, Largo do Ó, Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.
 

Foi o primeiro café de Tiradentes. Como ocorreu com o hotel Solar da Ponte, onde Anna Maria Parsons inovou a maneira de se hospedar com charme, elegância e a prestigiar os talentos locais da artesania; Maria Luiza também foi pioneira ao receber para se tomar um bom café e se deliciar com um pão de queijo quente. Era um café, galeria de arte, um ambiente acolhedor.

Maria Luiza se valeu das experiências culinárias familiares – tão enraizadas em Minas. Café com as iguarias mineiras: os biscoitinhos crocantes, a broa de fubá, os sanduiches de carne, as geleias, os bolos, as tortas, os pães recheados, as broinhas de canjica, as quiches salgadas – com nove sabores deliciosos. Para as noites frias: os caldos e as sopinhas fumegantes. Preparava também as comidinhas alemãs, que aprendera com a amiga Zahrle. O ambiente agradável, com boa música, especialmente do compositor Manoel Dias de Oliveira, era propício à boa mesa de café.


Ambrosia de Maria Luiza, receita da avó Maria Vargas, de Paracatu-MG.

 Fotografia: Luiz Cruz. 

 

O carro chefe da Casa era a ambrosia, o mais autêntico manjar dos deuses. Receita de gerações consecutivas da família, que herdara da avó materna Maria Vargas, de Paracatu. A Casa oferecia música ao vivo e recebia muitos artistas que se apresentavam na cidade. Para quem passava por Tiradentes, nada melhor que um bom café. Maria Luiza foi pioneira também na apresentação de sua Casa, ao criar um cartão personalizado, uma imagem delicada sobre os seus produtos oferecidos à clientela do Largo do Ó, com o seguinte texto:


Maria Luiza Casa de Chá, Café Bordados, 

criado pela artista visual Maria José Boaventura, aquarela, 2002.

 

Café de mineiro, com boa prosa...

Primeiro, é preciso não ter pressa, assentar os pensamentos, refrescar a cabeça. O café é que deve ser quente, fumegante, sair lentamente da xícara e ir temperando as palavras. Esperar assar o pão de queijo, sentir o seu cheiro vir lá da cozinha. Enquanto isso, sai da boca do forno a broa prosa, o ouro do milho, inesgotável. Aí, pode surgir um caso, um conto, uma fatia de história ou um fio da memória puxado. Coisas que o mineiro gosta de guardar e dá de graça...

Para adoçar o encontro, consigo, com a infância ou com os avós, é bom mergulhar na ambrosia (alimento dos deuses). Dizem que ela é capaz de resgatar qualquer alma do limbo e devolvê-la sem o pecado original. E doce de abóbora, geleias, biscoitinhos, travessuras para os olhos e o paladar, tantas cores, formas e sabores.

Ao afrouxar assim o tempo, podemos nos tornar seus donos, em vez de seus servos. Numa mesa de café, em Minas Gerais, gastamos sem medo uma coisa que ainda temos: outro tempo, trem difícil de achar por aí pra comprar!

Maria José Boaventura, 2002.

 

Muitos artistas retrataram a casa do Largo do Ó, número 13, dentre eles o pintor local José Damas, que pintou sua primeira pedra com a casa. Ela foi tema de trabalhos das artistas Ucha, Magliani e tantos outros.

 

Largo do Ó e a Casa Maria Luiza. Autor: Zé Damas, pintura a óleo sobre madeira. 

Acervo: Maria Luiza Boaventura Leite.



Casa Maria Luiza, Largo do Ó. Autor: Zé Damas, pintura a óleo sobre pedra.

Acervo: Maria Luiza Boaventura Leite.

 

 

Casa Maria Luiza, Largo do Ó. Autora: Ucha, pintura, acrílica sobre tela. 

Acervo: Maria Luiza Boaventura Leite. 

 

  Casa Maria Luiza, Largo do Ó. Autora: Magliani, guache sobre papel. 

Acervo: Maria Luiza Boaventura Leite. 


 

Maria Luiza na porta do Passo da Paixão do Largo do Ó, 

 exatamente em frente à sua Casa. Fotografia: Luiz Cruz, 2002.

 

Além das obras de arte, diversos objetos antigos de cozinha compunham a ornamentação da Casa de Chá, Café e Bordados. Um item que se destacava era a coleção de bules antigos, em vários formatos, cores e materiais. Maria Luiza sabia a origem de cada um deles, de sua história e de suas trajetórias familiares. Infelizmente, depois que fechou a Casa, por falta de espaço, teve que desfazer dessa coleção, ficando apenas com alguns dos seus favoritos.

 

Bule de chá da Coleção Maria Luiza. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Bules de chá da Coleção Maria Luiza. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Mesmo após fechar o Café, que funcionou por 14 anos, Maria Luiza segue cozinhando. O carro chefe continua sendo a ambrosia. Faz as geleias, os bolos, as tortas, as comidas alemãs. Mas só para os clientes fidelíssimos da sua antiga Casa. Sua ambrosia continua fazendo sucesso e ainda chega a várias localidades do Brasil e do exterior.

 

Uma tiradentina de coração

 

As raízes de Maria Luiza, de Pirapora – seu torrão natal, se adentraram no solo de Tiradentes. Ela se tornou uma tiradentina de coração. Ama a terrinha como raros cidadãos. E acabou sendo presença marcante em todos os movimentos culturais e sociais da cidade.

 

Maria Luiza com grupo a assistir à inauguração das obras de restauração do

 Sobrado Ramalho. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Com o passar do tempo, construiu sua casa, em módulos, na Rua Vereador Antônio Coimbra e mantém um belo jardim. Sempre gostou de plantas e até teve um horto para oferecer boas opções para a jardinagem local. Foi uma das fundadoras do Núcleo Orquidófilo Serra de São José, que realizou diversas exposições, palestras e oficinas de cultivos de plantas, sempre com o objetivo da proteção das espécies da Serra de São José.


Souvenir do Núcleo Orquidófilo Serra de São José. Acervo: Luiz Cruz.

     

Exposição Nacional de Orquídeas, do Núcleo Orquidófilo Serra de São José.

Fotografias: Luiz Cruz. 

 

Participou do Congado de São Benedito, organizado pelo Instituto Cultural Biblioteca do Ó, que contou com o apoio financeiro da Fundação Palmares.  Integrava a Guarda Feminina do Congado. Conta que durante as pesquisas para a construção da indumentária dos congadeiros estava em Portugal. Ao retornar, tudo já estava pronto e ficara maravilhada com as roupas, os adereços, as bandeiras, os detalhes, o bom acabamento e o cuidado que tiveram com tudo.

 

Rede de Solidariedade

 

Maria Luiza sempre foi uma cidadã atenta. Durante a pandemia de Covid-19 muitas famílias passaram por momentos difíceis. Algumas pessoas perderam o emprego, outros tiveram os vencimentos bloqueados. Juntamente com Luiz Cruz e Maria José Boaventura, criaram a Rede de Solidariedade, para apoiar famílias. Inicialmente, com apoio às gestantes e às puérperas. Convocadas pelas Boaventura, várias amigas começaram a tricotar enxovais para os bebês. As doações chegavam, aqueciam os pequeninos e com delicadeza. 

    



Doações para a Rede de Solidariedade, que contou com muitas contribuições.

Fotografias: Luiz Cruz.

  

Descobrimos que muitas famílias se encontravam em grave situação alimentar. A Rede de Solidariedade passou a fornecer cesta básica para essas famílias, eram encomendadas ao supermercado – que as vezes demorava muito para a fazer as entregas. A Rede recebia as doações e as famílias recebiam os produtos. Ninguém sabia quem doava, ninguém sabia quem recebia. Infelizmente, devido à demora para a entrega, tivemos que fazer pessoalmente as entregas de apoio às famílias.

A Rede recebeu e encaminhou roupa de cama, roupa de banho e cobertores. Contribuiu para amenizar aqueles problemas inesperados em decorrência da pandemia.  Foram momento dramáticos, mas também foram momentos lindos, quando tivemos a certeza de que nossos amigos foram solidários e comprometidos com o bem-estar social em Tiradentes. A todos que apoiaram a Rede de Solidariedade seremos eternamente agradecidos.  Maria Luiza teve o cuidado de receber parte das doações e anotar tudo, para prestação de contas. Coisa que só os amantes da transparência e da ética apreciam.

 

Para aquecer o coração e a alma

 

Não tenha dúvida que Maria Luiza ama Tiradentes e os seus moradores. Sempre que tem notícia de que alguém está enfermo ou retornou do hospital após uma cirurgia, lá vem a Maria Luiza com a panelinha de sopa, quente, saborosa e nutritiva para que o convalescente recupere suas energias. Muitas, muitas pessoas já foram contempladas com o caldo, canja ou sopa de legumes dela. Só quem recebeu esse mimo saboroso, sabe o quanto é importante essa gentileza, esse calor humano, para o corpo e para alma.

Sempre visita os amigos e amigas. Gosta de se fazer presente na vida das pessoas que presa. E isso faz a diferença...

 

Maria Luiza e Dona Maria Edna, amiga que morava nas Lagoas, caminho do Bichinho.

 Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Maria Luiza nas Lagoas, onde ia visitar a amiga Dona Maria Edna. 

Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Na arte e na cultura

 

A família Boaventura / Vargas sempre esteve vinculada à cultura. Maria Luiza acompanha os eventos culturais de Tiradentes e de Minas Gerais. Em especial, participa das manifestações de raiz afro-brasileira. Para isso, já realizou diversas viagens, mas aprecia também os concertos, exposições, palestras, lançamentos de livros.  Por certo tempo, integrou o Coral Viva Voz, que realizou diversas apresentações; especialmente, junto ao órgão setecentista da Matriz de Santo Antônio.

 

Cristina Seabra, Maria Luiza e Ricardo Ribeiro Resende – 

lançamento do livro Memória Tropeira, em Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.


 

Cida Chaves e Maria Luiza, no lançamento do livro 

Mulheres insurgentes na Inconfidência Mineira

Anexo do Museu da Inconfidência, Ouro Preto-MG.Fotografia: Luiz Cruz.


 

Maria Luiza, na celebração Águas de Iemanja, Rua da Cachaça, São João del-Rei.

 Fotografia: Luiz Cruz.

 

Regina Carvalho, Maria José Boaventura, Maria Luiza, Ricardo Ribeiro Resende e

 Walquir Avelar no Reinado de Nossa Senhora do Rosário, Oliveira-MG,

 uma das mais importantes celebrações da cultura afro de Minas Gerais. 

Fotografia: Luiz Cruz.


 Maria Luiza no Engenho Boa Vista, propriedade dos descendentes de

 Dona Antônia Rita de Jesus Xavier, a irmã mais nova do Alferes Tiradentes. 

Fotografia: Luiz Cruz.


 

Cultura Política

 

Maria Luiza passou a juventude em Belo Horizonte e vivenciou bem de perto o que foram os “anos chumbo”, consequência do golpe militar ocorrido em 1964. Pessoas que se manifestavam pela Democracia eram perseguidas, presas, torturadas, mortas e muitas delas tiveram seus corpos desaparecidos. Foram os tempos tenebrosos.

Consciente do valor da Democracia, Maria Luiza sempre participou das manifestações realizadas em Tiradentes: Contra o Genocídio, Contra o PL da Devastação Ambiental, Contra o Racismo Estrutural em Tiradentes, Contra a Anistia para os Golpistas, Pela Democracia, Pela Vida, Pela Educação, Pelo SUS, Pelo Tombamento Federal da Serra de São José Já. Esteve presente em todas. Incentivou e apoiou as caminhadas contra as loucuras promovidas pelo “governo militar” passado. Parou e manifestou contra o racismo estrutural em Tiradentes. Caminhou e oportunizou subsídios para refletir que precisamos “lembrar para não esquecer”, que a ditadura militar é a obscuridade, a corrupção ampla e que mata, além de promover a ignorância do povo.



Maria Luiza em uma das diversas manifestações ocorridas em Tiradentes.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Maria Luiza na concentração da manifestação: Contra o PL da Devastação.

 Fotografia: Luiz Cruz.

  

Maria Luiza em uma das manifestações contra o racismo estrutural em Tiradentes-MG.

 Fotografia: Luiz Cruz.

  

Maria Luiza na manifestação Contra a Anistia para Golpistas

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

O tempo passa, o tempo voa. Parece que foi ontem que Maria Luiza se transferiu para Tiradentes e adotou a cidade como o seu torrão natal de coração. Continua sua jornada, agora, apenas com mais vagar. Adora cozinhar e preparar suas preciosidades – em especial a ambrosia, o manjar dos deuses. Costura, borda, cuida das plantas e da casa, cuida dos familiares e dos amigos. Aprecia com imensurável felicidade cada minuto que convive com a neta Alice.

O tempo passa, o tempo voa, mas Maria Luiza mantém sua jovialidade firme, repleta de generosidade e refinado senso de humanidade.

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

 

 

Referências:

ANTONIL, André João. Cultura e Opulência da Brasil. Lisboa, 1711.

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1995.

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário da Terra e da Gente de Minas. Belo Horizonte: Secretaria de Estado da Cultura, Arquivo Público Mineiro. Imprensa Oficial, 1985.

LARANJEIRA, Dilce. Ave, Sertão. Belo Horizonte: Ed. do Autor, 2015.

 

 Apoio institucional:

       




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