terça-feira, 14 de julho de 2026

  

 

 

 Museu do Tiradentino

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Dona Florinda

A formosa flor de cidade

 

Ela nasceu em 13 de março de 1933, em Tiradentes. Filha de Antônio Moreira da Costa e Maria Glória da Luz. Foi criada na casa do Beco do Chafariz e quando criança gostava de passear e brincar no Alto de São Francisco, ia sempre lá na companhia da avó. Teve uma infância difícil, pelas condições econômicas; as roupas passavam por muitos remendos e o avô fazia os calçados artesanais, para que pudesse ir à escola. No Grupo Escolar Basílio da Gama, do 1º ao 4º ano, Rosina Paolucci foi sua professora, de quem guarda belas recordações. Na juventude, gostava de dançar nos bailes. Sua família veio do Cajuru, distrito de São João del-Rei, que tem como padroeiro São Miguel Arcanjo.



Dona Florinda em sua casa, bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2002.

Fotografia: Luiz Cruz.


          

Em 1950, aos 17 anos, Dona Florinda casou-se com José Maria Muniz e passou a assinar Florinda Joana Muniz. O pai de José era o proprietário da Chácara do Pacu, onde viviam. Depois de casados, Dona Florinda e José foram morar na Rua Direita, na casa de número 55, que fora emprestada por Dona Gininha, onde posteriormente viveu Antônio Tibúrcio.

Dona Florinda e José construíram uma família numerosa. O primogênito é Vicente Pedro Muniz, depois vieram Francisco de Paula, Maria Luiza, Lúcia de Fátima, Lizete Geralda e Lucilene das Neves. Tem muitos netos e muitos bisnetos.

José Maria Muniz trabalhava para Vicente Guerra, possuidor de imóveis na cidade. Por certo tempo, o casal morou na casa do Beco do Chafariz, depois se mudou para a Chácara, no Largo das Mercês, 149, propriedade de Vicente Guerra. Desse imóvel, a família se transferiu para outro, na Rua da Câmara, 58, também propriedade de Vicente Guerra.

 

Maria Luiza, Dona Florinda, José, Lizete e Lucilene.

Fotografia: Acervo Família Muniz.


Dona Florinda vivenciou bons momentos na Chácara, no Largo das Mercês. A casa foi instalada num amplo terreno, cheio de árvores frutíferas e havia fartura de frutas. Esse imóvel foi adquirido e doado para as freiras de Nossa Senhora das Dores e atualmente abriga o Instituto Mário Mendonça, que pode ser visitado, através de agendamento. Posteriormente, a propriedade foi denominada “Chácara das Pitangueiras”.

 

Chácara onde Dona Florinda viveu com a família.

Atualmente abriga o Instituto Mário Mendonça. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

A família Muniz morou em outras casas e teve um terreno, que fora vendido para Nicolau Panzera. Até que se fixaram no bairro Cascalho, na Rua Vereador Antônio Hipólito do Nascimento, 79, onde vive há mais de quatro décadas. E Dona Florinda ressalta: – O Cascalho é uma beleza, adoro morar aqui, é tudo de bom.

Dona Florinda tem orgulho de suas raízes e sempre frequentou o Cajuru, principalmente para participar das celebrações a São Miguel Arcanjo. Lembra-se que a Capela de São Miguel chegou a ficar em péssima situação de conservação; depois, foi restaurada. Toda orgulhosa, conta que era bisneta de Maria Joaquina, que faleceu com 100 anos de idade, ainda lúcida. Ela gostava de preparar as comidinhas simples como o palmito e o broto de samambaia, colhidos em lugares mais frescos. Maria Joaquina vivia no Cajuru; tinha só uma “vista”, a outra ficara comprometida em consequência da varicela.

 

Dona Florinda, em registro da família. Fotografia: Acervo Família Muniz. 


Dona Florinda trabalhou muito para ajudar no sustento da família. Fazia bolinho de feijão. Fazia os doces juntamente com o marido, o biscoito de amendoim na calda cristalizada, os doces de frutas: mamão, cidra e figo. Preparava o crocante canudinho de doce de leite e o doce de batata-doce. Semanalmente mandava quatro balaios de doces para os “fregueses” em São João del-Rei. No trem, da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas, mandava doces para Barroso e para Antônio Carlos.

Foi fazendo e vendendo doces que o marido José e ela conseguiram se aposentar.

Os filhos Vicente e Francisco aprenderam a fazer os tradicionais doces.


Dona Florinda, em registro da família. Fotografia: Acervo Família Muniz. 


 

No Cajuru 

 

Por causa de sua devoção a São Miguel e pela tradição familiar de fazer e vender doces, vivenciou uma experiência dramática, no Cajuru. Era domingo da festa, na rua, dezenas de barracas estavam preparadas para a chegada dos romeiros. O movimento era intenso, quando no topo da ladeira um caminhão perdeu o freio e desceu arrastando barracas e romeiros. Dona Florinda estava lá com o filho Vicente e o carrinho de doces. No pânico geral, Vicente só teve tempo para puxar e proteger a mãe. Não fosse ter colidido com o carro de Vicente, o caminhão continuaria atropelando barracas e romeiros.

Esse acidente deixou muitos feridos e vítimas fatais, inclusive crianças. O Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes foi acionado e participou do resgate das vítimas. Diversos aspectos desse grave acidente do Cajuru foram registrados fotograficamente.

Quando as providências estavam concluídas, os Voluntários retornaram a Tiradentes e trouxeram Dona Florinda para sua casa. E ela nos contou: – Só fui salva por ação de meu protetor São Miguel Arcanjo. 


 

Acidente no Cajuru, o caminhão desenfreado colidiu com o veículo

 de Vicente e causou grande tragédia, com vítimas fatais.

Cajuru, São João del-Rei-MG. Fotografia: Luiz Cruz.  

 

Moradora do bairro Cascalho por décadas consecutivas, conhece todos. Sempre que passávamos por sua casa, trocávamos um dedo de prosa. Dona Florinda gosta de contar sobre a vida tão difícil que foi em Tiradentes na primeira metade do século passado. Com orgulho, fala sobre a proeza de criar a família produzindo doces.

Agora, nossa amiga nonagenária está mais resguardada. A saúde requer mais atenção e mais cuidados.

  

Dona Florinda em sua casa, no bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2018.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

Era com alegria que sempre parávamos e fazíamos a saudação: – Boa Tarde, Dona Florinda! Como a Senhora está? Logo, ela respondia: – Boa Tarde, meu filho! Estou bem. Estou aqui aproveitando o sol da tarde. E ela abria aquele sorriso iluminado. Sabíamos que aquela saudação era importante para ela. Considerar, reverenciar e humanizar é necessário. 

 

 

Dona Florinda em sua casa, no bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2022.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

O marido

 

José Maria Muniz, seu marido, trabalhou demais na vida. Mas fazia o que gostava. Foi musicista, tocava trompa e integrava a Sociedade Orquestra e Banda Ramalho, atuante desde 1860. Participava de todas as apresentações musicais, as religiosas e as civis. Dona Florinda gostava de viajar com os músicos e uma dessas apresentações da Orquestra Ramalho ocorreu em Brasília, na década de 1970.


                

José Maria Muniz em Brasília, década de 1970. Fotografias: Acervo Família Muniz.

 

José Maria Muniz com integrantes da Banda Ramalho

Fotografias: Acervo Família Muniz.


Em 1976, por iniciativa de Yves Alves e com o apoio institucional da Rede Globo Minas, foi gravado o LP Minas, 1717-1977 (Região do Rio das Mortes), pela Som Livre. Teve a participação das orquestras de Tiradentes, Prados e São João del-Rei. A gravação da Orquestra Ramalho foi um sucesso e ocorreu no coro da Matriz de Santo Antônio, que contou com a participação dos antigos musicistas e lá estava José Maria Muniz. O período de apoio e divulgação da música da região do Rio das Mortes se tornou elementar para o fortalecimento das tradicionais instituições musicais da região.

 

Coro da Matriz de Santo Antônio, Tiradentes-MG.

 Orquestra Ramalho durante a gravação para o LP da Som Livre, 1976.

Fotografia: Francisco Botelho, acervo: Luiz Cruz. 


 


LP gravado em 1976, com a participação da Orquestra Ramalho e

 do musicista José Maria Muniz. Acervo: Luiz Cruz.


 

Vicente Pedro Muniz 

 

O primogênito dos Muniz nasceu em 29 de junho de 1954, na casa do Beco do Chafariz. Estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama. Desde cedo, teve que trabalhar e ajudar na venda dos doces. Mais tarde se dedicou às mais variadas atividades, inclusive como vigilante de instituição financeira, até se aposentar. Porém, sempre produzindo e comercializando os doces caseiros.

Vicente foi presença nas festas religiosas com o carrinho de doces, tornou-se figura tradicional no Jubileu da Santíssima Trindade e nas festas regionais, como a de São Miguel Arcanjo, no Cajuru; a de Santo Antônio, no Rio das Mortes; a do Livramento, em Prados; a de Nossa Senhora de Nazaré, em Nazareno; a de Sant’Ana, em Barroso e tantas outras. 

Casou-se cedo, aos 19 anos, com a bela Nilza Silveira. O casal teve os filhos Giovani, Jackson, Eva e Vilma e tem cinco netos: Miguel, Inácio, Andreza, Valentina e Bárbara.  


 

Vicente e Dona Nilza, com os seus padrinhos de casamento. 

Ao lado da noiva, o seu pai, Mário Silveira. Matriz de Santo Antônio, 1973.

 Fotografia: Acervo Família Muniz.


Depois de aposentado, Vicente escreveu e publicou um livro de memórias intitulado Reminiscências. Na obra, ricamente ilustrada, a contar suas peripécias de menino e suas atividades, sobretudo a produção dos doces caseiros. 


 

Vicente Muniz e seu Carrinho de Doces, no Jubileu da Santíssima Trindade, 

Tiradentes-MG, 2024. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Detalhe do Carrinho de Doces de Vicente Muniz. Tiradentes-MG, 2024.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Em Reminiscências, Vicente apresenta a receita e o modo de fazer do “Biscoito de Amendoim”, que aprendeu a fazer com os pais. Trata-se de um doce muito tradicional de Tiradentes e bastante apreciado. 


 



O livro de Vicente Muniz foi publicado através de projeto idealizado pela Oficina de Teatro Entre & Vista e contou com o apoio do Conselho Municipal de Políticas Culturais e Patrimônio de Tiradentes.

 

Francisco de Paula Muniz 

 

É o segundo filho de Dona Florinda e José, nascido em 5 de maio de 1956. Estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama e no Ginásio Dom Delfim Ribeiro Guedes. Em São João del-Rei, cursou o Ensino Médio na Escola Estadual Cônego Osvaldo Lustosa; naquele tempo para estudar naquela escola tinha que passar por exame de seleção. Conta que teve excelentes professores e deles guarda boas lembranças.

Ia estudar em São João del-Rei e levava os balaios de doces para vender. Assim, conseguiu completar os seus estudos. Sempre trabalhando.


 

Chiquinho da Florinda, em 2002. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Com a família, viveu em algumas casas do núcleo antigo de Tiradentes e nasceu em uma que não existe mais na Rua Direita (atualmente sem número), a que ficava ao lado da antiga Cadeia, a casa do Chico Machado. Essa edificação ruiu completamente no início da década de 1970. De todas as casas que morou, gostou mais da Chácara, do Largo das Mercês. 

 

Chácara do Largo das Mercês, onde viveu a Família Muniz. Tiradentes-MG.

 Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Sempre gostou de cozinhar e ajudou os pais nos preparos dos doces. Chiquinho da Florinda, como é conhecido na cidade, sempre teve uma vida dinâmica. Montou o time de futebol, o São José, que participou e venceu vários torneios. Apreciava o volleyball. Ainda, jogava baralho e tem uma coleção de troféus dessa atividade. 

 

Parte da coleção de troféus que Chiquinho conquistou nos torneios de baralho.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Durante certo tempo manteve a coluna Contos e Lendas da Cidade, publicada no jornal editado pela Mazé. Teve o Grupo de Teatro Pintando o Sete, que realizou diversas apresentações em Tiradentes, Resende Costa, São João del-Rei, Muriaé e outras localidades.

Durante anos consecutivos fez caminhadas na Serra de São José. Passeava. Ia para apreciar a exuberante natureza – a vegetação – em especial as orquídeas, os pássaros, as rochas, as cachoeiras, os riachos.  Conhecia tudo. Aproveitou bem as frutas da serra: gabirobas, jacas, araçás, jambos, araticuns, banana do brejo, marmelo, veludo, ingá. Trazia os pinhões para assar em casa.

É devoto da Santíssima Trindade e durante muitos anos trabalhou voluntariamente na cozinha, durante o Jubileu. Fazia comida para muita gente. Passava a novena toda trabalhando, cozinhando.

Ia à Serra de São José para buscar ramos para a Procissão de Domingo de Ramos e arnica para enfeitar os altares das igrejas. Ajudava na organização da Semana Santa, por certo tempo cuidou da produção do figurado de Sexta-feira da Paixão e nesse dia ia às fazendas para pedir leite para fazer arroz-doce.

Um dos passeios que mais gostava era o de trem, quando circulava entre São João del-Rei e Antônio Carlos. Saía de Tiradentes às 8h e chegava lá às 12h. A função durava o dia todo. Organizou vários grupos para fazer esse passeio de trem completo, na EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas.

  

Chiquinho da Florinda e amigos, antigo Parque de Exposições de Tiradentes.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

Trabalhou muito. Incialmente, no Bar do Ivan. Depois como restaurador e pintor de parede. Pintou várias igrejas. Por certo tempo, dedicou-se à cerâmica artística e produção de vasos ornamentais. Finalmente, foi parar na rede hoteleira local, trabalhou por cerca de 30 anos no Pouso das Geraes, onde se aposentou.

 

Chiquinho da Florinda, no seu posto de trabalho no Pouso das Gerais.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

É devoto da Santíssima Trindade e de Nossa Senhora Aparecida. Torcedor do time tricolor, o Fluminense. Tem uma paixão imensurável na vida, sua mãe, Dona Florinda, com quem vive.

 

Chiquinho da Florinda e Dona Florinda. Fotografia: Acervo Família Muniz.



Rafael Muniz Batista 

 

É um dos netos de Dona Florinda. Nasceu em 17 de dezembro de 1988 e seus pais são José Tarcísio Batista e Lucilene das Neves Muniz Batista. Morou na companhia da avó Florinda durante 17 anos e gostava muito da vida no bairro Cascalho.

 

Rafael Muniz Batista, neto de Dona Florinda. Tiradentes, 2002.

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Estudou na Escola Municipal Marília de Dirceu e na Escola Estadual Basílio da Gama. Atuou como coroinha na Paróquia de Santo Antônio. Seu primeiro trabalho foi na Pousada Vila Alferes, depois exerceu outras atividades, nos serviços gerais e pintor. Com Suelen Oliveira teve o filho Leonardo Oliveira Muniz – um dos bisnetos de Dona Florinda. Atualmente vive Divinópolis.

 

A matriarca Muniz

 

Dona Florinda trabalhou intensamente para ajudar na criação dos filhos e dos netos. Agora, nonagenária, olha para o tempo, aprecia a bela história de vida que construiu e repleta de muitos sabores. Sempre esteve de bem com tudo e com todos, mas nos momentos difíceis invoca os santos de sua proteção: São Geraldo Majela e São Miguel Arcanjo.

  

Dona Florinda em sua casa, bairro Cascalho, Tiradentes-MG, 2018.

Fotografia: Luiz Cruz.


Dona Florinda é muito admirada pelos familiares, vizinhos e comunidade. Sua história de vida enriquece o Patrimônio Cultural de Tiradentes. 

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

 

Agradecimentos ao Maestro Willer Silveira e a Demétrio Campos Bissulle.

 

 Apoio institucional:






 

      

      

      

 

     

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