sexta-feira, 24 de julho de 2026

 

 

 Museu do Tiradentino

 Virtual

 

 

 

Lúcia Gomes e as memórias

do Largo das Mercês


 

Dona Lúcia Gomes, em 2002, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Maria Lúcia Gomes Paolucci é antiga moradora do Largo das Mercês, nascida em 18 de agosto de 1939; filha de João Andrade Gomes – Sô Nhonhô Gomes e Maria da Glória Rocha Gomes – a Dona Zizi. O casal teve prole numerosa, foram quinze filhos.

A família Gomes sempre viveu no Largo das Mercês, mas por certo período, a casa recebeu obra e teve que se mudar. Os Gomes moraram no Largo das Forras, em imóvel que pertencia a Nelson Paolucci, posteriormente propriedade do casal Francisco Barbosa Junior e Diva Fonseca Barbosa. Foi nessa casa que nasceu Maria Lúcia Gomes.

 

 O casal Sô Nhonhô Gomes, Dona Zizi e a família. Casa do Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes.


Os filhos iniciavam no trabalho cedo e quando os mais velhos iam estudar ou casar, os mais novos sucediam nas atividades cotidianas. Desde a infância Lúcia Gomes trabalhou muito. Pastoreava os carneiros, buscava água potável no Poço da Sá Ritinha e para o uso doméstico. Nesse poço, ajudava na lavagem das roupas. Dona Zizi fazia os seus deliciosos doces nos grandes tachos de cobre, em especial os das frutas sazonais. Lúcia Gomes vendia leite e doces para a mãe.

Dona Zizi foi doceira afamada na cidade, fazia muitos doces e os organizava em balaios. Lúcia saia para vendê-los. Quando chegava o Jubileu da Santíssima Trindade, a produção de doces era destinada ao Sr. Teixeira, que vendia na festa – ele tinha o mote: – Olha o doce, passa fome quem quer.


Dona Zizi e Sô Nhonhô Gomes. Fotografia: Acervo Família Gomes.


A família numerosa contava ainda com os agregados, os homens que trabalhavam nas plantações – milho, arroz, feijão, mandioca, nos “Gomes” e no Cacheu. Tinha os que cuidavam dos animais, Sô Nhonhô foi um importante criador de muares e recebeu prêmios nacionais; ainda tinha as tropas e os carros de boi.

Tudo era exagerado, muita roupa para lavar e cuidar, muita comida para preparar e servir, fazer as merendas para o café.


Primeiro Prêmio conferido ao Sô Nhonhô Gomes, pela participação do “muar denominado Brasileiro”, V Exposição Nacional de Animais e Produtos Derivados,Rio de Janeiro, 1936. Acervo Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.


O trombone do Sô Nhonhô Gomes. Acervo: Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Sô Nhonhô Gomes tocava trombone e integrou a Banda Ramalho. Apreciava o violão. Foi caçador tradicional e teve muitos cachorros de caça. Participava de grandes caçadas no Pantanal, a demandar tempo e organização para transcorrer bem. Tudo era montado no Largo das Mercês. Como a matilha era numerosa, nessa ocasião a cidade toda ouvia a algazarra dos animais. Quando era possível, as caças eram soltas nas matas da Serra de São José para reproduzir. Manter os cães dava trabalho, Lúcia Gomes ajudava a preparar a comida deles, angu com aparas de carne.

 

Sô Nhonhô Gomes nos preparativos para a caça, Largo das Forras, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.


Lúcia Gomes estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama, depois ingressou no internato do Colégio Imaculada Conceição, em Barbacena. Conta que lá vivenciou boas experiências, tinha as salas para as atividades manuais que gostava. Foi do Coral Canto Orfeônico e apresentava na Rádio de Barbacena e até no Rio de Janeiro. Sempre gostou muito de música, fazia a 2ª e a 3ª voz.

Na infância, participou das Pastorinhas preparadas pela cantora lírica Dona Olinda Rocha. Com as Pastorinhas saia visitando os presépios no final do ano.

Trabalhou sempre, mas teve uma infância feliz.

Em 1959, formou-se e em 1960 começou a trabalhar como professora. Adorava lecionar.

Casou-se em 1963, na Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, com Humberto de Oliveira Paolucci e passou a assinar Maria Lúcia Gomes Paolucci. Foram morar no Sobrado dos Quatro Cantos, depois viveram por certo tempo na Casa da Cerâmica. O casal tem dois filhos: Solange e Humberto e cinco netos.

 

Humberto e Lúcia, cortando o bolo de casamento. Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci. 

 

Humberto e Lúcia, Largo das Mercês. Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci. 

 

Dona Lúcia Gomes fez um curso para ser “Supervisora de Merenda no Município”. Trabalhou no Departamento Municipal de Educação e Saúde e dava assistência pedagógica nas escolas municipais de Tiradentes, na administração dos prefeitos: Josafá Pereira Filho, Nilzio Barbosa e Mauro Barbosa. Após se aposentar, trabalhou por certo período no Cartório de Registro Civil e Notas de Tiradentes.

 

Dona Lúcia Gomes em sua casa no Largo das Mercês. Fotografia: Luiz Cruz.

 


O marido Humberto Paolucci

 

A família Paolucci tem origem italiana, com forte presença na Toscana. No século XIX, com a imigração, os Paolucci acabaram bastante populares. A base dos pioneiros no Campo das Vertentes foi em Barbacena. Desde os primeiros anos do século XX, Martins Paolucci e Alberto Paolucci tornaram-se importantes referências em Tiradentes.

Humberto trabalhou na Cerâmica Progresso e no Cartório de Registro Civil e Notas de Tiradentes. Gostava de pintura e de fotografia. Na Várzea do Cacheu, onde Sô Nhonhô Gomes plantava, recolheu um conjunto de artefatos dos povos originários, atualmente no acervo do Museu Casa Padre Toledo.


Humberto Paolucci próximo ao Ribeiro Santo Antônio e a antiga ponte ao fundo, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.

 

Humberto Paolucci e João Lopes – que foi Juiz de Paz, no Cartório, Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Acervo Família Gomes Paolucci.


A rede familiar

 

Até construir a casa da família, no Largo das Mercês, Humberto e Dona Lúcia viveram certo tempo na Casa da Cerâmica – na Cerâmica Progresso e no Sobrado dos Quatro Cantos, na atual Rua Direita, outrora Rua 15 de Novembro. Essa edificação pertenceu ao avô dela, Galdino Rocha, que lá montou o Hotel São José. A avó era Josefina Ramalho, irmã do velho maestro Joaquim Ramalho.

Muitos hóspedes do Hotel São José vinham fazer estação de águas, no Balneário das Águas Santas e para tal, utilizavam o trem da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas. Faziam baldeação, com a parada na Estação Chagas Dória, com a ramificação até o Balneário. Infelizmente esse trecho da linha férrea foi desativado e a Estação das Águas Santas demolida.

A Família Gomes guarda até o presente, parte da louça inglesa, dos serviços do Hotel São José, que funcionou no Sobrado dos Quatro Cantos. 

 

Louça inglesa do serviço do Hotel São José, que funcionou no Sobrado dos Quatro Cantos. Acervo: Família Gomes. Fotografia: Luiz Cruz.


Nota do Hotel São José, propriedade de Galdino Rocha, avô de Dona Lúcia Gomes. Arquivo: Luiz Cruz.

 


 Fundo do Sobrado Quatro Cantos, onde funcionou o Hotel São José. Fotografia: Luiz Cruz.

 

As Gomes se dedicaram à Educação. Dona Leonor e Dona Vitória foram professoras e supervisoras pedagógicas, trabalharam em Tiradentes e em São João del-Rei.

 

 

Dona Lúcia em sua casa, Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

As três irmãs


Do grande núcleo familiar Gomes, três estiveram muito unidas: Dona Leonor, Dona Vitória e Dona Lúcia. Cada uma com sua personalidade e afinidades, e em comum o gosto pela vida e a participação do cotidiano de Tiradentes. Dona Leonor foi uma das mais animadas carnavalescas da história da cidade, a única que tinha energia para sair em todos os blocos. Desfilava, ia para casa trocava de fantasia e lá estava ela novamente. Criou o Bloco Palhaçada, que atualmente arrasta milhares de foliões pelas ruas do centro antigo. Escreveu e publicou o seu livro de memórias. O lançamento da sua obra ocorreu no jardim do Centro Cultural Yves Alves, a propiciar um agradável encontro de muitos familiares, amigos e admiradores dessa animadíssima tiradentina.


Dona Leonor no dia do lançamento do seu livro: História, Lembranças, Memórias. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Dona Lúcia, Dona Leonor e o prefeito Nilzio Barbosa no dia do lançamento do livro. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

 Dona Lúcia e Dona Leonor com familiares no lançamento do livro. Jardim do Centro Cultural, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

As Gomes sempre prestigiaram os eventos culturais da cidade. Apoiaram os projetos sociais, em especial a APAE de Tiradentes, que realiza trabalho de inclusão, educação e assistência especializada da maior relevância para a comunidade. Mas em todas as oportunidades, realizaram viagens pelo Brasil e exterior. Dona Lúcia aproveitou e enfatiza que dos países que mais apreciou foram Portugal e Itália.

 

  

Dona Vitória, Dona Lúcia e a filha Solange, Dona Nilber Barbosa e Dona Vanda. Exposição de trabalhos dos assistidos da APAE de Tiradentes. Centro Cultural Yves Alves, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Dona Vitória, Dona Lúcia e Dona Cenira e sua filha Mariana. Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Dona Vitória acompanhando obra de canalização de água pluvial.Rua Alberto Paolucci, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.  


Muito religiosa, após se aposentar, Dona Vitória foi Ministra da Eucaristia. Prestou relevante trabalho voluntário junto à Paróquia de Santa Antônio. 

 

A Ministra da Eucaristia Dona Vitória, na Procissão de Ramos. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz. 

 

As três irmãs, com quem tivemos o privilégio de conviver, sempre alegraram o Largo das Forras, cada uma à sua maneira. A casa grande, implantada em amplo terreno, tem diversos cômodos e guarda histórias e infinitas memórias. O mobiliário, as fotografias, as louças, as imagens devocionais, os utensílios de cozinha – inclusive os tachos de cobre usados por Dona Zizi para fazer os doces. Os objetos do tropeirismo, das tropas do Sô Nhonhô Gomes. Tantas janelas, tantas portas. Tudo está ali bem cuidado e pronto para nos revelar casos e mais casos, basta parar e indagar cada elemento.

  

Casa da Família Gomes. Largo das Forras, Tiradentes.Fotografia: Luiz Cruz.

 

Aspecto da cozinha da casa da Família Gomes. Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Com o passar do tempo, assistiram as transformações urbanísticas e arquitetônicas do Largo das Mercês, por onde passam as tradicionais procissões da Festa de Passos e de Nossa Senhora das Mercês. No largo, eram montadas as tendas dos circos. Foi agenciado na década de 1980, através de projeto de autoria do mais importante paisagista brasileiro, Roberto Burle Marx. Por lá passam as guardas de congado para reverenciar uma das mais arraigadas devoções do povo de origem afro-brasileira – Nossa Senhora das Mercês. Abrigou as “Chácaras e Queima do Judas”, encerrando as festividades da Semana Santa e com participação do povo. No largo passa ainda o Cortejo de Carros de Boi, organizado pelas famílias Costa e Zerlotini. Lá ocorreu a 1ª Mostra de Cinema de Tiradentes – em uma tenda circense e com expressiva participação da comunidade. O largo abrigou exposições de esculturas dos eventos culturais de Tiradentes e nos finais de ano, recebe o Presépio.

Infelizmente, o Largo das Mercês já foi utilizado de maneira inadequada, especialmente como estacionamento nos períodos de maior fluxo de visitantes. Quando ocorre os temporais, o Largo das Mercê fica alagado e as águas pluviais invadem as casas, porque na parte alta do Parque das Abelhas existia uma represa de coleta dessas águas e foi soterrada, como como o córrego que lá existia. Essa área do Parque das Abelhas foi loteada e o prejuízo ficou para os moradores da parte mais baixa da cidade, especialmente os do Largo das Mercês.

 

Largo das Mercês, Tiradentes, década de 1980. Foto: Eros Conceição, arquivo Luiz Cruz.

 

Projeto de Roberto Burle Marx para o Largo das Mercês, Tiradentes,1980. Acervo IHGT.

   

 

Uso inadequado do Largo das Mercês, Tiradentes. Fotografias: Luiz Cruz.

 

 

 Obra de restauração do calçamento do Largo das Mercês, Tiradentes, 2015. Foto: Luiz Cruz.

  

Amanhecer no Largo das Mercês. Fotografia: Luiz Cruz.

 

O sobrinho das Gomes, o engenheiro agrônomo e pesquisador Arthur Moraes Gomes, realizou profunda pesquisa sobre o Largo das Mercês, tema da sua dissertação de mestrado, sob o título: Levantamento histórico, sociocultural e paisagístico do Largo das Mercês em Tiradentes, Minas Gerais, defendida em 2021, na UFLA-Universidade Federal de Lavras. Essa, tornou-se a principal referência bibliográfica sobre esse importante logradouro.

 

 

Dona Zizi. Fotografia: Acervo Família Gomes.

 

O numeroso núcleo familiar Gomes teve uma matriarca muito admirada. A cada visita que fizemos às três irmãs, ouvíamos relatos inflamados e repletos de carinho por Dona Zizi.

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

 

Referências:

CRUZ, Luiz Antonio da. BOAVENTURA, Maria José. (Org.). Memória Tropeira. Tiradentes: IHGT, 2014.

CRUZ, Luiz Antonio da. BOAVENTURA, Maria José. (Org.). Memórias e tradições Populars. Tiradentes: IHGT, 2016.

CRUZ, Luiz Antonio da. Tiradentes, a cidade enlutada. Disponível em:

https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2022/08/cidade-enlutada-dona-leonor-no-dia-do.html

CRUZ, Luiz Antonio da. Palhaçada em Tiradentes. Disponível em:

https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2020/02/palhacadaem-tiradentes-luizcruz-hoje.html

GOMES, Arthur Moraes. Levantamento histórico, sociocultural e paisagístico do Largo das Mercês em Tiradentes, Minas Gerais. Dissertação (mestrado acadêmico) - Universidade Federal de Lavras, 2021.


 Apoio institucional:



7 comentários:

  1. Esse seu projeto Luiz é excelente...
    Dona Lúcia é uma pessoa especial

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  2. História linda da família Gomes. Parabéns ao Museu Tiradentino.

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  3. Os textos do Luiz Cruz são sempre agradáveis, de uma leitura gostosa e vibrante, recheada de detalhes interessantes e benfazejos. A história da família Gomes é atraente e mostra toda a importância que essa família tem para a cidade de Tiradentes. Parabéns, amigo, por nos proporcionar momentos preciosos e enriquecedores.

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  4. Parabéns Luiz! Você é fantástico. Viajei no tempo. Que história linda! Tive o prazer de trabalhar com elas.

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  5. Tenho boas lembranças . A família muito amada e cidade querida

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  6. Parabéns, Luiz! Excelente iniciativa!

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