Zé
Ruela e João da Rosa
Os ofícios
tradicionais em Tiradentes
José
Francisco da Silva nasceu em 27 de agosto de 1955. Sempre viveu na casa número
90, da Rua da Santíssima Trindade. Seus pais eram José Benedito da Silva e a
mãe Dona Rosa Lourenço da Silva. O casal teve sete filhos e José – que foi
alcunhado de Zé Ruela é o primogênito. Desde muito cedo Zé teve que trabalhar e
estudou apenas o primário, teve como professoras as donas Alice Lima Barbosa,
Vitória Gomes, Maria Gomes e Leonor Gomes.
Zé Ruela, na Rua da Santíssima Trindade, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz, 2002.
Seus avós paternos foram Geraldo Dias da Silva e Dona Abigail Trindade da Silva. Geraldo trabalhava com caulim retirado e trazido do Chapadão da Serra de São José. Caulim é um minério composto de silicatos hidratados de alumínio, utilizado na fabricação de papel, cerâmica, tintas e outros produtos. O mineral é formado pela caulinnita, em geral de cor branca ou quase branca, devido ao baixo teor de ferro. Era um serviço pesado e levou o filho José Benedito para lhe ajudar nessa tarefa que propiciava o sustento familiar. José Benedito – acabou conhecido como Zé da Abigail. Certo tempo depois, abandonou o caulim e foi trabalhar na Oficina de Ourives do Pinduca. Lá conheceu as ferramentas, os materiais, a solda, os desenhos. Aprendeu tudo rapidamente e conseguiu tirar o pai do trabalho com o caulim da Serra de São José e o levou para a Oficina do Pinduca.
Zé da
Abigail se tornou um dos exímios artífices de Tiradentes e dominava a bigorna
como poucos. Produzia bingas, isqueiros, rosas de prata, peixes e galos
fundidos aos pares. Trabalhava para os Barbosa e em sua casa se dedicava à
ferragem. Produzia de tudo em ferro batido. Tornou-se armeiro e confeccionava
cópias primorosas de armas antigas, em todos os seus detalhes, inclusive as
coronhas em madeira.
Os
filhos cresceram nesse ambiente de muito trabalho e habilidades surpreendentes
do Zé da Abigail. Zé Ruela, o primogênito, diz que não era fácil ter um pai
assim. Ele ensinava tudo, mas apenas uma vez. Não repetia nada. Produzia as
ferramentas e tudo era artesanal. Era um homem sério, justo e honesto. Sua
palavra proferida era um documento. Trabalhava muito. Mas gostava de pescar,
caçar, consertar carros velhos. Reunia a meninada e contava casos de
assombração – era um entusiasta contador de histórias. Como todos os ourives de
Tiradentes, sempre que pôde, participou do tradicional Jubileu do Senhor Bom
Jesus, em Congonhas-MG.
O casal Zé da Abigail, Dona Rosa e filhos, mais João Passarinho. Jubileu do Senhor Bom Jesus, Congonhas-MG. Fotografia: acervo Família Silva, arquivo: Luiz Cruz.
Zé
Ruela conta sobre a avó, a Dona Abigail, tinha que acompanhá-la em todas as
celebrações religiosas. Ela mantinha a disciplina só com o olhar. Dona Abigail foi
dama do Sagrado Coração de Jesus e foi figurante do filme As Proezas de
Satanás na Vila do Leva e Traz, gravado em Tiradentes em 1967 e dirigido
por Paulo Gil Soares. Até chegar aos 18 anos, Zé Ruela esteve sob os rigores da
disciplina familiar: durante o Jubileu da Santíssima Trindade, não saia; aos
sábados, podia passear no Largo das Forras, mas às 21h tinha que estar em casa.
Casou-se
com Maria Malta em 1978. Maria passou assinar Maria da Trindade Silva. Tirou o
Malta, mas todos se referem a ela com a “Malta”. O casal tem três filhos e três
netos.
Zé
Ruela trabalhou na Oficina de Ourives São Judas Tadeu, do Geraldo Conceição, o
Mitula. Produzia as peças soldadas por uma série de mulheres que trabalhavam
com ele. As oficinas de ourives geravam muitos empregos e a cidade, naquele
período, era referenciada como a “cidade da prata”. Como ourives habilidoso,
ajustava os cilindros da oficina, consertava as moendas, apertava as arruelas.
O Tião Marrom foi quem lhe deu o apelido de Zé Ruela, quando contava com 16
anos.
Na
década de 1970, Yves Alves chegou a Tiradentes e comprou as casas do início da
Rua da Santíssima Trindade – a casa do avô Geraldo Dias da Silva, a casa do tio
Antônio e a casa do Zé da Abigail. Tudo foi colocado abaixo. Quando iniciaram
as obras da construção da casa de Yves Alves, Zé Ruela foi convidado para
produzir toda a ferragem da nova edificação, com o design do século
XVIII, dobradiças, trincos, trancas, aldravas e cravos. Depois, produziu a
ferragem para as casas de Antônio Carlos Muniz, do Padre José Nacif, do Eros
Conceição e de sua própria residência; ainda trabalhando na Oficina de Ourives
São Judas Tadeu.
Zé Ruela, Maria Malta e o filho Paulo José. Fotografia: acervo Família Silva.
Posteriormente,
Zé Ruela e Malta trabalharam para o Yves Alves. Ele acompanhou Yves Alves até o
seu falecimento. Zé teve um infarto. Fez dois cateterismos e se aposentou. Não
voltou mais para as atividades de ferreiro.
Agora só acompanha a vida familiar. Gosta de cuidar do seu jardim
suspenso. Prepara as refeições para as reuniões familiares, quando coloca em
prática outra habilidade – a de cozinheiro. Gosta de fazer churrasco,
bacalhoada, galinhada, pão de queijo. Sempre fez broa para o Yves Alves e Dona
Dalma, mas na sua casa a melhor broa de fubá com queijo é a que a Malta faz.
Ele assegura, é uma delícia e imbatível.
Zé Ruela em sua casa, Rua da Santíssima Trindade, Tiradentes. Foto: Luiz Cruz, 2018.
Plantas do jardim suspenso cultivado por Zé Ruela e Malta. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz.
A
tradição do ofício de ferreiro continua na casa do Zé Ruela. Seu filho, José
Carlos, mantém a Oficina de Ferreiro nos fundos da casa do Zé Ruela, na Rua da
Santíssima Trindade. Lá estão algumas peças que foram da oficina do avô, o Zé
da Abigail. Tudo é feito manualmente e mantendo os desenhos das peças originais
do século XVIII. E a boa ferragem mantém um dos ofícios mais tradicionais da
antiga Vila de São José, a atual Tiradentes.
Antigo fole, da oficina do Zé da Abigail. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Peças da Oficina de Ferragem do José Carlos. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Peças da Oficina de Ferragem do José Carlos. Tiradentes. Fotografias: Luiz Cruz.
João da Rosa
João
Batista da Silva nasceu em 19 de março de 1960. Tornou-se conhecido como João
da Rosa, em referência à sua mãe – Dona Rosa Lourenço da Silva. Muito cedo
descobriu suas habilidades para os trabalhos manuais. Trabalhou nas oficinas de
ourives e com o pai. Por certo tempo, foi caseiro em São Paulo. Ao retornar
para Tiradentes, trabalhou 16 anos como caseiro de Dona Vivi Nabuco, em sua
casa na Rua da Câmara. Lá manteve sua oficina e fazia as lanternas, que
aprendera com o pai.
João da Rosa em sua oficina, a produzir lanternas. Fonte: Frota, 1993.
João
da Rosa desenvolveu uma linha de lanternas e resgatou os desenhos originais.
Depois passou a fazer os lampiões para iluminação pública. Numa única
encomenda, produziu 360 lampiões para a cidade de Paraty, no estado do Rio de
Janeiro. Teve uma vida intensa.
Participou como figurante de algumas gravações realizadas na cidade e se
divertia. Contribuiu com as obras da sede do Corpo de Bombeiros Voluntários de
Tiradentes. Sempre esteve atento com as questões ambientais.
Recebeu
um desafio, higienizar e restaurar a prataria da Paróquia de Santo Antônio, de
Tiradentes. Com prudência, conseguiu executar bom trabalho.
João de Rosa e Vicente da Florinda, Jubileu da Santíssima Trindade. Fonte: Muniz, 2024.
João da Rosa, de vestido preto, figurante de uma das minisséries gravadas em Tiradentes, 1997. Fotografia: Luiz Cruz.
João da Rosa, de camisa verde, em atividade na sede do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz, 1998.
João da Rosa se casou com Maria Nazaré de Oliveira Silva. O casal teve o filho Ricardo de Oliveira Silva. João e Nazaré sempre gostaram de cuidar das plantas e a grande paixão deles foram as orquídeas. Os dois cultivavam as orquidáceas no jardim, nos troncos das árvores e construíram um orquidário. Plantas adquiridas em orquidários profissionais.
Lustre em cobre, trabalho de João da Rosa. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Lampião de parede, trabalho de João da Rosa. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
João
enfrentou as turbulências da vida, com os problemas de saúde. Teve cinco
aneurismas. Graças ao SUS, foi submetido a uma cirurgia em Juiz de Fora e
colocou uma prótese no valor de R$130.000,00. Em um dos aneurismas, sua perna
direita teve que ser amputada. Tornou-se cadeirante, mas logo de adaptou às
muletas, voltou a trabalhar e produzir as lanternas. Trabalhou muito e gostava
da sua atividade. O último aneurisma ocorreu em uma veia do coração e não
resistiu, foi a óbito. João da Rosa faleceu na Sexta-Feira da Paixão, dia 29 de
março de 2024.
De pai para filho, a tradição continua. Ricardo, seu filho único, mantém a oficina de lanternas e fornece as peças para os clientes de várias partes do Brasil. Conta que não tem sido fácil, mas gosta do ofício herdado do pai, sente-se orgulhoso em manter a tradição dos seus antepassados.
Zé da Abigail e seu pai Geraldo, avô e bisavô de Ricardo, ambos exímios artesãos. Fotografia: acervo Família Silva.
Ricardo e sua produção de lanternas e luminárias, seguindo a tradição familiar. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Ricardo e sua
produção de lanternas e luminárias, seguindo a tradição familiar. Tiradentes. Fotografia:
Luiz Cruz.
Lampião de
rua, feito por Ricardo. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
A dupla Zé e João
Os
dois irmãos formavam uma bela dupla, não de cantores sertanejos, mas sim de
exímios artesãos. Zé Ruela foi ferreiro e João da Rosa foi lanterneiro.
Habilidades oriundas dos tempos coloniais e agora mantidas por seus filhos.
Esses irmãos começaram a trabalhar ainda na infância e absorveram bem o
aprendizado. Estiveram junto em todos os momentos da vida, em especial nos
turbulentos. Um tinha orgulho da trajetória do outro e sempre foi assim.
Tiveram boas referências familiares e entre elas há que se destacar a matriarca
Dona Rosa. Uma cidadã fabulosa, cozinheira esplêndida, que também trabalhou
muito para ajudar na criação da prole. Doceira – o mais delicado doce de limão
capeta que apreciamos foi produzido por Dona Rosa. Aquela textura delicada, o
sabor refinado e o cheirinho do limão com canela.
Chico Lourenço, Dona Rosa, sentado Zé da Abigail, netos e bisneto – quatro gerações. Fotografia: acervo Família Silva.
Dona Rosa, mãe dos artesãos Zé e João. Fotografia: acervo da Família Silva.
João e Zé irmãos sempre juntos e em todos os momentos. Fotografia: acervo Família Silva.
A
história dos irmãos artesãos Zé e João enrique a vida cultural de Tiradentes.
Eles, com os seus ofícios, conseguiram manter e transmitir saberes herdados do
período colonial. Isso enriquece nosso Patrimônio Imaterial e nosso Patrimônio
Humano. Os tiradentinos com seus fazeres e suas habilidades tradicionais
contribuem para que nossa amada cidade continue em destaque no cenário cultural
brasileiro.
Luiz Cruz
Nasceu e vive em Tiradentes. É
professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela
EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG.
Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela
UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou
artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.
Referências:
CRUZ, Luiz Antonio da. Recortes de
Memórias. Tiradentes: IHGT, 2014.
CRUZ, Luiz Antonio da. A arte da
ferragem. Disponível em: https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2024/09/a-arte-da-ferragem.html. Visitado em: 26 de agosto de 2026.
FROTA, Lélia Coelho. Tiradentes:
Retrato de uma cidade. Rio de Janeiro: Campos Gerais, Fundação Rodrigo
Mello Franco de Andrade, 1993.
MUNIZ, Vicente Pedro. Reminiscências.
Tiradentes: Entre & Vista, 2024.
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