quarta-feira, 1 de julho de 2026

 

 

 

 Museu do Tiradentino

 Virtual

 

  

Maria Luiza Boaventura Leite

a dama das mãos de fada

 

Maria Luiza Boaventura Leite. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Boaventura Leite é família de raízes que se conectaram a outras e aprofundaram nas Minas Gerais. Vincularam afetivamente regiões distintas e com culturas muito peculiares – de Pirapora a Paracatu, Curvelo a Morro da Garça, Cordisburgo ao portão do Sertão, da jovem Belo Horizonte à tricentenária Tiradentes.

Maria Luiza Boaventura Leite nasceu em Pirapora, em 1º de novembro de 1948. Seus pais eram Edmundo Boaventura Leite e Ilka Vargas Boaventura; nesse núcleo, os filhos são quatro mulheres e dois homens. Ela passou a infância toda em Pirapora, às margens do caudaloso Rio São Francisco – o rio da integração nacional. Estudou no Colégio Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e fez o Curso Normal no Ginásio São João Batista.

Conta que a infância foi maravilhosa, Pirapora era uma cidade cosmopolitana, aerada, leve e ponto de encontros. Tinha o “porto”, tinha a Marinha Mercante, tudo com muito movimento. As férias eram passadas no Morro da Garça, com os avós paternos. Havia a casa da “venda”, o armazém de secos e molhados, onde se podia comprar de tudo: tecidos, cadernos, querosene, fumo de rolo, algodão, artigos de armarinho, feijão, sal... Uma venda com muitas portas. Localizada bem à frente do Morro da Garça. Atualmente, a edificação abriga o Museu Casa Boaventura e seu acervo é formado por fotografias, objetos, móveis, a história familiar e a da localidade Morro da Garça.

 

Museu Casa Boaventura. Morro da Garça-MG.

Fotografia: acervo Museu Casa Boaventura.

 

O Morro da Garça tem origem antiga, encontrava-se na rota do “caminho dos boiadeiros”, a ligar a Bahia com as Minas de Sabará, ainda nos primeiros anos setecentistas. Lá, então, surgiu a Capela de Nossa Senhora das Maravilhas, construída em 1720 e infelizmente demolida em 1950.

A referência mais antiga do Morro da Garça figura na obra Cultura e Opulência do Brasil, de André João Antonil, publicada em Lisboa, em 1711. Morro da Garça, Campo da Garça e Fazenda da Garça foram mencionados nos roteiros dos boiadeiros da Bahia.  O primeiro vigário da capela dedicada à Nossa Senhora das Maravilhas foi o Padre João Batista Boaventura Leite (Barbosa, 1995, p. 212).

O Arraial do Morro da Garça integrava o termo de Curvelo, sua emancipação ocorreu em 1962. Toda mobilização para a emancipação do Morro da Garça contou com o empenho da família Boaventura Leite e seu primeiro prefeito foi José Boaventura Leite Júnior, que tomou posse nesse cargo em 3 de agosto de 1962. A paróquia da nova municipalidade é dedicada à Nossa Senhora da Conceição do Morro da Garça.

Da religiosidade familiar, Maria Luiza Boaventura herdou da avó materna, do Morro da Garça, Maria Amélia, a devoção a São José. Santo forte, o homem escolhido para ser o marido de Santa Maria e o pai de Jesus Cristo.

 

Uma trajetória para a formação

 

Edmundo Boaventura Leite foi um homem de visão. Adquiriu em Belo Horizonte um apartamento em 1967, para receber os filhos no período de formação. Nesse ano, Maria Luiza se mudou para a capital para estudar. Fez o Curso de Nutrição, na Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais e logo começou a trabalhar. Era um curso técnico e naquela época o Curso Superior de Nutrição só havia no Rio de Janeiro; em Minas, primeiro Curso de Nutrição foi em Ouro Preto, aprovado em 1978. Depois, iniciou em Comunicação, na PUC-MG, interrompeu para se casar e mudar para São Paulo. Às vésperas do casamento, seu futuro marido foi transferido para Belo Horizonte. Casou-se, mas não retornou para concluir Comunicação, na PUC-MG. Teve duas filhas: Ana Luiza Boaventura de Andrade e Laura Boaventura de Andrade.

 

Maria Luiza e suas filhas: Ana Luiza e Laura. 

Fotografia: acervo Família Boaventura Leite.

 

Sempre trabalhou em Belo Horizonte. Sempre teve autonomia, inclusive de mobilidade, há mais de 60 anos possui a CNH – Carteira Nacional de Habilitação. Trabalhou no Estado de Minas Gerais, no Procon que foi ligado ao Seplan, cuidou da criação do “Código do Consumidor” e para tal esteve algumas vezes em Brasília, para estudar como o órgão deveria funcionar da melhor maneira possível. Sempre se dedicou à área de alimentos. Em Belo Horizonte, prestou concurso no SESI, ainda dirigido por José de Alencar. Foi aprovada e trabalhou por curto período na Creche Bem-Me-Quer, em Tiradentes.

Maria Luiza conheceu Tiradentes em 1969. Voltou a frequentar a cidade a partir de 1984, quando a irmã Maria José Boaventura alugou o “Chalé” e para Tiradentes se mudou. Um dia, passeando pelo centro antigo, viu uma placa de “vende-se” na casa do Largo do Ó, número 13. Era Carnaval. Teve interesse em adquiri-la e 15 dias após, estava na cidade para assinar a documentação de compra da casa. Logo fez a reforma e uma das moradoras foi a artista visual Maria Lídia Magliani. Somente em 1993 veio viver definitivamente em Tiradentes.

A casa do Largo do Ó número 13 pertencera à Dona Eufrásia, irmã de Dona Trindade do João Capitão; que vendera o imóvel para viver mais próxima à irmã, na Prainha. Era uma casa pequena, mas repleta de história e memória, elemento componente de um dos largos mais charmosos do Brasil: o Largo do Ó, da antiga Vila de São José. Naquela singela edificação, abriu-se, então, a “Maria Luiza Casa de Chá, Café e Bordados”.

 


A Casa Maria Luiza, Largo do Ó, Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.
 

Foi o primeiro café de Tiradentes. Como ocorreu com o hotel Solar da Ponte, onde Anna Maria Parsons inovou a maneira de se hospedar com charme, elegância e a prestigiar os talentos locais da artesania; Maria Luiza também foi pioneira ao receber para se tomar um bom café e se deliciar com um pão de queijo quente. Era um café, galeria de arte, um ambiente acolhedor.

Maria Luiza se valeu das experiências culinárias familiares – tão enraizadas em Minas. Café com as iguarias mineiras: os biscoitinhos crocantes, a broa de fubá, os sanduiches de carne, as geleias, os bolos, as tortas, os pães recheados, as broinhas de canjica, as quiches salgadas – com nove sabores deliciosos. Para as noites frias: os caldos e as sopinhas fumegantes. Preparava também as comidinhas alemãs, que aprendera com a amiga Zahrle. O ambiente agradável, com boa música, especialmente do compositor Manoel Dias de Oliveira, era propício à boa mesa de café.


Ambrosia de Maria Luiza, receita da avó Maria Vargas, de Paracatu-MG.

 Fotografia: Luiz Cruz. 

 

O carro chefe da Casa era a ambrosia, o mais autêntico manjar dos deuses. Receita de gerações consecutivas da família, que herdara da avó materna Maria Vargas, de Paracatu. A Casa oferecia música ao vivo e recebia muitos artistas que se apresentavam na cidade. Para quem passava por Tiradentes, nada melhor que um bom café. Maria Luiza foi pioneira também na apresentação de sua Casa, ao criar um cartão personalizado, uma imagem delicada sobre os seus produtos oferecidos à clientela do Largo do Ó, com o seguinte texto:


Maria Luiza Casa de Chá, Café Bordados, 

criado pela artista visual Maria José Boaventura, aquarela, 2002.

 

Café de mineiro, com boa prosa...

Primeiro, é preciso não ter pressa, assentar os pensamentos, refrescar a cabeça. O café é que deve ser quente, fumegante, sair lentamente da xícara e ir temperando as palavras. Esperar assar o pão de queijo, sentir o seu cheiro vir lá da cozinha. Enquanto isso, sai da boca do forno a broa prosa, o ouro do milho, inesgotável. Aí, pode surgir um caso, um conto, uma fatia de história ou um fio da memória puxado. Coisas que o mineiro gosta de guardar e dá de graça...

Para adoçar o encontro, consigo, com a infância ou com os avós, é bom mergulhar na ambrosia (alimento dos deuses). Dizem que ela é capaz de resgatar qualquer alma do limbo e devolvê-la sem o pecado original. E doce de abóbora, geleias, biscoitinhos, travessuras para os olhos e o paladar, tantas cores, formas e sabores.

Ao afrouxar assim o tempo, podemos nos tornar seus donos, em vez de seus servos. Numa mesa de café, em Minas Gerais, gastamos sem medo uma coisa que ainda temos: outro tempo, trem difícil de achar por aí pra comprar!

Maria José Boaventura, 2002.

 

Muitos artistas retrataram a casa do Largo do Ó, número 13, dentre eles o pintor local José Damas, que pintou sua primeira pedra com a casa. Ela foi tema de trabalhos das artistas Ucha, Magliani e tantos outros.

 

Largo do Ó e a Casa Maria Luiza. Autor: Zé Damas, pintura a óleo sobre madeira. 

Acervo: Maria Luiza Boaventura Leite.



Casa Maria Luiza, Largo do Ó. Autor: Zé Damas, pintura a óleo sobre pedra.

Acervo: Maria Luiza Boaventura Leite.

 

 

Casa Maria Luiza, Largo do Ó. Autora: Ucha, pintura, acrílica sobre tela. 

Acervo: Maria Luiza Boaventura Leite. 

 

  Casa Maria Luiza, Largo do Ó. Autora: Magliani, guache sobre papel. 

Acervo: Maria Luiza Boaventura Leite. 


 

Maria Luiza na porta do Passo da Paixão do Largo do Ó, 

 exatamente em frente à sua Casa. Fotografia: Luiz Cruz, 2002.

 

Além das obras de arte, diversos objetos antigos de cozinha compunham a ornamentação da Casa de Chá, Café e Bordados. Um item que se destacava era a coleção de bules antigos, em vários formatos, cores e materiais. Maria Luiza sabia a origem de cada um deles, de sua história e de suas trajetórias familiares. Infelizmente, depois que fechou a Casa, por falta de espaço, teve que desfazer dessa coleção, ficando apenas com alguns dos seus favoritos.

 

Bule de chá da Coleção Maria Luiza. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Bules de chá da Coleção Maria Luiza. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Mesmo após fechar o Café, que funcionou por 14 anos, Maria Luiza segue cozinhando. O carro chefe continua sendo a ambrosia. Faz as geleias, os bolos, as tortas, as comidas alemãs. Mas só para os clientes fidelíssimos da sua antiga Casa. Sua ambrosia continua fazendo sucesso e ainda chega a várias localidades do Brasil e do exterior.

 

Uma tiradentina de coração

 

As raízes de Maria Luiza, de Pirapora – seu torrão natal, se adentraram no solo de Tiradentes. Ela se tornou uma tiradentina de coração. Ama a terrinha como raros cidadãos. E acabou sendo presença marcante em todos os movimentos culturais e sociais da cidade.

 

Maria Luiza com grupo a assistir à inauguração das obras de restauração do

 Sobrado Ramalho. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Com o passar do tempo, construiu sua casa, em módulos, na Rua Vereador Antônio Coimbra e mantém um belo jardim. Sempre gostou de plantas e até teve um horto para oferecer boas opções para a jardinagem local. Foi uma das fundadoras do Núcleo Orquidófilo Serra de São José, que realizou diversas exposições, palestras e oficinas de cultivos de plantas, sempre com o objetivo da proteção das espécies da Serra de São José.


Souvenir do Núcleo Orquidófilo Serra de São José. Acervo: Luiz Cruz.

     

Exposição Nacional de Orquídeas, do Núcleo Orquidófilo Serra de São José.

Fotografias: Luiz Cruz. 

 

Participou do Congado de São Benedito, organizado pelo Instituto Cultural Biblioteca do Ó, que contou com o apoio financeiro da Fundação Palmares.  Integrava a Guarda Feminina do Congado. Conta que durante as pesquisas para a construção da indumentária dos congadeiros estava em Portugal. Ao retornar, tudo já estava pronto e ficara maravilhada com as roupas, os adereços, as bandeiras, os detalhes, o bom acabamento e o cuidado que tiveram com tudo.

 

Rede de Solidariedade

 

Maria Luiza sempre foi uma cidadã atenta. Durante a pandemia de Covid-19 muitas famílias passaram por momentos difíceis. Algumas pessoas perderam o emprego, outros tiveram os vencimentos bloqueados. Juntamente com Luiz Cruz e Maria José Boaventura, criaram a Rede de Solidariedade, para apoiar famílias. Inicialmente, com apoio às gestantes e às puérperas. Convocadas pelas Boaventura, várias amigas começaram a tricotar enxovais para os bebês. As doações chegavam, aqueciam os pequeninos e com delicadeza. 

    



Doações para a Rede de Solidariedade, que contou com muitas contribuições.

Fotografias: Luiz Cruz.

  

Descobrimos que muitas famílias se encontravam em grave situação alimentar. A Rede de Solidariedade passou a fornecer cesta básica para essas famílias, eram encomendadas ao supermercado – que as vezes demorava muito para a fazer as entregas. A Rede recebia as doações e as famílias recebiam os produtos. Ninguém sabia quem doava, ninguém sabia quem recebia. Infelizmente, devido à demora para a entrega, tivemos que fazer pessoalmente as entregas de apoio às famílias.

A Rede recebeu e encaminhou roupa de cama, roupa de banho e cobertores. Contribuiu para amenizar aqueles problemas inesperados em decorrência da pandemia.  Foram momento dramáticos, mas também foram momentos lindos, quando tivemos a certeza de que nossos amigos foram solidários e comprometidos com o bem-estar social em Tiradentes. A todos que apoiaram a Rede de Solidariedade seremos eternamente agradecidos.  Maria Luiza teve o cuidado de receber parte das doações e anotar tudo, para prestação de contas. Coisa que só os amantes da transparência e da ética apreciam.

 

Para aquecer o coração e a alma

 

Não tenha dúvida que Maria Luiza ama Tiradentes e os seus moradores. Sempre que tem notícia de que alguém está enfermo ou retornou do hospital após uma cirurgia, lá vem a Maria Luiza com a panelinha de sopa, quente, saborosa e nutritiva para que o convalescente recupere suas energias. Muitas, muitas pessoas já foram contempladas com o caldo, canja ou sopa de legumes dela. Só quem recebeu esse mimo saboroso, sabe o quanto é importante essa gentileza, esse calor humano, para o corpo e para alma.

Sempre visita os amigos e amigas. Gosta de se fazer presente na vida das pessoas que presa. E isso faz a diferença...

 

Maria Luiza e Dona Maria Edna, amiga que morava nas Lagoas, caminho do Bichinho.

 Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Maria Luiza nas Lagoas, onde ia visitar a amiga Dona Maria Edna. 

Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Na arte e na cultura

 

A família Boaventura / Vargas sempre esteve vinculada à cultura. Maria Luiza acompanha os eventos culturais de Tiradentes e de Minas Gerais. Em especial, participa das manifestações de raiz afro-brasileira. Para isso, já realizou diversas viagens, mas aprecia também os concertos, exposições, palestras, lançamentos de livros.  Por certo tempo, integrou o Coral Viva Voz, que realizou diversas apresentações; especialmente, junto ao órgão setecentista da Matriz de Santo Antônio.

 

Cristina Seabra, Maria Luiza e Ricardo Ribeiro Resende – 

lançamento do livro Memória Tropeira, em Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.


 

Cida Chaves e Maria Luiza, no lançamento do livro 

Mulheres insurgentes na Inconfidência Mineira

Anexo do Museu da Inconfidência, Ouro Preto-MG.Fotografia: Luiz Cruz.


 

Maria Luiza, na celebração Águas de Iemanja, Rua da Cachaça, São João del-Rei.

 Fotografia: Luiz Cruz.

 

Regina Carvalho, Maria José Boaventura, Maria Luiza, Ricardo Ribeiro Resende e

 Walquir Avelar no Reinado de Nossa Senhora do Rosário, Oliveira-MG,

 uma das mais importantes celebrações da cultura afro de Minas Gerais. 

Fotografia: Luiz Cruz.


 Maria Luiza no Engenho Boa Vista, propriedade dos descendentes de

 Dona Antônia Rita de Jesus Xavier, a irmã mais nova do Alferes Tiradentes. 

Fotografia: Luiz Cruz.


 

Cultura Política

 

Maria Luiza passou a juventude em Belo Horizonte e vivenciou bem de perto o que foram os “anos chumbo”, consequência do golpe militar ocorrido em 1964. Pessoas que se manifestavam pela Democracia eram perseguidas, presas, torturadas, mortas e muitas delas tiveram seus corpos desaparecidos. Foram os tempos tenebrosos.

Consciente do valor da Democracia, Maria Luiza sempre participou das manifestações realizadas em Tiradentes: Contra o Genocídio, Contra o PL da Devastação Ambiental, Contra o Racismo Estrutural em Tiradentes, Contra a Anistia para os Golpistas, Pela Democracia, Pela Vida, Pela Educação, Pelo SUS, Pelo Tombamento Federal da Serra de São José Já. Esteve presente em todas. Incentivou e apoiou as caminhadas contra as loucuras promovidas pelo “governo militar” passado. Parou e manifestou contra o racismo estrutural em Tiradentes. Caminhou e oportunizou subsídios para refletir que precisamos “lembrar para não esquecer”, que a ditadura militar é a obscuridade, a corrupção ampla e que mata, além de promover a ignorância do povo.



Maria Luiza em uma das diversas manifestações ocorridas em Tiradentes.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

Maria Luiza na concentração da manifestação: Contra o PL da Devastação.

 Fotografia: Luiz Cruz.

  

Maria Luiza em uma das manifestações contra o racismo estrutural em Tiradentes-MG.

 Fotografia: Luiz Cruz.

  

Maria Luiza na manifestação Contra a Anistia para Golpistas

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

O tempo passa, o tempo voa. Parece que foi ontem que Maria Luiza se transferiu para Tiradentes e adotou a cidade como o seu torrão natal de coração. Continua sua jornada, agora, apenas com mais vagar. Adora cozinhar e preparar suas preciosidades – em especial a ambrosia, o manjar dos deuses. Costura, borda, cuida das plantas e da casa, cuida dos familiares e dos amigos. Aprecia com imensurável felicidade cada minuto que convive com a neta Alice.

O tempo passa, o tempo voa, mas Maria Luiza mantém sua jovialidade firme, repleta de generosidade e refinado senso de humanidade.

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish; especialista em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

 

 

Referências:

ANTONIL, André João. Cultura e Opulência da Brasil. Lisboa, 1711.

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1995.

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário da Terra e da Gente de Minas. Belo Horizonte: Secretaria de Estado da Cultura, Arquivo Público Mineiro. Imprensa Oficial, 1985.

LARANJEIRA, Dilce. Ave, Sertão. Belo Horizonte: Ed. do Autor, 2015.

 

 Apoio institucional:

       




domingo, 21 de junho de 2026

 

Museu do Tiradentino

 virtual

 

 

 

César Reis

O Fotógrafo das Invisibilidades

 

Ele fotografa diariamente. César sai de casa com o dia ainda escuro, à procura da luminosidade adequada para suas fotografias. Persegue os primeiros raios de luz, segue trilhas para ver o colchão de neblina sobre a cidade. Aprecia e registra aquela movimentação alva que nos revela detalhes encantadores da Paisagem. Investigador da luz e das sombras. Assim, nos apresenta imagens absolutamente únicas, daquele click mágico. Nossa arquitetura fica mais enobrecida com as suas fotografias. As nossas serras, ganham mais imponência através das suas imagens, especialmente a Serra de São José e a Serra do Lenheiro – dois elementos marcantes da paisagem do Campo das Vertentes.


                    

César Reis na Cachoeira do Bom Despacho. Serra de São José.

 Fotografia: Luiz Cruz.


O nome dele é Paulo César Reis da Costa. Nasceu em 19 de novembro de 1967, em Resende Costa, o Arraial da Lage, que integrava o termo da antiga Vila de São José. Filho de Paulo Reis da Costa e Maria Clara dos Reis. O pai foi militar, por isso morou em outras localidades, depois de Resende Costa, dos 3 aos 7 anos, passou a viver em Ritápolis e daí por diante a família acabou estabelecida em Tiradentes.

O casal Paulo e Maria Clara teve outros filhos: Elizabete Simone, Elizete Regina, Wiler Carlos e Edson Antônio. Dona Maria Clara faleceu ainda jovem, aos 49 anos e o Sr. Paulo partiu em 2020.

César Reis estudou até o 8º ano, ainda pegou o antigo Ginásio Estadual Dom Delfim Ribeiro Guedes e depois transferido para a Escola Estadual Basílio da Gama. Foi no Ginásio que ouviu pela primeira vez a palavra “greve”. Os professores entraram em greve e as aulas foram suspensas por certo período. Em São João del-Rei, estudou na Escola de Comércio Tiradentes.

 

Os avós

 

A passagem de César Reis por Resende Costa, onde viviam os avós maternos, foi rápida. Ia ocasionalmente visitá-los, por isso, teve pouco convívio com eles. Mas com os avós paternos vivenciou inúmeras experiências e expressivo aprendizado.

O avô, Sr. Antônio Sotero da Costa, viveu na casa do Largo do Chafariz, a que aparece na fotografia abaixo. A avó, Dona Maria Luiza da Costa, vivia em uma casa que não existe mais, que ficava próxima à Trilha do Mangue. Dessa edificação subsistem vestígios arqueológicos. Ela era da família Campos, irmã do afamado Lourenço Campos, que por muitos anos manteve a “jardineira” circulando entre Tiradentes e São João del-Rei.

                    

Chafariz de São José, ao fundo a casa onde viveu o avô de César Reis.

Fotografia: Paul Stille, Aciphan-RJ, arquivo Luiz Cruz.

 

Após se casarem, Antônio e Maria Luiza foram viver em uma casa nas proximidades do sopé da Serra de São José. Essa edificação e seu grande terreno pertenciam a Fidélis Guimarães – área onde atualmente se encontra a Pousada Calçada da Serra. Antônio sempre trabalhou com o cultivo de verduras e naquele terreno plantava de meia com o proprietário, que vivia em Belo Horizonte. Nessa casa, próxima à Trilha do Carteiro, nasceram os três primeiros filhos do casal: Margarida Almeida, Tarcísio José dos Santos e Paulo Reis. Hoje subsistem os vestígios arqueológicos dessa edificação, a vegetação encobriu o que sobrou das paredes, alicerces, soleiras e entradas com fragmentos de calçada. Resultou num dos mais interessantes sítios arqueológicos da Serra de São José, merecedor de estudos, prospecção, registro e proteção. 

 


 Ruínas da casa onde viveram os avós paternos de César Reis,

 sopé da Serra de São José. Hoje, precioso sítio arqueológico. Fotos: Luiz Cruz. 


Sr. Antônio e Dona Maria Luiza viveram bom tempo nessa casa, sempre trabalhando com plantação de verduras, até conseguirem adquirir a casa do Largo do Ó, a de número 1. 

 

Os avós paternos

 

Na casa do Largo do Ó nasceu a quarta filha do casal, a Carmelita, depois, os demais. Trata-se de uma das mais belas edificações da cidade, que conta com um conjunto de tetos pintados, com cartelas, rocalhas, flores e fingidos de marmorizados. A fachada tem duas portas, uma era da capela particular.

 

Casa do Largo do Ó, número 1. Fotografia: Luiz Cruz.

 

  

Detalhes dos tetos pintados da Casa do Largo do Ó, número 1. Fotos: Luiz Cruz.

 

Com os avós, nessa casa, César Reis construiu vasta memória do seu cotidiano de criança. Com brilho nos olhos, relembra a “vó” tão querida. Ressalta o seu papel fundamental na educação dos filhos e dos netos. Na companhia dela conheceu os encantamentos da Serra de São José, quando iam buscar as areias coloridas e as plantas para armar o Presépio; quando saía para coletar os ramos de arnica para as garrafadas; quando apanhava as sempre-vivas a serem aplicadas no artesanato vendido para turista.

Com a mãe, Dona Clara, aprendeu a cuidar da casa. Tinha que encerar o assoalho de tábuas largas e o chão da cozinha em vermelhão. Encerava e lustrava com o “escovão”. Tudo tinha que ficar impecável, brilhando, para depois ir brincar.

Foi a “vó” que o preparou para os mandados em São João del-Rei. Aos sete anos, já circulava entre as duas cidades, para comprar o que se necessitava – de linha para bordar até o fumo de rolo para o avô. Assim, aos poucos, foi construindo sua vivência de menino, que sempre trabalhou.

Conta que semanalmente ia à Cerâmica Progresso buscar cinzas dos fornos, para a “vó” fazer sabão de bola e vender. Por vários anos, saía para vender em balaios os caquis maduros em São João del-Rei. Circulava pelas ruas oferecendo a fruta saborosa para os possíveis interessados. Vendia tudo. O mesmo ocorria com as outras frutas sazonais.

Dona Maria Luiza era benzedeira. Benzia de tudo, para gente e para os animais. Certo dia, bateram à porta da casa, era um estrangeiro, do Circo de Roma, que chegara na cidade. A grande atração do circo era o elefante – uma fêmea ainda jovem, que ao passar na rua, o piso afundou e ela teve uma torção na pata e sentia muito. O homem do circo pediu à Dona Maria Luiza para ir benzer a elefante. Lá foram eles, a avó e o neto César Reis. A benzeção era com uma bola de cera, pregos e uma linha. Dona Maria Luiza rezava e o neto respondia, como se fosse o animal. O menino se viu diante aquele paquiderme gigantesco e fabuloso – conta que ficou gravado em sua memória para sempre as suas impressões sobre o bicho – o odor, a textura da pele, o volume, o movimento das orelhas, os pelos, a pata ferida... No dia seguinte, o homem do circo bateu novamente à porta da casa, agora para levar “tickets” de entrada para toda a família. A elefanta ficara boa e todos foram convidados para o espetáculo inaugural do Circo de Roma.

A “vó” benzia de tudo e sempre manteve atrás da porta da alcova as três estrelas, a representar os santos Reis Magos, Baltasar, Gaspar e Melquior. Mulher de forte personalidade e potente religiosidade. Aprendera com os seus antepassados de origem indígena os segredos das plantas de uso medicinal tradicional, cuidou da saúde dos seus descendentes com os chás caseiros. Como lenheira, subia as trilhas da Serra de São José para buscar lenha para o uso doméstico e entre os galhos secos, trazia as ervas necessárias para tratar da prole.

 

Procissão de Corpus Christi, Dona Maria Luiza, a primeira da fila a direita,

na companhia de suas netas. Década de 1980. Fotografia: Luiz Cruz.

 

A primeira vez que entramos na casa do Largo do Ó ficamos surpresos, havia muitas plantas e muitas flores. Os copos-de-leite estavam lindos. Dona Maria Luiza nos disse: “plantamos, cuidamos, colhemos e oferecemos à Nossa Senhora. É só para ela”. Essa fala ficou guardada em nossas lembranças.

Por décadas consecutivas Dona Maria Luiza cuidou da Igreja de São João Evangelista, com a ajuda das filhas e dos netos. Para as celebrações da Semana Santa, ornamentava os andores, com as flores que cultivava e ainda as das pessoas que faziam promessas, ao cultivar e enviar as flores para os andores. O mesmo ocorria com o andor do Pai Eterno, do Santuário da Santíssima Trindade. Dona Maria Luiza fez a ornamentação dos andores por muitos anos, com muita dedicação. Era tudo singelo, mas com arranjos elegantes e de bom gosto. O principal era a imagem, a ornamentação era um componente secundário; diferentemente da atualidade, agora as floriculturas são contratadas e as flores são utilizadas em profusão, a sobrepor a imagem no andor – prima a ostentação.

Ainda, ao longo de muitos anos, Dona Maria Luiza cuidou do Passo da Paixão do Largo do Ó, limpando e preparando-o para as procissões. Depois, esse encargo ficou com as filhas, até que a Paróquia de Santo Antônio e a Irmandade do Senhor dos Passos tomaram as chaves das tradicionais zeladoras dos Passos.


Dona Maria Luiza ornamentando o andor do Pai Eterno,Santuário da Santíssima Trindade. Década de 1970. Fotografia: acervo da família.

 

 Passo da Paixão do Largo do Ó, que por décadas consecutivas foi cuidado pela Família Costa; César, Dona Luluca e Dona Carmelita. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Sr. Antônio, que descendia da família “Veloso”, sempre se dedicou à plantação no terreno de sua propriedade, outros da família também cultivavam e trabalhavam com olaria. Gostava muito pescar na lagoa do Cacheu e levava o neto César Reis em sua companhia. Sempre apreciou futebol e torcia para o time do Grêmio Esportivo São João Evangelista. Foi um torcedor empolgado.


Antônio Sotero da Costa, no adro da Matriz de Santo Antônio. Fotografia: Walter Firmo, década de 1980.

 

Fachada da Casa do Largo do Ó, 1. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Da casa dos avós paternos, César Reis guarda muitas recordações e muito aprendizado. Posteriormente, Yves Alves adquiriu e restaurou o imóvel; e nele, por 17 anos consecutivos, funcionou a sede do Instituto Cultural Biblioteca do Ó, onde foram desenvolvidas suas atividades. Uma delas foi a criação do Congado de São Benedito, projeto que contou com o apoio financeiro da Fundação Palmares.

 

Percorrendo seu caminho

 

Paulo Reis que era militar, deixou a PMMG e foi trabalhar como pedreiro e com a montagem de taipá. Por oito anos, César acompanhou o pai ajudando-o como seu auxiliar. Até que partiu para a carreira solo, na atividade de pintor. Em 1989, prestou concurso para a Funrei, a atual UFSJ, para o cargo de pintor. Obteve aprovação e iniciou no trabalho em janeiro de 1990. Nesse mesmo ano, conheceu e se casou com Bernadete Maria Silva Reis Costa. A filha única do casal, Jéssica Augusta Reis da Costa, nasceu em 1992.

 

Bernadete e César. Fotografia: Luiz Cruz. 


A fotografia

 

Nos tempos de criança descobriu o fascínio pela fotografia. Sua tia, a Dona Carmelita, sempre foi uma pessoa independente economicamente, ela trabalhava como ourives na Oficina São Judas Tadeu, do Mitula. Gostava de viajar e um dia comprou uma câmera fotográfica. Sempre que passeava na Serra de São José, fazia os registros fotográficos. Foi através de Dona Carmelita que César se encantou pela fotografia. Ele conta, ainda, que quando criança, gostava de observar o Eros Conceição fotografando as celebrações de primeira comunhão, formatura e outras. Quando Eros usava o seu potente “flash” ficava maravilhado – “aquela luz, aquele som”. Hoje, César possui um acervo fotográfico gigantesco, todo digitalizado.

 

César Reis, aos 10 anos, atravessando a Serra de São José. 

Fotografia: Dona Carmelita, acervo César Reis. 

 

César Reis no Alto da Serra de São José contemplando a 

Paisagem de Tiradentes. Fotografia: César Reis. 

 

Orgulhoso, fala que Jéssica, sua filha, foi a grande vencedora do concurso de fotos da primeira edição do Festival de Fotografia de Tiradentes. César já participou de exposição desse festival e foi também homenageado. Uma de suas fotografias ilustrou o catálogo do evento, a imagem teve reprodução e distribuição pelo festival.

Praticamente em todos os eventos externos da cidade encontramos o César fotografando. Sempre bem-humorado e fascinado por sua terrinha, nossa amada Tiradentes. É grande incentivador e apoiador das nossas lutas em defesa da Serra de São José, por isso esteve presente em todas as nossas manifestações “Pelo Tombamento Federal da Serra de São José Já”.

 

César Reis fotografando o Cortejo das Artes. Fotografia: Luiz Cruz.


César Reis na grande manifestação em defesa da Serra de São José,

 Largo das Forras, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

César Reis no grande Cortejo das Artes da Mostra de Cinema de Tiradentes,

 Ala Verde da Serra de São José. Fotografia: Luiz Cruz.

 


Um homem de paixões ardentes 

 

Desde a tenra idade, César devota imensurável paixão à avó Maria Luiza, uma cidadã admirada por todos os familiares e pela comunidade tiradentina. Depois, conheceu sua amada Bernadete, esposa e companheira do cotidiano. Encantou-se pela filha Jéssica, o amor de sua vida. Mas ele tem mais paixões potentes, além das mulheres e da fotografia. Outra paixão é o seu time de coração, o Flamengo. Ama o ciclismo – já percorreu diversas trilhas do Campo das Vertentes, conhece tudo como as linhas da sua mão. Adora as atividades na Serra de São José, principalmente a caminhada matinal para apreciar a luminosidade sobre as rochas e a vegetação. Segue de perto o calendário lunar, para obter as fotografias mais sensíveis e ao mesmo tempo as mais espetaculares do Irmão Sol e da Irmã Lua.

Além e tudo isso, é um grande companheiro nosso. É sobretudo um homem generoso. Compreende que o Planeta Terra foi um grande presente para a humanidade e que juntos precisamos promover ações para deixá-lo em melhores condições para os nossos descendentes.

Mais uma vez, com os olhos a brilhar, nos conta que tudo na sua vida foi muito forte. Porém, nada supera a alegria ao nascer do seu neto – Bernardo Costa Silveira, em 2019. Depois que o neto nasceu, tudo ficou mais bonito, mais sensível, mais vívido. E arremata, “ser avô foi a maior alegria da minha vida!”.

 

Luiz Cruz

Nasceu e vive em Tiradentes. É professor, autor e editor. É doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela EAU-UFMG, prestou estágio pós-doutoral em História, na Fafich-UFMG. Especialista em Administração e Manejo de Unidades de Conservação, pela UEMG/U.S.Fish e em Planos Municipais de Cultura, pela UFBA. Estudou artes na FAOP – Ouro Preto e na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro.

 

Apoio institucional:

 

  



      

quarta-feira, 10 de junho de 2026

 

Museu do Tiradentino

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JOÃO PASSARINHO

 HOMEM DE RESILIÊNCIA E FÉ

 

O casal João Trindade Veloso e Aguída de Paula Veloso viveram por décadas na Rua Padre Toledo, na casa número 148. Atualmente, essa edificação é uma das mais interessantes pela conservação de sua estrutura arquitetônica praticamente intacta, com as técnicas construtivas vernaculares preservadas, inclusive com paredes em blocos de moledo.

 

João Passarinho pai, em sua casa na Rua Padre Toledo, 2002. Fotografia: Luiz Cruz.


João Trindade Veloso – conhecido como João Passarinho – e Dona Aguída tiveram 14 filhos. O 5º do grande núcleo familiar é João Trindade Veloso Filho, nascido em 20 de julho de 1965. É também conhecido como João Passarinho, como o pai. O filho é o nosso personagem do momento. Mas antes, abordaremos o senhor João Passarinho, o pai.

 

 Parede lateral da casa da família de João Passarinho, em blocos de moledo. Rua Padre Toledo. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Esse filho herdou o nome e a alcunha do seu progenitor: “Passarinho”. Então, indagamos: – Por que João Trindade Veloso se tornou conhecido como João Passarinho? – Porque ele gostava de assoviar e imitar “cantos dos pássaros”. Apreciava em especial a vocalização do canário belga e teve diversos criados em gaiolas.

João Passarinho foi um homem de muitas habilidades, dedicava-se à agricultura de subsistência, teve dois terrenos de plantação, um na Viturina e outro na Prainha, alugava o terceiro, nos Gomes. Com a ajuda da esposa e dos filhos, plantava milho, feijão, mandioca e abóbora. Foi também mascate e vendia objetos religiosos como: quadro de santos, terços, imagens e santinhos – material fornecido por Fux, de São João del-Rei. Recorda-se que os quadros de santos mais vendidos eram de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Nazaré, Senhor Bom Jesus de Matosinho, Coração de Jesus, Coração de Maria e da Santíssima Trindade. Os “Terços” mais populares eram os de “conta de lágrimas” – a semente de uma planta tropical perene, da família Poaceae, nativa do Sudeste Asiático, introduzida na China, Índia e depois dispersa por todos os cantos do mundo. Mas havia também os “Terços” feitos com bolinhas de prata, embalados em caixinhas especiais, com preços mais elevados; oferecia ainda em alpaca e metal banhado a prata, com preços mais acessíveis. Posteriormente, surgiram os feitos com missangas, madeira, resina e plástico.

 

João Passarinho filho e João Passarinho pai. Barraca do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Congonhas. Fotografia de autor não identificado, década de 1980. Acervo: Família Veloso.

 

Como mascate, participava das festas religiosas, romarias e jubileus de Congonhas, Conceição do Mato Dentro, Água Suja, Curvelo, Nazareno, Capelinha, Bichinho, Livramento e Tiradentes. Fora de Minas, esteve por diversas vezes na Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, Goiás – sempre partia para lá, de trem, após participar do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, de Conceição do Mato Dentro.

Neste ano, a programação desse jubileu ocorrerá no período de 13 a 24 de junho – confira a programação abaixo.



Santuário do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, onde se celebra um dos maiores jubileus de Minas. João Passarinho, o pai e o filho participaram desse evento. Fotografia: Luiz Cruz.


Programação do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 2026. Conceição do Mato Dentro-MG. 

 

A cada localidade, chegava e armava a barraca em bambu, coberta por lona, com o balcão e espaço para cozinhar e dormir. Era uma vida difícil, sofrida. João Passarinho filho acompanhava o pai nessa jornada. Conta que o lugar mais frio foi Conceição do Mato Dentro, os invernos tinham temperatura baixas e dormir na barraca significava passar frio intenso. Quando chovia, a água da enxurrada passava dentro da barraca e aumentava o desconforto.

Outros tiradentinos também foram mascates e participavam das festas religiosas, como o João Lopes, Zé Divino, Tião Divino, Fidélis, Zizico e outros.

No Jubileu da Santíssima Trindade, montava a barraca lá em cima e vendia suas “mercadorias”. Já com idade avançada, passou a armar a barraca em frente à sua casa, além das “mercadorias”, vendia café, pastel, salgados e cachaça.

João Passarinho filho acompanhou o pai até sua última romaria, no Jubileu do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas-MG.

 


João Passarinho pai, em Congonhas, década de 1970. Fotografia de autor não identificado, Arquivo: Luiz Cruz. Cruzeiro do Martírio, obra de João Passarinho. Acervo: Família Veloso. Foto: Luiz Cruz. 

 

O pai era habilidoso, além de cultivar a terra, fazia os “Terços”, trabalhava com madeira e produzia o Cruzeiro do Martírio – a cruz, em uma base, com os objetos da crucificação de Cristo. As peças ficavam expostas na janela da casa e eram compradas pelos turistas. Vendia também antiguidades: rocas, móveis e louças – tudo para ajudar na manutenção da família.

 

O fundidor e tecedor

 

João Trindade Veloso Filho estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama, mas por ter que trabalhar e viajar acompanhando o pai, não conseguiu completar o Ensino Fundamental II. Desde criança tinha que tecer os “Terços” a serem vendidos. Depois trabalhou como ourives, por pouco tempo, nas oficinas de Laurito Cabral e de Mauro Barbosa. Há mais de 40 anos trabalha com Valdir Luiz da Costa, com a fundição de peças em metal: sinos, frades, galo de vento e campainha. A fundição já foi muito forte em Tiradentes, atividade exercida por séculos consecutivos e que agora está em risco de desaparecer na cidade.

 

João Passarinho filho, na casa onde nasceu e viveu, Rua Padre Toledo, 148. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

João Passarinho pega no trabalho às 6h, faz o serviço pesado da fundição e Valdir executa o acabamento de cada peça fundida. Essa oficina, fica no Beco do Rosário, no centro antigo de Tiradentes.

 

João Passarinho na Oficina de Fundição. Beco do Rosário, Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

    


 O preparo de peças a serem fundidas. Oficina do Valdir, Beco do Rosário,  Tiradentes-MG. Fotografias: Luiz Cruz.


Valdir e João Passarinho, companheiros de trabalho na fundição há mais de quatro décadas. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

João Passarinho vive com sua companheira Selma Wiermann. Moram na Rua Alberto Paolucci, 130. Ele tem uma rotina bem definida, acorda às 4h30, reza o “Terço”, prepara o café e às 6h inicia o trabalho na oficina de fundição. Nas horas vagas tece os “Terços”.

É um homem muito simples, muito discreto e muito honesto. Mas é observador atento das transformações da cidade. Sente na pele o processo de gentrificação e relembra dos espaços dos tiradentinos, as brincadeiras, os passeios, as pescarias com os amigos. Nostálgico, tem saudades dos tempos dos bares do Francisquinho, Osvaldo, Saudade, Bizuca, Celso e do Nivaldo. Os bares de Tiradentes eram pontos de encontro de amigos, eles acabaram e deixaram saudades. 

Jogou futebol, participou do time América, que tinha como treinador o Nivete do Amado. O uniforme desse time era vermelho. Também jogou no Grêmio e no Aimorés. Parou de jogar porque se machucou numa das partidas. No Carnaval, gostava de sair no Bloco das Domésticas, mas agora prefere ver tudo de bem longe.

João Passarinho pai e filho estiveram juntos por diversas vezes em Curvelo, no Jubileu de São Geraldo Magella, por isso, acabou se tornando devoto desse santo. Relembra que seu irmão mais velho, o Geraldo, faleceu quando tinha apenas 13 anos e ele, Passarinho, estava com estava com 11 anos. Desde então, essa perda afetiva reforçou sua devoção a São Geraldo.

João Passarinho na porta da casa onde nasceu e viveu, Rua Padre Toledo. Fotografia: Luiz Cruz.

 

O altar com as imagens da devoção de João Passarinho. Fotografia: Luiz Cruz.


Participou da Conferência de São Vicente Paulo por mais de 50 anos, viajou muito representando o Conselho Vicentino. Dedicou boa parte de sua vida às atividades vicentinas, em favor dos cidadãos menos favorecidos economicamente. Abandonou tudo por questão de honestidade. Um imóvel da Conferência da Santíssima Trindade foi vendido e os recursos não chegaram à conferência, evaporaram. Esse imóvel esteve registrado em seu nome e sob sua responsabilidade. Por isso, preferiu abandonar a tradicional Conferência de São Vicente Paulo.

 

João Passarinho tecendo “Terço” com as contas de lágrimas. Fotografia: Luiz Cruz. 

   

Uma imagem contendo mesa, comida, rocha, rosquinha

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    João Passarinho tecendo o “Terço” com as contas de lágrimas. Fotografias: Luiz Cruz.

 

João e Selma na Capela de Nossa Senhora das Dores, onde assistem  a Santa Missa. São João del-Rei. Fotografia: Luiz Cruz.

 

João Passarinho filho é uma pessoa do bem. Está em paz consigo. Ama seu torrão natal e é muito trabalhador. É um homem de forte devoção a São Geraldo. Religiosamente, todo sábado assiste a Santa Missa na Capela de Nossa Senhora das Dores, em São João del-Rei. Não perde tempo, sempre está tecendo os “Terços”. Caso tenha interesse em ter um “Terço” tradicional, em conta de lágrimas, passe lá na casa dele e adquira o seu.

 

Luiz Cruz 


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