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Museu do Tiradentino Virtual |
Lúcia
Gomes e as memórias
do
Largo das Mercês
Dona Lúcia Gomes, em 2002, Tiradentes.
Fotografia: Luiz Cruz.
Maria
Lúcia Gomes Paolucci é antiga moradora do Largo das Mercês, nascida em 18 de
agosto de 1939; filha de João Andrade Gomes – Sô Nhonhô Gomes e Maria da Glória
Rocha Gomes – a Dona Zizi. O casal teve prole numerosa, foram quinze filhos.
A
família Gomes sempre viveu no Largo das Mercês, mas por certo período, a casa
recebeu obra e teve que se mudar. Os Gomes moraram no Largo das Forras, em
imóvel que pertencia a Nelson Paolucci, posteriormente propriedade do casal
Francisco Barbosa Junior e Diva Fonseca Barbosa. Foi nessa casa que nasceu
Maria Lúcia Gomes.
Os
filhos iniciavam no trabalho cedo e quando os mais velhos iam estudar ou casar,
os mais novos sucediam nas atividades cotidianas. Desde a infância Lúcia Gomes
trabalhou muito. Pastoreava os carneiros, buscava água potável no Poço da Sá
Ritinha e para o uso doméstico. Nesse poço, ajudava na lavagem das roupas. Dona
Zizi fazia os seus deliciosos doces nos grandes tachos de cobre, em especial os
das frutas sazonais. Lúcia Gomes vendia leite e doces para a mãe.
Dona
Zizi foi doceira afamada na cidade, fazia muitos doces e os organizava em
balaios. Lúcia saia para vendê-los. Quando chegava o Jubileu da Santíssima Trindade,
a produção de doces era destinada ao Sr. Teixeira, que vendia na festa – ele
tinha o mote: – Olha o doce, passa fome quem quer.
Dona Zizi e Sô Nhonhô Gomes. Fotografia: Acervo Família Gomes.
A
família numerosa contava ainda com os agregados, os homens que trabalhavam nas
plantações – milho, arroz, feijão, mandioca, nos “Gomes” e no Cacheu. Tinha os
que cuidavam dos animais, Sô Nhonhô foi um importante criador de muares e
recebeu prêmios nacionais; ainda tinha as tropas e os carros de boi.
Tudo
era exagerado, muita roupa para lavar e cuidar, muita comida para preparar e
servir, fazer as merendas para o café.
Primeiro Prêmio conferido ao Sô Nhonhô Gomes, pela participação do “muar denominado Brasileiro”, V Exposição Nacional de Animais e Produtos Derivados,Rio de Janeiro, 1936. Acervo Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.
O trombone do Sô Nhonhô Gomes. Acervo: Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.
Sô
Nhonhô Gomes tocava trombone e integrou a Banda Ramalho. Apreciava o violão.
Foi caçador tradicional e teve muitos cachorros de caça. Participava de grandes
caçadas no Pantanal, a demandar tempo e organização para transcorrer bem. Tudo
era montado no Largo das Mercês. Como a matilha era numerosa, nessa ocasião a
cidade toda ouvia a algazarra dos animais. Quando era possível, as caças eram
soltas nas matas da Serra de São José para reproduzir. Manter os cães dava
trabalho, Lúcia Gomes ajudava a preparar a comida deles, angu com aparas de
carne.
Sô Nhonhô Gomes nos preparativos para a caça, Largo das Forras, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.
Lúcia
Gomes estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama, depois ingressou no internato
do Colégio Imaculada Conceição, em Barbacena. Conta que lá vivenciou boas
experiências, tinha as salas para as atividades manuais que gostava. Foi do
Coral Canto Orfeônico e apresentava na Rádio de Barbacena e até no Rio de
Janeiro. Sempre gostou muito de música, fazia a 2ª e a 3ª voz.
Na infância, participou das Pastorinhas preparadas pela cantora lírica Dona Olinda Rocha. Com as Pastorinhas saia visitando os presépios no final do ano.
Trabalhou sempre, mas teve uma infância feliz.
Em 1959, formou-se e em 1960 começou a trabalhar como professora. Adorava lecionar.
Casou-se em 1963, na Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, com Humberto de Oliveira Paolucci e passou a assinar Maria Lúcia Gomes Paolucci. Foram morar no Sobrado dos Quatro Cantos, depois viveram por certo tempo na Casa da Cerâmica. O casal tem dois filhos: Solange e Humberto e cinco netos.
Humberto e Lúcia, cortando o bolo de casamento. Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.
Humberto e Lúcia, Largo das Mercês. Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.
Dona
Lúcia Gomes fez um curso para ser “Supervisora de Merenda no Município”.
Trabalhou no Departamento Municipal de Educação e Saúde e dava assistência
pedagógica nas escolas municipais de Tiradentes, na administração dos
prefeitos: Josafá Pereira Filho, Nilzio Barbosa e Mauro Barbosa. Após se
aposentar, trabalhou por certo período no Cartório de Registro Civil e Notas de
Tiradentes.
Dona Lúcia Gomes em sua casa no Largo
das Mercês. Fotografia: Luiz Cruz.
O marido Humberto Paolucci
A
família Paolucci tem origem italiana, com forte presença na Toscana. No século
XIX, com a imigração, os Paolucci acabaram bastante populares. A base dos
pioneiros no Campo das Vertentes foi em Barbacena. Desde os primeiros anos do
século XX, Martins Paolucci e Alberto Paolucci tornaram-se importantes
referências em Tiradentes.
Humberto
trabalhou na Cerâmica Progresso e no Cartório de Registro Civil e Notas de
Tiradentes. Gostava de pintura e de fotografia. Na Várzea do Cacheu, onde Sô
Nhonhô Gomes plantava, recolheu um conjunto de artefatos dos povos originários,
atualmente no acervo do Museu Casa Padre Toledo.
Humberto Paolucci próximo ao Ribeiro Santo Antônio e a antiga ponte ao fundo, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.
Humberto Paolucci e João Lopes – que foi Juiz de Paz, no Cartório, Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.
A
rede familiar
Até
construir a casa da família, no Largo das Mercês, Humberto e Dona Lúcia viveram
certo tempo na Casa da Cerâmica – na Cerâmica Progresso e no Sobrado dos Quatro
Cantos, na atual Rua Direita, outrora Rua 15 de Novembro. Essa edificação
pertenceu ao avô dela, Galdino Rocha, que lá montou o Hotel São José. A avó era
Josefina Ramalho, irmã do velho maestro Joaquim Ramalho.
Muitos hóspedes do Hotel São José vinham fazer estação de águas, no Balneário das Águas Santas e para tal, utilizavam o trem da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas. Faziam baldeação, com a parada na Estação Chagas Dória, com a ramificação até o Balneário. Infelizmente esse trecho da linha férrea foi desativado e a Estação das Águas Santas demolida.
A Família Gomes guarda até o presente, parte da louça inglesa, dos serviços do Hotel São José, que funcionou no Sobrado dos Quatro Cantos.
Louça inglesa do serviço do Hotel São José, que funcionou no Sobrado dos Quatro Cantos. Acervo: Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.
Nota do Hotel São José, propriedade de
Galdino Rocha, avô de Dona Lúcia Gomes. Arquivo: Luiz Cruz.
As Gomes se dedicaram à Educação. Dona Leonor e Dona Vitória foram professoras e supervisoras pedagógicas, trabalharam em Tiradentes e em São João del-Rei.
Dona Lúcia em sua casa, Largo das
Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
As três irmãs
Do
grande núcleo familiar Gomes, três estiveram muito unidas: Dona Leonor, Dona
Vitória e Dona Lúcia. Cada uma com sua personalidade e afinidades, e em comum o
gosto pela vida e a participação do cotidiano de Tiradentes. Dona Leonor foi
uma das mais animadas carnavalescas da história da cidade, a única que tinha
energia para sair em todos os blocos. Desfilava, ia para casa trocava de
fantasia e lá estava ela novamente. Criou o Bloco Palhaçada, que
atualmente arrasta milhares de foliões pelas ruas do centro antigo. Escreveu e
publicou o seu livro de memórias. O lançamento da sua obra ocorreu no jardim do
Centro Cultural Yves Alves, a propiciar um agradável encontro de muitos
familiares, amigos e admiradores dessa animadíssima tiradentina.
Dona Leonor no dia do lançamento do seu livro: História, Lembranças, Memórias. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Dona Lúcia, Dona Leonor e o prefeito Nilzio Barbosa no dia do lançamento do livro. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
As
Gomes sempre prestigiaram os eventos culturais da cidade. Apoiaram os projetos
sociais, em especial a APAE de Tiradentes, que realiza trabalho de inclusão,
educação e assistência especializada da maior relevância para a comunidade. Mas
em todas as oportunidades, realizaram viagens pelo Brasil e exterior. Dona
Lúcia aproveitou e enfatiza que dos países que mais apreciou foram Portugal e Itália.
Dona Vitória, Dona Lúcia e a filha Solange, Dona Nilber Barbosa e Dona Vanda. Exposição de trabalhos dos assistidos da APAE de Tiradentes. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Dona Vitória, Dona Lúcia e Dona Cenira e sua filha Mariana. Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Dona Vitória
acompanhando obra de canalização de água pluvial.Rua Alberto
Paolucci, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Muito religiosa, após se aposentar, Dona Vitória foi Ministra da Eucaristia. Prestou relevante trabalho voluntário junto à Paróquia de Santa Antônio.
A Ministra da Eucaristia Dona Vitória, na Procissão de Ramos. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz.
As três irmãs, com quem tivemos o privilégio de conviver, sempre alegraram o Largo das Forras, cada uma à sua maneira. A casa grande, implantada em amplo terreno, tem diversos cômodos e guarda histórias e infinitas memórias. O mobiliário, as fotografias, as louças, as imagens devocionais, os utensílios de cozinha – inclusive os tachos de cobre usados por Dona Zizi para fazer os doces. Os objetos do tropeirismo, das tropas do Sô Nhonhô Gomes. Tantas janelas, tantas portas. Tudo está ali bem cuidado e pronto para nos revelar casos e mais casos, basta parar e indagar cada elemento.
Casa da Família Gomes. Largo das Forras, Tiradentes.Fotografia: Luiz Cruz.
Aspecto da cozinha da casa da Família Gomes. Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Com o passar do tempo, assistiram as transformações urbanísticas e arquitetônicas do Largo das Mercês, por onde passam as tradicionais procissões da Festa de Passos e de Nossa Senhora das Mercês. No largo, eram montadas as tendas dos circos. Foi agenciado na década de 1980, através de projeto de autoria do mais importante paisagista brasileiro, Roberto Burle Marx. Por lá passam as guardas de congado para reverenciar uma das mais arraigadas devoções do povo de origem afro-brasileira – Nossa Senhora das Mercês. Abrigou as “Chácaras e Queima do Judas”, encerrando as festividades da Semana Santa e com participação do povo. No largo passa ainda o Cortejo de Carros de Boi, organizado pelas famílias Costa e Zerlotini. Lá ocorreu a 1ª Mostra de Cinema de Tiradentes – em uma tenda circense e com expressiva participação da comunidade. O largo abrigou exposições de esculturas dos eventos culturais de Tiradentes e nos finais de ano, recebe o Presépio.
Infelizmente, o Largo das Mercês já foi utilizado de maneira inadequada, especialmente como estacionamento nos períodos de maior fluxo de visitantes. Quando ocorre os temporais, o Largo das Mercê fica alagado e as águas pluviais invadem as casas, porque na parte alta do Parque das Abelhas existia uma represa de coleta dessas águas e foi soterrada, como como o córrego que lá existia. Essa área do Parque das Abelhas foi loteada e o prejuízo ficou para os moradores da parte mais baixa da cidade, especialmente os do Largo das Mercês.
Largo das Mercês, Tiradentes, década de 1980. Foto: Eros Conceição, arquivo Luiz Cruz.
Projeto de Roberto Burle Marx para o Largo das Mercês, Tiradentes,1980. Acervo IHGT.
Uso inadequado do Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografias: Luiz Cruz.
Amanhecer no
Largo das Mercês. Fotografia: Luiz Cruz.
O
sobrinho das Gomes, o engenheiro agrônomo e pesquisador Arthur Moraes Gomes,
realizou profunda pesquisa sobre o Largo das Mercês, tema da sua dissertação de
mestrado, sob o título: Levantamento histórico, sociocultural e paisagístico
do Largo das Mercês em Tiradentes, Minas Gerais, defendida em 2021, na
UFLA-Universidade Federal de Lavras. Essa, tornou-se a principal referência
bibliográfica sobre esse importante logradouro.
Dona Zizi. Fotografia: Acervo Família Gomes.
O numeroso núcleo familiar Gomes teve uma matriarca muito admirada. A cada visita que fizemos às três irmãs, ouvíamos relatos inflamados e repletos de carinho por Dona Zizi.
Luiz
Cruz
Nasceu e vive em Tiradentes. É
professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela
EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG.
Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela
UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou
artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.
Referências:
CRUZ,
Luiz Antonio da. BOAVENTURA, Maria José. (Org.). Memória Tropeira.
Tiradentes: IHGT, 2014.
CRUZ,
Luiz Antonio da. BOAVENTURA, Maria José. (Org.). Memórias e tradições
Populars. Tiradentes: IHGT, 2016.
CRUZ, Luiz Antonio da. Tiradentes, a
cidade enlutada. Disponível em:
https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2022/08/cidade-enlutada-dona-leonor-no-dia-do.html
CRUZ, Luiz Antonio da. Palhaçada em Tiradentes. Disponível em:
https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2020/02/palhacadaem-tiradentes-luizcruz-hoje.html
GOMES, Arthur Moraes. Levantamento histórico, sociocultural e paisagístico do Largo das Mercês em Tiradentes, Minas Gerais. Dissertação (mestrado acadêmico) - Universidade Federal de Lavras, 2021.




Esse seu projeto Luiz é excelente...
ResponderExcluirDona Lúcia é uma pessoa especial
História linda da família Gomes. Parabéns ao Museu Tiradentino.
ResponderExcluirOs textos do Luiz Cruz são sempre agradáveis, de uma leitura gostosa e vibrante, recheada de detalhes interessantes e benfazejos. A história da família Gomes é atraente e mostra toda a importância que essa família tem para a cidade de Tiradentes. Parabéns, amigo, por nos proporcionar momentos preciosos e enriquecedores.
ResponderExcluirParabéns Luiz! Você é fantástico. Viajei no tempo. Que história linda! Tive o prazer de trabalhar com elas.
ResponderExcluirAna Cirilo
ResponderExcluirTenho boas lembranças . A família muito amada e cidade querida
ResponderExcluirParabéns, Luiz! Excelente iniciativa!
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