quarta-feira, 10 de junho de 2026

 

Museu do Tiradentino

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JOÃO PASSARINHO

 HOMEM DE RESILIÊNCIA E FÉ

 

O casal João Trindade Veloso e Aguída de Paula Veloso viveram por décadas na Rua Padre Toledo, na casa número 148. Atualmente, essa edificação é uma das mais interessantes pela conservação de sua estrutura arquitetônica praticamente intacta, com as técnicas construtivas vernaculares preservadas, inclusive com paredes em blocos de moledo.

 

João Passarinho pai, em sua casa na Rua Padre Toledo, 2002. Fotografia: Luiz Cruz.


João Trindade Veloso – conhecido como João Passarinho – e Dona Aguída tiveram 14 filhos. O 5º do grande núcleo familiar é João Trindade Veloso Filho, nascido em 20 de julho de 1965. É também conhecido como João Passarinho, como o pai. O filho é o nosso personagem do momento. Mas antes, abordaremos o senhor João Passarinho, o pai.

 

 Parede lateral da casa da família de João Passarinho, em blocos de moledo. Rua Padre Toledo. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Esse filho herdou o nome e a alcunha do seu progenitor: “Passarinho”. Então, indagamos: – Por que João Trindade Veloso se tornou conhecido como João Passarinho? – Porque ele gostava de assoviar e imitar “cantos dos pássaros”. Apreciava em especial a vocalização do canário belga e teve diversos criados em gaiolas.

João Passarinho foi um homem de muitas habilidades, dedicava-se à agricultura de subsistência, teve dois terrenos de plantação, um na Viturina e outro na Prainha, alugava o terceiro, nos Gomes. Com a ajuda da esposa e dos filhos, plantava milho, feijão, mandioca e abóbora. Foi também mascate e vendia objetos religiosos como: quadro de santos, terços, imagens e santinhos – material fornecido por Fux, de São João del-Rei. Recorda-se que os quadros de santos mais vendidos eram de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Nazaré, Senhor Bom Jesus de Matosinho, Coração de Jesus, Coração de Maria e da Santíssima Trindade. Os “Terços” mais populares eram os de “conta de lágrimas” – a semente de uma planta tropical perene, da família Poaceae, nativa do Sudeste Asiático, introduzida na China, Índia e depois dispersa por todos os cantos do mundo. Mas havia também os “Terços” feitos com bolinhas de prata, embalados em caixinhas especiais, com preços mais elevados; oferecia ainda em alpaca e metal banhado a prata, com preços mais acessíveis. Posteriormente, surgiram os feitos com missangas, madeira, resina e plástico.

 

João Passarinho filho e João Passarinho pai. Barraca do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Congonhas. Fotografia de autor não identificado, década de 1980. Acervo: Família Veloso.

 

Como mascate, participava das festas religiosas, romarias e jubileus de Congonhas, Conceição do Mato Dentro, Água Suja, Curvelo, Nazareno, Capelinha, Bichinho, Livramento e Tiradentes. Fora de Minas, esteve por diversas vezes na Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, Goiás – sempre partia para lá, de trem, após participar do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, de Conceição do Mato Dentro.

Neste ano, a programação desse jubileu ocorrerá no período de 13 a 24 de junho – confira a programação abaixo.



Santuário do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, onde se celebra um dos maiores jubileus de Minas. João Passarinho, o pai e o filho participaram desse evento. Fotografia: Luiz Cruz.


Programação do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 2026. Conceição do Mato Dentro-MG. 

 

A cada localidade, chegava e armava a barraca em bambu, coberta por lona, com o balcão e espaço para cozinhar e dormir. Era uma vida difícil, sofrida. João Passarinho filho acompanhava o pai nessa jornada. Conta que o lugar mais frio foi Conceição do Mato Dentro, os invernos tinham temperatura baixas e dormir na barraca significava passar frio intenso. Quando chovia, a água da enxurrada passava dentro da barraca e aumentava o desconforto.

Outros tiradentinos também foram mascates e participavam das festas religiosas, como o João Lopes, Zé Divino, Tião Divino, Fidélis, Zizico e outros.

No Jubileu da Santíssima Trindade, montava a barraca lá em cima e vendia suas “mercadorias”. Já com idade avançada, passou a armar a barraca em frente à sua casa, além das “mercadorias”, vendia café, pastel, salgados e cachaça.

João Passarinho filho acompanhou o pai até sua última romaria, no Jubileu do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas-MG.

 


João Passarinho pai, em Congonhas, década de 1970. Fotografia de autor não identificado, Arquivo: Luiz Cruz. Cruzeiro do Martírio, obra de João Passarinho. Acervo: Família Veloso. Foto: Luiz Cruz. 

 

O pai era habilidoso, além de cultivar a terra, fazia os “Terços”, trabalhava com madeira e produzia o Cruzeiro do Martírio – a cruz, em uma base, com os objetos da crucificação de Cristo. As peças ficavam expostas na janela da casa e eram compradas pelos turistas. Vendia também antiguidades: rocas, móveis e louças – tudo para ajudar na manutenção da família.

 

O fundidor e tecedor

 

João Trindade Veloso Filho estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama, mas por ter que trabalhar e viajar acompanhando o pai, não conseguiu completar o Ensino Fundamental II. Desde criança tinha que tecer os “Terços” a serem vendidos. Depois trabalhou como ourives, por pouco tempo, nas oficinas de Laurito Cabral e de Mauro Barbosa. Há mais de 40 anos trabalha com Valdir Luiz da Costa, com a fundição de peças em metal: sinos, frades, galo de vento e campainha. A fundição já foi muito forte em Tiradentes, atividade exercida por séculos consecutivos e que agora está em risco de desaparecer na cidade.

 

João Passarinho filho, na casa onde nasceu e viveu, Rua Padre Toledo, 148. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

João Passarinho pega no trabalho às 6h, faz o serviço pesado da fundição e Valdir executa o acabamento de cada peça fundida. Essa oficina, fica no Beco do Rosário, no centro antigo de Tiradentes.

 

João Passarinho na Oficina de Fundição. Beco do Rosário, Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

    


 O preparo de peças a serem fundidas. Oficina do Valdir, Beco do Rosário,  Tiradentes-MG. Fotografias: Luiz Cruz.


Valdir e João Passarinho, companheiros de trabalho na fundição há mais de quatro décadas. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

João Passarinho vive com sua companheira Selma Wiermann. Moram na Rua Alberto Paolucci, 130. Ele tem uma rotina bem definida, acorda às 4h30, reza o “Terço”, prepara o café e às 6h inicia o trabalho na oficina de fundição. Nas horas vagas tece os “Terços”.

É um homem muito simples, muito discreto e muito honesto. Mas é observador atento das transformações da cidade. Sente na pele o processo de gentrificação e relembra dos espaços dos tiradentinos, as brincadeiras, os passeios, as pescarias com os amigos. Nostálgico, tem saudades dos tempos dos bares do Francisquinho, Osvaldo, Saudade, Bizuca, Celso e do Nivaldo. Os bares de Tiradentes eram pontos de encontro de amigos, eles acabaram e deixaram saudades. 

Jogou futebol, participou do time América, que tinha como treinador o Nivete do Amado. O uniforme desse time era vermelho. Também jogou no Grêmio e no Aimorés. Parou de jogar porque se machucou numa das partidas. No Carnaval, gostava de sair no Bloco das Domésticas, mas agora prefere ver tudo de bem longe.

João Passarinho pai e filho estiveram juntos por diversas vezes em Curvelo, no Jubileu de São Geraldo Magella, por isso, acabou se tornando devoto desse santo. Relembra que seu irmão mais velho, o Geraldo, faleceu quando tinha apenas 13 anos e ele, Passarinho, estava com estava com 11 anos. Desde então, essa perda afetiva reforçou sua devoção a São Geraldo.

João Passarinho na porta da casa onde nasceu e viveu, Rua Padre Toledo. Fotografia: Luiz Cruz.

 

O altar com as imagens da devoção de João Passarinho. Fotografia: Luiz Cruz.


Participou da Conferência de São Vicente Paulo por mais de 50 anos, viajou muito representando o Conselho Vicentino. Dedicou boa parte de sua vida às atividades vicentinas, em favor dos cidadãos menos favorecidos economicamente. Abandonou tudo por questão de honestidade. Um imóvel da Conferência da Santíssima Trindade foi vendido e os recursos não chegaram à conferência, evaporaram. Esse imóvel esteve registrado em seu nome e sob sua responsabilidade. Por isso, preferiu abandonar a tradicional Conferência de São Vicente Paulo.

 

João Passarinho tecendo “Terço” com as contas de lágrimas. Fotografia: Luiz Cruz. 

   

Uma imagem contendo mesa, comida, rocha, rosquinha

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    João Passarinho tecendo o “Terço” com as contas de lágrimas. Fotografias: Luiz Cruz.

 

João e Selma na Capela de Nossa Senhora das Dores, onde assistem  a Santa Missa. São João del-Rei. Fotografia: Luiz Cruz.

 

João Passarinho filho é uma pessoa do bem. Está em paz consigo. Ama seu torrão natal e é muito trabalhador. É um homem de forte devoção a São Geraldo. Religiosamente, todo sábado assiste a Santa Missa na Capela de Nossa Senhora das Dores, em São João del-Rei. Não perde tempo, sempre está tecendo os “Terços”. Caso tenha interesse em ter um “Terço” tradicional, em conta de lágrimas, passe lá na casa dele e adquira o seu.

 

Luiz Cruz 


     Apoio institucional:

      




10 comentários:

  1. Que emoção ler e revisitar essa história tão especial para mim e para toda a minha família.
    João Passarinho pai foi meu avô, um homem de trabalho, fé e coragem, que deixou marcas profundas em todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Sua dedicação à família, às romarias, ao artesanato dos terços e à vida simples é uma herança de valores que permanece viva em nossas lembranças.
    E falar de João Passarinho Filho é falar de alguém que sempre foi muito mais do que um tio para mim. Pra mim é um pai, um exemplo de honestidade, humildade, perseverança e amor pela família. Acompanhar sua trajetória, seu compromisso com o trabalho, sua devoção religiosa e sua capacidade de enfrentar as dificuldades da vida sem perder a fé é motivo de grande orgulho.
    Ao ler cada passagem deste relato, sinto alegria por ver reconhecida a história de dois homens que ajudaram a construir não apenas a história de Tiradentes, mas também a história da minha própria vida. São exemplos que me inspiram diariamente e que me ensinaram, através das atitudes, o verdadeiro significado da dignidade, da honestidade e do amor ao próximo.
    Meu coração se enche de gratidão por poder carregar esse legado familiar. Que a memória do meu avô João Passarinho continue viva e que meu tio João Passarinho siga sendo essa referência de força, fé e bondade para todos que o cercam.
    Uma homenagem linda e merecida a dois homens extraordinários. Muito obrigado Luiz Cruz. ❤️👏🏽🙏🏽

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  2. Douglas Veloso, muito obrigado pela presença aqui no Museu do Tiradentino. Ficamos felizes com o seu registro, confirma a nossa percepção sobre os dois homenagados, João Passarinho - o pai e João Passarinho - o filho. Produzir e organizar este texto foi um prazer, mas sobretudo uma honra. Nossa cidade se torna muito mais linda quando iluminamos os cidadãos, os seus fazeres e suas histórias de vida. A homenagem é justa e merecida. Abraço

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  3. Merecida homenagem.
    Colaboradores da cultura tiradentina

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    1. Muito obrigado pela presença aqui. Assim, estes são personagens da nossa cultura e enriquecem a história da nossa amada cidade de Tiradentes. Abraço

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  4. Esses tiradentinos tem mesmo que ser homenageados! A família “Passarinho” é muito querida! A ideia do Museu é genial!

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    1. Thelma, gratidão por sua presença e registro aqui no Museu do Tiradentino. Vamos iluminar a história dos nossos cidadãos e deixar registrada. O "Passarinho" pai foi uma figura fabulosa e o "Passarinho" filho também escreve um história de vida singular. Eles enriquecem nosso Patrimônio Humano. Abraço forte para você.

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  5. Texto excelente, interessantíssimo. Mais uma contribuição fundamental do professor Luiz Cruz, a quem devemos muito por tudo que faz pela cultura, história, patrimônio, meio ambiente e humanismo. Forte abraço, meu amigo!

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    1. Passarelli, muito obrigado por sua presença aqui no Museu do Tiradentino. Os dois personagens "Passarinho" construíram histórias de vidas potentes. Estamos aqui dando nossa contribuição para que o nosso Patrimônio Humano seja conhecido e valorizado. Como você é um dos mais expressivos pesquisadores da Cultura no Campo das Vertentes, sua presença aqui nos alegra e honra. Grande abraço

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  6. Muito interessante este Museu! 💙

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