terça-feira, 11 de agosto de 2026

 

 

 Museu do Tiradentino

 Virtual

 

 

 

Ana Cláudia

A Princesinha de São Benedito

 

 

Ana Cláudia, Princesa do Congado de São Benedito, Biblioteca do Ó, 2009. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Ana Cláudia Silva de Paiva é a princesa da Guarda de Congado de São Benedito, que foi organizado através de projeto proposto pelo ICBO-Instituto Cultural Biblioteca do Ó, por ocasião da celebração dos 300 anos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos – ou seja, os pretos nascidos em solo africano.

Para a organização desse Congado, o ICBO contou com o apoio financeiro da Fundação Palmares e ocorreu ampla pesquisa para a sua formação, o resgate histórico, a construção das indumentárias, adereços, cânticos, ritmos e instrumentos.

As rainhas dessa guarda foram coroadas em celebração ocorrida na Igreja de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos – os afros descendentes já nascidos em solo brasileiro. A cerimônia foi coordenada pelo Padre José Nacif Nicolau, contou com a participação de outras guardas congadeiras da região e de componentes do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes, a instituição que promoveu o resgate da Festa de Nossa Senhora do Rosário.

Há longas décadas não se realizava uma celebração de origem afro na Igreja de Nossa Senhora das Mercês, mesmo sendo dos “Pretos Crioulos”. As festividades afrobrasileiras sempre ocorreram nessa edificação e com certa pompa. Encontramos um documento referente ao pagamento ao artífice Manoel Victor de Jesus (1760-1828) por ter pintado a bandeira do mastro. Hastear e arriar a bandeira do santo devocional nas celebrações de origem afro é um costume antigo, de expressiva beleza e muito comovente.

 

 

Recibo referente ao pagamento da pintura da Bandeira para as festividades da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, 1817. Arquivo da Paróquia de Santo Antônio, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

  

                                    Recebi do tesoureiro da Irmandade de Nossa das

                                    Mercês Ignácio Pereira Rangel duas oitavas e meia

da pintura da Bandeira para o mastro das festividades;

e por verdade passo o presente de minha letra e sinal.

Villa de S. José 11 Fevereiro de 1817

 

                       Manoel Victor de Jesus

 

(transcrição e adaptação nossa)

 

 

A “Bandeira de Mastro” das festividades pintada por Manoel Victor de Jesus desapareceu e desde o século XIX, na antiga Vila de São José, a atual Tiradentes, ocorre apagamento da memória da cultura afrobrasileira. Mesmo que os africanos e seus descendentes tenham nos legado vasto patrimônio cultural e arquitetônico – como as importantes edificações: Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Igreja de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos e Igreja de São João Evangelista dos Homens Pardos. 

                                                          

    
Cerimônia de Coroação das rainhas da Guarda de Congado de São Benedito, coordenada pelo Padre José Nacif Nicolau, 2009. Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Tiradentes. Fotografias: acervo ICBO.

 

Cerimônia de Coroação das rainhas da Guarda de Congado de São Benedito, coordenada pelo Padre José Nacif Nicolau, 2009. Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Tiradentes. Fotografias: acervo ICBO.

 

 

Saída do cortejo da Guarda de Congado de São Benedito, do ICBO,Largo do Ó Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Cortejo da Guarda de Congado de São Benedito, organizado pelo ICBO. A princesa Ana Cláudia. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

A princesa Ana Cláudia, Guarda de Congado de São Benedito, organizada pelo ICBO. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Ana Cláudia Silva de Paiva nasceu em 13 de junho de 1992. Seus pais são Cláudio Antônio de Paiva e Erci Silva Paiva. A família vive na Rua Padroeiro Santo Antônio, no Bairro Cascalho, em Tiradentes. Desde cedo Ana Cláudia frequentou as instalações do Instituto Cultural Biblioteca do Ó e participou das suas atividades culturais. Uma delas foi o Curso de Alfabetização de Adultos, com a Professora Celma, ela atuou como auxiliar de alfabetização e uma das alunas foi sua própria mãe, a benzedeira Dona Erci Paiva. Nessa ocasião a turma era boa, com a participação do Valdeci, Shirlei, Vicentina, João do Zé Cabrito, Vandinha, Ondina, Ica e tantos outros que tiveram oportunidade de conhecer as letras, os números e foram alfabetizados. A Professora Celma além de alfabetizar, dava reforço escolar e Ana Cláudia aproveitou essa oportunidade para estudar. Ela foi aluna da Escola Estadual Basílio da Gama.

Desde muito pequena, Ana Cláudia é devota de São Cosme e Damião e anualmente ajuda a família a preparar a festa da dupla de santos, quando recebem centenas de crianças na casa para a distribuição de bolo, sacolinha de guloseimas e refrigerante. 

 

Ana Cláudia e seus pais – Cláudio e Erci, na gravação de “Hilda Furacão”.Rua da Câmara, Tiradentes. Fotografia: acervo Família Paiva. Ana Cláudia e os santos de sua devoção: Cosme e Damião. Fotografia: Luiz Cruz, 2002.

 

Para ajudar na manutenção da casa, desde muito cedo Ana Cláudia teve que trabalhar, atuou como cuidadora de crianças e se recorda de muitos meninos e meninas que ajudou a criar. Sempre participou das atividades culturais da cidade, inclusive foi figurante de filmes, documentários e minisséries gravados em Tiradentes.

 

Ana Cláudia e seus pais – Cláudio e Erci, em jantar beneficente. . Fotografia: acervo APAE de Tiradentes.

 


Ana Cláudia - A Princesa da Inclusão Social

 

Aos 26 anos de idade, Ana Cláudia se tornou mãe de Enzo Matheus Paiva Silva, que nasceu no dia 13 de novembro de 2017, antecipadamente do tempo previsto. Não teve planejamento para essa gestação, mas afirma que ser mãe foi muito bom e promoveu uma grande transformação em sua vida.

Como foi cuidadora de crianças por muitos anos, logo observou o comportamento de seu filho, que por dois anos fez acompanhamento na APAE de São João del-Rei, por ter nascido prematuramente. Foi um desafio e tanto, enfrentar o transporte de ônibus diariamente para o tratamento. Ele não gostava de colo. Não olhava para a mãe durante a amamentação. No dia 3 de dezembro de 2018, Enzo foi diagnosticado pelo seu desenvolvimento neuropsicomotor. Demorou para andar e aos dois anos perdeu a oralidade. Deixou de interagir com outras crianças. Quando brincava, colocava os brinquedos alinhados. Com os carrinhos, só usava as rodas. Andava usando somente as pontas dos pés.


                        

Ana Cláudia com a blusa da Inclusão: Accept. Understand. Love, os  inúmeros diagnósticos e o Cordão Inclusivo – Tea/Autismo. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Tudo mudou em sua vida, Ana Cláudia conta com o apoio de Dona Erci, das irmãs Fatinha e Vaninha, dos irmãos, dos sobrinhos e do pai.

A agenda para o tratamento do Enzo é pesada, ele faz fono em São João del-Rei, na APAE, com a Paula e na APAE de Tiradentes com a Juliana; faz terapia ocupacional na segunda-feira com a Franny e na quarta com Paula. Faz hidroterapia na Climagem, em São João del-Rei e Equoterapia, em Santa Cruz de Minas. Aos sábados vai ao Catecismo. Frequenta regularmente a APAE de Tiradentes e a Escola Municipal Marília de Dirceu.

Ana Cláudia é grata a todos que se dedicam aos cuidados de Enzo, que aos poucos vai se interagindo e desenvolvendo; na Festa Junina da APAE de Tiradentes, ele revelou um avanço, fez uma apresentação solo de acordeom. Foi um sucesso e uma grande alegria.

Sempre que pode, ela passeia com o filho. Não deve repetir o trajeto e quando ele vê o ônibus acha que já vai embarcar e ter atividade na APAE de São João del-Rei.

A rotina é pesada e onerosa. Enzo toma vários medicamentos e ainda usa fralda descartável. Mãe e filho, os dois, cumprem juntos todas as atividades, mesmo sem a oralidade, ele acompanha tudo, reconhece visualmente os trajetos, os lugares, as pessoas.

Ainda vai ao seu médico em Juiz de Fora, onde Enzo foi diagnosticado com “autismo” e mantém o tratamento com o Dr. Natanael Lourenço Mota, de Lavras. Sempre está viajando para o tratamento dele.

Tudo é muito pesado, mas ela ainda consegue tempo para se cuidar e faz acompanhamento psicológico, para romper bem cada etapa do seu cotidiano.

Para o tratamento do Enzo, o médico prescreveu o “canabidiol 20mg/ml”, mas “Infelizmente o medicamento não faz parte da relação de Medicamentos Essenciais do Município de Tiradentes”, conforme parecer expedido em 14 de abril de 2026. Para ter acesso à essa medicação, Ana Cláudia terá que recorrer à “justiça”.

Ela cuida detidamente da disciplina do filho, que aprecia muito “pão de queijo com guaraná”. Trabalha como diarista e ainda ajuda o pai, o Cláudio, que se dedica a recolher produtos recicláveis. A rotina é muito estressante e sem apoio oficial, mas agradece pelos trabalhos desenvolvidos pela APAE de Tiradentes, que oferece gratuitamente os atendimentos, com profissionais competentes, dedicados e amorosos.

Ana Cláudia sonha em poder voltar a estudar e obter uma profissão para melhorar as condições de sua vida e propiciar futuro melhor para seu filho.

Para encerrar, perguntamos o que mais gostaria de nos contar. Ela parou, as lágrimas desceram por seu rosto, a contrastar com aquela tez linda. – Gostaria que os autistas tivessem mais inclusão..., a última festa de aniversário do meu filho não compareceu nenhuma criança. Ele sentiu a falta dos coleguinhas e ficou triste.

 

Cordão e Crachá de Enzo para identificação de TEA-Transtorno do Espectro Autista ou outras deficiências ocultas. Fotografia: Luiz Cruz

 

Infelizmente, boa parte dos autistas não são convidados para as festinhas de aniversário. A exclusão social é uma realidade impactante que gera dor e sofrimento.

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

  

Referência:

CRUZ, Luiz Antonio da. Recortes de Memórias. Tiradentes: IHGT, 2016.

Apoio institucional:




 

 

    

2 comentários:

  1. Thelma do Nascimento20 de agosto de 2026 às 07:03

    Ana Cláudia é uma linda princesa e uma guerreira! Família muito querida!

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    Respostas
    1. Thelma, muito obrigado por sua presença e registro aqui no Museu do Tiradentino. Ana Cláudia é um princesa potente da inclusão social. É uma guerreira e merece nosso reconhecimeneto. Abraços para você.

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