quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

Zé Ruela e João da Rosa

Os ofícios tradicionais em Tiradentes

 

José Francisco da Silva nasceu em 27 de agosto de 1955. Sempre viveu na casa número 90, da Rua da Santíssima Trindade. Seus pais eram José Benedito da Silva e a mãe Dona Rosa Lourenço da Silva. O casal teve sete filhos e José – que foi alcunhado de Zé Ruela é o primogênito. Desde muito cedo Zé teve que trabalhar e estudou apenas o primário, teve como professoras as donas Alice Lima Barbosa, Vitória Gomes, Maria Gomes e Leonor Gomes.

 

Zé Ruela, na Rua da Santíssima Trindade, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz, 2002. 

 

Seus avós paternos foram Geraldo Dias da Silva e Dona Abigail Trindade da Silva. Geraldo trabalhava com caulim retirado e trazido do Chapadão da Serra de São José. Caulim é um minério composto de silicatos hidratados de alumínio, utilizado na fabricação de papel, cerâmica, tintas e outros produtos. O mineral é formado pela caulinnita, em geral de cor branca ou quase branca, devido ao baixo teor de ferro. Era um serviço pesado e levou o filho José Benedito para lhe ajudar nessa tarefa que propiciava o sustento familiar. José Benedito – acabou conhecido como Zé da Abigail. Certo tempo depois, abandonou o caulim e foi trabalhar na Oficina de Ourives do Pinduca. Lá conheceu as ferramentas, os materiais, a solda, os desenhos. Aprendeu tudo rapidamente e conseguiu tirar o pai do trabalho com o caulim da Serra de São José e o levou para a Oficina do Pinduca.

Zé da Abigail se tornou um dos exímios artífices de Tiradentes e dominava a bigorna como poucos. Produzia bingas, isqueiros, rosas de prata, peixes e galos fundidos aos pares. Trabalhava para os Barbosa e em sua casa se dedicava à ferragem. Produzia de tudo em ferro batido. Tornou-se armeiro e confeccionava cópias primorosas de armas antigas, em todos os seus detalhes, inclusive as coronhas em madeira.

Os filhos cresceram nesse ambiente de muito trabalho e habilidades surpreendentes do Zé da Abigail. Zé Ruela, o primogênito, diz que não era fácil ter um pai assim. Ele ensinava tudo, mas apenas uma vez. Não repetia nada. Produzia as ferramentas e tudo era artesanal. Era um homem sério, justo e honesto. Sua palavra proferida era um documento. Trabalhava muito. Mas gostava de pescar, caçar, consertar carros velhos. Reunia a meninada e contava casos de assombração – era um entusiasta contador de histórias. Como todos os ourives de Tiradentes, sempre que pôde, participou do tradicional Jubileu do Senhor Bom Jesus, em Congonhas-MG.

 

O casal Zé da Abigail, Dona Rosa e filhos, mais João Passarinho. Jubileu do Senhor Bom Jesus, Congonhas-MG. Fotografia: acervo Família Silva, arquivo: Luiz Cruz.

 

Zé Ruela conta sobre a avó, a Dona Abigail, tinha que acompanhá-la em todas as celebrações religiosas. Ela mantinha a disciplina só com o olhar. Dona Abigail foi dama do Sagrado Coração de Jesus e foi figurante do filme As Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz, gravado em Tiradentes em 1967 e dirigido por Paulo Gil Soares. Até chegar aos 18 anos, Zé Ruela esteve sob os rigores da disciplina familiar: durante o Jubileu da Santíssima Trindade, não saia; aos sábados, podia passear no Largo das Forras, mas às 21h tinha que estar em casa.

Casou-se com Maria Malta em 1978. Maria passou assinar Maria da Trindade Silva. Tirou o Malta, mas todos se referem a ela com a “Malta”. O casal tem três filhos e três netos.

Zé Ruela trabalhou na Oficina de Ourives São Judas Tadeu, do Geraldo Conceição, o Mitula. Produzia as peças soldadas por uma série de mulheres que trabalhavam com ele. As oficinas de ourives geravam muitos empregos e a cidade, naquele período, era referenciada como a “cidade da prata”. Como ourives habilidoso, ajustava os cilindros da oficina, consertava as moendas, apertava as arruelas. O Tião Marrom foi quem lhe deu o apelido de Zé Ruela, quando contava com 16 anos.

Na década de 1970, Yves Alves chegou a Tiradentes e comprou as casas do início da Rua da Santíssima Trindade – a casa do avô Geraldo Dias da Silva, a casa do tio Antônio e a casa do Zé da Abigail. Tudo foi colocado abaixo. Quando iniciaram as obras da construção da casa de Yves Alves, Zé Ruela foi convidado para produzir toda a ferragem da nova edificação, com o design do século XVIII, dobradiças, trincos, trancas, aldravas e cravos. Depois, produziu a ferragem para as casas de Antônio Carlos Muniz, do Padre José Nacif, do Eros Conceição e de sua própria residência; ainda trabalhando na Oficina de Ourives São Judas Tadeu.

 

Zé Ruela, Maria Malta e o filho Paulo José. Fotografia: acervo Família Silva. 

  

      



Ferragem feita por Zé Ruela para a sua casa. Fotografias: Luiz Cruz. 

 

Posteriormente, Zé Ruela e Malta trabalharam para o Yves Alves. Ele acompanhou Yves Alves até o seu falecimento. Zé teve um infarto. Fez dois cateterismos e se aposentou. Não voltou mais para as atividades de ferreiro.  Agora só acompanha a vida familiar. Gosta de cuidar do seu jardim suspenso. Prepara as refeições para as reuniões familiares, quando coloca em prática outra habilidade – a de cozinheiro. Gosta de fazer churrasco, bacalhoada, galinhada, pão de queijo. Sempre fez broa para o Yves Alves e Dona Dalma, mas na sua casa a melhor broa de fubá com queijo é a que a Malta faz. Ele assegura, é uma delícia e imbatível.

 

Zé Ruela em sua casa, Rua da Santíssima Trindade, Tiradentes. Foto: Luiz Cruz, 2018.

 

 
 

Plantas do jardim suspenso cultivado por Zé Ruela e Malta. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz.

  

A tradição do ofício de ferreiro continua na casa do Zé Ruela. Seu filho, José Carlos, mantém a Oficina de Ferreiro nos fundos da casa do Zé Ruela, na Rua da Santíssima Trindade. Lá estão algumas peças que foram da oficina do avô, o Zé da Abigail. Tudo é feito manualmente e mantendo os desenhos das peças originais do século XVIII. E a boa ferragem mantém um dos ofícios mais tradicionais da antiga Vila de São José, a atual Tiradentes.

 

Antigo fole, da oficina do Zé da Abigail. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Peças da Oficina de Ferragem do José Carlos. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

    


Peças da Oficina de Ferragem do José Carlos. Tiradentes. Fotografias: Luiz Cruz.

  

João da Rosa

João Batista da Silva nasceu em 19 de março de 1960. Tornou-se conhecido como João da Rosa, em referência à sua mãe – Dona Rosa Lourenço da Silva. Muito cedo descobriu suas habilidades para os trabalhos manuais. Trabalhou nas oficinas de ourives e com o pai. Por certo tempo, foi caseiro em São Paulo. Ao retornar para Tiradentes, trabalhou 16 anos como caseiro de Dona Vivi Nabuco, em sua casa na Rua da Câmara. Lá manteve sua oficina e fazia as lanternas, que aprendera com o pai.

 

João da Rosa em sua oficina, a produzir lanternas. Fonte: Frota, 1993.

 

João da Rosa desenvolveu uma linha de lanternas e resgatou os desenhos originais. Depois passou a fazer os lampiões para iluminação pública. Numa única encomenda, produziu 360 lampiões para a cidade de Paraty, no estado do Rio de Janeiro.  Teve uma vida intensa. Participou como figurante de algumas gravações realizadas na cidade e se divertia. Contribuiu com as obras da sede do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes. Sempre esteve atento com as questões ambientais.

Recebeu um desafio, higienizar e restaurar a prataria da Paróquia de Santo Antônio, de Tiradentes. Com prudência, conseguiu executar bom trabalho.

 

João de Rosa e Vicente da Florinda, Jubileu da Santíssima Trindade. Fonte: Muniz, 2024.

 

João da Rosa, de vestido preto, figurante de uma das minisséries gravadas em Tiradentes, 1997. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

João da Rosa, de camisa verde, em atividade na sede do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz, 1998. 

 

João da Rosa se casou com Maria Nazaré de Oliveira Silva. O casal teve o filho Ricardo de Oliveira Silva. João e Nazaré sempre gostaram de cuidar das plantas e a grande paixão deles foram as orquídeas. Os dois cultivavam as orquidáceas no jardim, nos troncos das árvores e construíram um orquidário. Plantas adquiridas em orquidários profissionais. 

 

Lustre em cobre, trabalho de João da Rosa. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

  

Lampião de parede, trabalho de João da Rosa. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

João enfrentou as turbulências da vida, com os problemas de saúde. Teve cinco aneurismas. Graças ao SUS, foi submetido a uma cirurgia em Juiz de Fora e colocou uma prótese no valor de R$130.000,00. Em um dos aneurismas, sua perna direita teve que ser amputada. Tornou-se cadeirante, mas logo de adaptou às muletas, voltou a trabalhar e produzir as lanternas. Trabalhou muito e gostava da sua atividade. O último aneurisma ocorreu em uma veia do coração e não resistiu, foi a óbito. João da Rosa faleceu na Sexta-Feira da Paixão, dia 29 de março de 2024.

De pai para filho, a tradição continua. Ricardo, seu filho único, mantém a oficina de lanternas e fornece as peças para os clientes de várias partes do Brasil. Conta que não tem sido fácil, mas gosta do ofício herdado do pai, sente-se orgulhoso em manter a tradição dos seus antepassados. 

 

Zé da Abigail e seu pai Geraldo, avô e bisavô de Ricardo, ambos exímios artesãos. Fotografia: acervo Família Silva. 

 

Ricardo e sua produção de lanternas e luminárias, seguindo a tradição familiar. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Ricardo e sua produção de lanternas e luminárias, seguindo a tradição familiar. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

  

Lampião de rua, feito por Ricardo. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

  

A dupla Zé e João

 

Os dois irmãos formavam uma bela dupla, não de cantores sertanejos, mas sim de exímios artesãos. Zé Ruela foi ferreiro e João da Rosa foi lanterneiro. Habilidades oriundas dos tempos coloniais e agora mantidas por seus filhos. Esses irmãos começaram a trabalhar ainda na infância e absorveram bem o aprendizado. Estiveram junto em todos os momentos da vida, em especial nos turbulentos. Um tinha orgulho da trajetória do outro e sempre foi assim. Tiveram boas referências familiares e entre elas há que se destacar a matriarca Dona Rosa. Uma cidadã fabulosa, cozinheira esplêndida, que também trabalhou muito para ajudar na criação da prole. Doceira – o mais delicado doce de limão capeta que apreciamos foi produzido por Dona Rosa. Aquela textura delicada, o sabor refinado e o cheirinho do limão com canela.

  

Chico Lourenço, Dona Rosa, sentado Zé da Abigail, netos e bisneto – quatro gerações. Fotografia: acervo Família Silva.

  

Dona Rosa, mãe dos artesãos Zé e João. Fotografia: acervo da Família Silva.

 

 

João e Zé irmãos sempre juntos e em todos os momentos. Fotografia: acervo Família Silva. 

 

A história dos irmãos artesãos Zé e João enrique a vida cultural de Tiradentes. Eles, com os seus ofícios, conseguiram manter e transmitir saberes herdados do período colonial. Isso enriquece nosso Patrimônio Imaterial e nosso Patrimônio Humano. Os tiradentinos com seus fazeres e suas habilidades tradicionais contribuem para que nossa amada cidade continue em destaque no cenário cultural brasileiro.

  

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

  

Referências:

CRUZ, Luiz Antonio da. Recortes de Memórias. Tiradentes: IHGT, 2014.

CRUZ, Luiz Antonio da. A arte da ferragem. Disponível em: https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2024/09/a-arte-da-ferragem.html. Visitado em: 26 de agosto de 2026.

FROTA, Lélia Coelho. Tiradentes: Retrato de uma cidade. Rio de Janeiro: Campos Gerais, Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, 1993.

MUNIZ, Vicente Pedro. Reminiscências. Tiradentes: Entre & Vista, 2024.

 

Apoio institucional:


 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

 

 

 Museu do Tiradentino

 Virtual

 

 

 

Ana Cláudia

A Princesinha de São Benedito

 

 

Ana Cláudia, Princesa do Congado de São Benedito, Biblioteca do Ó, 2009. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Ana Cláudia Silva de Paiva é a princesa da Guarda de Congado de São Benedito, que foi organizado através de projeto proposto pelo ICBO-Instituto Cultural Biblioteca do Ó, por ocasião da celebração dos 300 anos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos – ou seja, os pretos nascidos em solo africano.

Para a organização desse Congado, o ICBO contou com o apoio financeiro da Fundação Palmares e ocorreu ampla pesquisa para a sua formação, o resgate histórico, a construção das indumentárias, adereços, cânticos, ritmos e instrumentos.

As rainhas dessa guarda foram coroadas em celebração ocorrida na Igreja de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos – os afros descendentes já nascidos em solo brasileiro. A cerimônia foi coordenada pelo Padre José Nacif Nicolau, contou com a participação de outras guardas congadeiras da região e de componentes do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes, a instituição que promoveu o resgate da Festa de Nossa Senhora do Rosário.

Há longas décadas não se realizava uma celebração de origem afro na Igreja de Nossa Senhora das Mercês, mesmo sendo dos “Pretos Crioulos”. As festividades afrobrasileiras sempre ocorreram nessa edificação e com certa pompa. Encontramos um documento referente ao pagamento ao artífice Manoel Victor de Jesus (1760-1828) por ter pintado a bandeira do mastro. Hastear e arriar a bandeira do santo devocional nas celebrações de origem afro é um costume antigo, de expressiva beleza e muito comovente.

 

 

Recibo referente ao pagamento da pintura da Bandeira para as festividades da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, 1817. Arquivo da Paróquia de Santo Antônio, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

  

                                    Recebi do tesoureiro da Irmandade de Nossa das

                                    Mercês Ignácio Pereira Rangel duas oitavas e meia

da pintura da Bandeira para o mastro das festividades;

e por verdade passo o presente de minha letra e sinal.

Villa de S. José 11 Fevereiro de 1817

 

                       Manoel Victor de Jesus

 

(transcrição e adaptação nossa)

 

 

A “Bandeira de Mastro” das festividades pintada por Manoel Victor de Jesus desapareceu e desde o século XIX, na antiga Vila de São José, a atual Tiradentes, ocorre apagamento da memória da cultura afrobrasileira. Mesmo que os africanos e seus descendentes tenham nos legado vasto patrimônio cultural e arquitetônico – como as importantes edificações: Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Igreja de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos e Igreja de São João Evangelista dos Homens Pardos. 

                                                          

    
Cerimônia de Coroação das rainhas da Guarda de Congado de São Benedito, coordenada pelo Padre José Nacif Nicolau, 2009. Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Tiradentes. Fotografias: acervo ICBO.

 

Cerimônia de Coroação das rainhas da Guarda de Congado de São Benedito, coordenada pelo Padre José Nacif Nicolau, 2009. Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Tiradentes. Fotografias: acervo ICBO.

 

 

Saída do cortejo da Guarda de Congado de São Benedito, do ICBO,Largo do Ó Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Cortejo da Guarda de Congado de São Benedito, organizado pelo ICBO. A princesa Ana Cláudia. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

A princesa Ana Cláudia, Guarda de Congado de São Benedito, organizada pelo ICBO. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Ana Cláudia Silva de Paiva nasceu em 13 de junho de 1992. Seus pais são Cláudio Antônio de Paiva e Erci Silva Paiva. A família vive na Rua Padroeiro Santo Antônio, no Bairro Cascalho, em Tiradentes. Desde cedo Ana Cláudia frequentou as instalações do Instituto Cultural Biblioteca do Ó e participou das suas atividades culturais. Uma delas foi o Curso de Alfabetização de Adultos, com a Professora Celma, ela atuou como auxiliar de alfabetização e uma das alunas foi sua própria mãe, a benzedeira Dona Erci Paiva. Nessa ocasião a turma era boa, com a participação do Valdeci, Shirlei, Vicentina, João do Zé Cabrito, Vandinha, Ondina, Ica e tantos outros que tiveram oportunidade de conhecer as letras, os números e foram alfabetizados. A Professora Celma além de alfabetizar, dava reforço escolar e Ana Cláudia aproveitou essa oportunidade para estudar. Ela foi aluna da Escola Estadual Basílio da Gama.

Desde muito pequena, Ana Cláudia é devota de São Cosme e Damião e anualmente ajuda a família a preparar a festa da dupla de santos, quando recebem centenas de crianças na casa para a distribuição de bolo, sacolinha de guloseimas e refrigerante. 

 

Ana Cláudia e seus pais – Cláudio e Erci, na gravação de “Hilda Furacão”.Rua da Câmara, Tiradentes. Fotografia: acervo Família Paiva. Ana Cláudia e os santos de sua devoção: Cosme e Damião. Fotografia: Luiz Cruz, 2002.

 

Para ajudar na manutenção da casa, desde muito cedo Ana Cláudia teve que trabalhar, atuou como cuidadora de crianças e se recorda de muitos meninos e meninas que ajudou a criar. Sempre participou das atividades culturais da cidade, inclusive foi figurante de filmes, documentários e minisséries gravados em Tiradentes.

 

Ana Cláudia e seus pais – Cláudio e Erci, em jantar beneficente. . Fotografia: acervo APAE de Tiradentes.

 


Ana Cláudia - A Princesa da Inclusão Social

 

Aos 26 anos de idade, Ana Cláudia se tornou mãe de Enzo Matheus Paiva Silva, que nasceu no dia 13 de novembro de 2017, antecipadamente do tempo previsto. Não teve planejamento para essa gestação, mas afirma que ser mãe foi muito bom e promoveu uma grande transformação em sua vida.

Como foi cuidadora de crianças por muitos anos, logo observou o comportamento de seu filho, que por dois anos fez acompanhamento na APAE de São João del-Rei, por ter nascido prematuramente. Foi um desafio e tanto, enfrentar o transporte de ônibus diariamente para o tratamento. Ele não gostava de colo. Não olhava para a mãe durante a amamentação. No dia 3 de dezembro de 2018, Enzo foi diagnosticado pelo seu desenvolvimento neuropsicomotor. Demorou para andar e aos dois anos perdeu a oralidade. Deixou de interagir com outras crianças. Quando brincava, colocava os brinquedos alinhados. Com os carrinhos, só usava as rodas. Andava usando somente as pontas dos pés.


                        

Ana Cláudia com a blusa da Inclusão: Accept. Understand. Love, os  inúmeros diagnósticos e o Cordão Inclusivo – Tea/Autismo. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Tudo mudou em sua vida, Ana Cláudia conta com o apoio de Dona Erci, das irmãs Fatinha e Vaninha, dos irmãos, dos sobrinhos e do pai.

A agenda para o tratamento do Enzo é pesada, ele faz fono em São João del-Rei, na APAE, com a Paula e na APAE de Tiradentes com a Juliana; faz terapia ocupacional na segunda-feira com a Franny e na quarta com Paula. Faz hidroterapia na Climagem, em São João del-Rei e Equoterapia, em Santa Cruz de Minas. Aos sábados vai ao Catecismo. Frequenta regularmente a APAE de Tiradentes e a Escola Municipal Marília de Dirceu.

Ana Cláudia é grata a todos que se dedicam aos cuidados de Enzo, que aos poucos vai se interagindo e desenvolvendo; na Festa Junina da APAE de Tiradentes, ele revelou um avanço, fez uma apresentação solo de acordeom. Foi um sucesso e uma grande alegria.

Sempre que pode, ela passeia com o filho. Não deve repetir o trajeto e quando ele vê o ônibus acha que já vai embarcar e ter atividade na APAE de São João del-Rei.

A rotina é pesada e onerosa. Enzo toma vários medicamentos e ainda usa fralda descartável. Mãe e filho, os dois, cumprem juntos todas as atividades, mesmo sem a oralidade, ele acompanha tudo, reconhece visualmente os trajetos, os lugares, as pessoas.

Ainda vai ao seu médico em Juiz de Fora, onde Enzo foi diagnosticado com “autismo” e mantém o tratamento com o Dr. Natanael Lourenço Mota, de Lavras. Sempre está viajando para o tratamento dele.

Tudo é muito pesado, mas ela ainda consegue tempo para se cuidar e faz acompanhamento psicológico, para romper bem cada etapa do seu cotidiano.

Para o tratamento do Enzo, o médico prescreveu o “canabidiol 20mg/ml”, mas “Infelizmente o medicamento não faz parte da relação de Medicamentos Essenciais do Município de Tiradentes”, conforme parecer expedido em 14 de abril de 2026. Para ter acesso à essa medicação, Ana Cláudia terá que recorrer à “justiça”.

Ela cuida detidamente da disciplina do filho, que aprecia muito “pão de queijo com guaraná”. Trabalha como diarista e ainda ajuda o pai, o Cláudio, que se dedica a recolher produtos recicláveis. A rotina é muito estressante e sem apoio oficial, mas agradece pelos trabalhos desenvolvidos pela APAE de Tiradentes, que oferece gratuitamente os atendimentos, com profissionais competentes, dedicados e amorosos.

Ana Cláudia sonha em poder voltar a estudar e obter uma profissão para melhorar as condições de sua vida e propiciar futuro melhor para seu filho.

Para encerrar, perguntamos o que mais gostaria de nos contar. Ela parou, as lágrimas desceram por seu rosto, a contrastar com aquela tez linda. – Gostaria que os autistas tivessem mais inclusão..., a última festa de aniversário do meu filho não compareceu nenhuma criança. Ele sentiu a falta dos coleguinhas e ficou triste.

 

Cordão e Crachá de Enzo para identificação de TEA-Transtorno do Espectro Autista ou outras deficiências ocultas. Fotografia: Luiz Cruz

 

Infelizmente, boa parte dos autistas não são convidados para as festinhas de aniversário. A exclusão social é uma realidade impactante que gera dor e sofrimento.

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

  

Referência:

CRUZ, Luiz Antonio da. Recortes de Memórias. Tiradentes: IHGT, 2016.

Apoio institucional:




 

 

    

  Zé Ruela e João da Rosa Os ofícios tradicionais em Tiradentes   José Francisco da Silva nasceu em 27 de agosto de 1955. Sempre viveu...