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Museu do Tiradentino virtual |
JOÃO PASSARINHO
HOMEM DE RESILIÊNCIA E FÉ
O casal
João Trindade Veloso e Aguída de Paula Veloso viveram por décadas na Rua Padre
Toledo, na casa número 148. Atualmente, essa edificação é uma das mais
interessantes pela conservação de sua estrutura arquitetônica praticamente
intacta, com as técnicas construtivas vernaculares preservadas, inclusive com
paredes em blocos de moledo.
João Passarinho pai, em sua casa na Rua Padre Toledo, 2002. Fotografia: Luiz Cruz.
João
Trindade Veloso – conhecido como João Passarinho – e Dona Aguída tiveram 14
filhos. O 5º do grande núcleo familiar é João Trindade Veloso Filho, nascido em
20 de julho de 1965. É também conhecido como João Passarinho, como o pai. O
filho é o nosso personagem do momento. Mas antes, abordaremos o senhor João
Passarinho, o pai.
Esse
filho herdou o nome e a alcunha do seu progenitor: “Passarinho”. Então,
indagamos: – Por que João Trindade Veloso se tornou conhecido como João
Passarinho? – Porque ele gostava de assoviar e imitar “cantos dos pássaros”.
Apreciava em especial a vocalização do canário belga e teve diversos criados em
gaiolas.
João
Passarinho foi um homem de muitas habilidades, dedicava-se à agricultura de
subsistência, teve dois terrenos de plantação, um na Viturina e outro na
Prainha, alugava o terceiro, nos Gomes. Com a ajuda da esposa e dos filhos,
plantava milho, feijão, mandioca e abóbora. Foi também mascate e vendia objetos
religiosos como: quadro de santos, terços, imagens e santinhos – material
fornecido por Fux, de São João del-Rei. Recorda-se que os quadros de santos
mais vendidos eram de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Nazaré, Senhor
Bom Jesus de Matosinho, Coração de Jesus, Coração de Maria e da Santíssima
Trindade. Os “Terços” mais populares eram os de “conta de lágrimas” – a semente
de uma planta tropical perene, da família Poaceae, nativa do Sudeste Asiático,
introduzida na China, Índia e depois dispersa por todos os cantos do mundo. Mas
havia também os “Terços” feitos com bolinhas de prata, embalados em caixinhas
especiais, com preços mais elevados; oferecia ainda em alpaca e metal banhado a
prata, com preços mais acessíveis. Posteriormente, surgiram os feitos com
missangas, madeira, resina e plástico.
João Passarinho filho e João Passarinho pai. Barraca do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Congonhas. Fotografia de autor não identificado, década de 1980. Acervo: Família Veloso.
Como
mascate, participava das festas religiosas, romarias e jubileus de Congonhas,
Conceição do Mato Dentro, Água Suja, Curvelo, Nazareno, Capelinha, Bichinho,
Livramento e Tiradentes. Fora de Minas, esteve por diversas vezes na Romaria do
Divino Pai Eterno, em Trindade, Goiás – sempre partia para lá, de trem, após
participar do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, de Conceição do Mato
Dentro.
Neste
ano, a programação desse jubileu ocorrerá no período de 13 a 24 de junho –
confira a programação abaixo.
Programação do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 2026. Conceição do Mato Dentro-MG.
A cada
localidade, chegava e armava a barraca em bambu, coberta por lona, com o balcão
e espaço para cozinhar e dormir. Era uma vida difícil, sofrida. João Passarinho
filho acompanhava o pai nessa jornada. Conta que o lugar mais frio foi
Conceição do Mato Dentro, os invernos tinham temperatura baixas e dormir na
barraca significava passar frio intenso. Quando chovia, a água da enxurrada
passava dentro da barraca e aumentava o desconforto.
Outros
tiradentinos também foram mascates e participavam das festas religiosas, como o
João Lopes, Zé Divino, Tião Divino, Fidélis, Zizico e outros.
No
Jubileu da Santíssima Trindade, montava a barraca lá em cima e vendia suas
“mercadorias”. Já com idade avançada, passou a armar a barraca em frente à sua
casa, além das “mercadorias”, vendia café, pastel, salgados e cachaça.
João
Passarinho filho acompanhou o pai até sua última romaria, no Jubileu do Senhor
Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas-MG.
O pai
era habilidoso, além de cultivar a terra, fazia os “Terços”, trabalhava com
madeira e produzia o Cruzeiro do Martírio – a cruz, em uma base, com os objetos
da crucificação de Cristo. As peças ficavam expostas na janela da casa e eram compradas
pelos turistas. Vendia também antiguidades: rocas, móveis e louças – tudo para
ajudar na manutenção da família.
O
fundidor e tecedor
João
Trindade Veloso Filho estudou no Grupo Escolar Basílio da Gama, mas por ter que
trabalhar e viajar acompanhando o pai, não conseguiu completar o Ensino
Fundamental II. Desde criança tinha que tecer os “Terços” a serem vendidos.
Depois trabalhou como ourives, por pouco tempo, nas oficinas de Laurito Cabral
e de Mauro Barbosa. Há mais de 40 anos trabalha com Valdir Luiz da Costa, com a
fundição de peças em metal: sinos, frades, galo de vento e campainha. A
fundição já foi muito forte em Tiradentes, atividade exercida por séculos
consecutivos e que agora está em risco de desaparecer na cidade.
João Passarinho filho, na casa onde nasceu e viveu, Rua Padre Toledo, 148. Fotografia: Luiz Cruz.
João
Passarinho pega no trabalho às 6h, faz o serviço pesado da fundição e Valdir
executa o acabamento de cada peça fundida. Essa oficina, fica no Beco do
Rosário, no centro antigo de Tiradentes.
João Passarinho na Oficina de Fundição. Beco do Rosário, Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.
O preparo de peças a serem fundidas. Oficina do Valdir, Beco do Rosário, Tiradentes-MG. Fotografias: Luiz Cruz.
Valdir e João Passarinho, companheiros de trabalho na fundição há mais de quatro décadas. Fotografia: Luiz Cruz.
João
Passarinho vive com sua companheira Selma Wiermann. Moram na Rua Alberto
Paolucci, 130. Ele tem uma rotina bem definida, acorda às 4h30, reza o “Terço”,
prepara o café e às 6h inicia o trabalho na oficina de fundição. Nas horas
vagas tece os “Terços”.
É um
homem muito simples, muito discreto e muito honesto. Mas é observador atento
das transformações da cidade. Sente na pele o processo de gentrificação e
relembra dos espaços dos tiradentinos, as brincadeiras, os passeios, as
pescarias com os amigos. Nostálgico, tem saudades dos tempos dos bares do
Francisquinho, Osvaldo, Saudade, Bizuca, Celso e do Nivaldo. Os bares de
Tiradentes eram pontos de encontro de amigos, eles acabaram e deixaram
saudades.
Jogou
futebol, participou do time América, que tinha como treinador o Nivete do Amado.
O uniforme desse time era vermelho. Também jogou no Grêmio e no Aimorés. Parou
de jogar porque se machucou numa das partidas. No Carnaval, gostava de sair no
Bloco das Domésticas, mas agora prefere ver tudo de bem longe.
João
Passarinho pai e filho estiveram juntos por diversas vezes em Curvelo, no
Jubileu de São Geraldo Magella, por isso, acabou se tornando devoto desse
santo. Relembra que seu irmão mais velho, o Geraldo, faleceu quando tinha
apenas 13 anos e ele, Passarinho, estava com estava com 11 anos. Desde então,
essa perda afetiva reforçou sua devoção a São Geraldo.
João Passarinho na porta da casa onde nasceu e viveu, Rua Padre Toledo. Fotografia: Luiz Cruz.
O altar com as imagens da devoção de João Passarinho. Fotografia: Luiz Cruz.
Participou
da Conferência de São Vicente Paulo por mais de 50 anos, viajou muito
representando o Conselho Vicentino. Dedicou boa parte de sua vida às atividades
vicentinas, em favor dos cidadãos menos favorecidos economicamente. Abandonou
tudo por questão de honestidade. Um imóvel da Conferência da Santíssima
Trindade foi vendido e os recursos não chegaram à conferência, evaporaram. Esse
imóvel esteve registrado em seu nome e sob sua responsabilidade. Por isso,
preferiu abandonar a tradicional Conferência de São Vicente Paulo.
João Passarinho tecendo “Terço” com as contas de lágrimas. Fotografia: Luiz Cruz.
João Passarinho tecendo o “Terço” com as contas de lágrimas. Fotografias: Luiz Cruz.
João e Selma na Capela de Nossa Senhora das Dores, onde assistem a Santa Missa. São João del-Rei. Fotografia: Luiz Cruz.
João
Passarinho filho é uma pessoa do bem. Está em paz consigo. Ama seu torrão natal
e é muito trabalhador. É um homem de forte devoção a São Geraldo. Religiosamente,
todo sábado assiste a Santa Missa na Capela de Nossa Senhora das Dores, em São
João del-Rei. Não perde tempo, sempre está tecendo os “Terços”. Caso tenha
interesse em ter um “Terço” tradicional, em conta de lágrimas, passe lá na casa
dele e adquira o seu.
Luiz
Cruz
Apoio institucional:



Que emoção ler e revisitar essa história tão especial para mim e para toda a minha família.
ResponderExcluirJoão Passarinho pai foi meu avô, um homem de trabalho, fé e coragem, que deixou marcas profundas em todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Sua dedicação à família, às romarias, ao artesanato dos terços e à vida simples é uma herança de valores que permanece viva em nossas lembranças.
E falar de João Passarinho Filho é falar de alguém que sempre foi muito mais do que um tio para mim. Pra mim é um pai, um exemplo de honestidade, humildade, perseverança e amor pela família. Acompanhar sua trajetória, seu compromisso com o trabalho, sua devoção religiosa e sua capacidade de enfrentar as dificuldades da vida sem perder a fé é motivo de grande orgulho.
Ao ler cada passagem deste relato, sinto alegria por ver reconhecida a história de dois homens que ajudaram a construir não apenas a história de Tiradentes, mas também a história da minha própria vida. São exemplos que me inspiram diariamente e que me ensinaram, através das atitudes, o verdadeiro significado da dignidade, da honestidade e do amor ao próximo.
Meu coração se enche de gratidão por poder carregar esse legado familiar. Que a memória do meu avô João Passarinho continue viva e que meu tio João Passarinho siga sendo essa referência de força, fé e bondade para todos que o cercam.
Uma homenagem linda e merecida a dois homens extraordinários. Muito obrigado Luiz Cruz. ❤️👏🏽🙏🏽
Douglas Veloso, muito obrigado pela presença aqui no Museu do Tiradentino. Ficamos felizes com o seu registro, confirma a nossa percepção sobre os dois homenagados, João Passarinho - o pai e João Passarinho - o filho. Produzir e organizar este texto foi um prazer, mas sobretudo uma honra. Nossa cidade se torna muito mais linda quando iluminamos os cidadãos, os seus fazeres e suas histórias de vida. A homenagem é justa e merecida. Abraço
ResponderExcluirMerecida homenagem.
ResponderExcluirColaboradores da cultura tiradentina
Muito obrigado pela presença aqui. Assim, estes são personagens da nossa cultura e enriquecem a história da nossa amada cidade de Tiradentes. Abraço
ExcluirEsses tiradentinos tem mesmo que ser homenageados! A família “Passarinho” é muito querida! A ideia do Museu é genial!
ResponderExcluirThelma, gratidão por sua presença e registro aqui no Museu do Tiradentino. Vamos iluminar a história dos nossos cidadãos e deixar registrada. O "Passarinho" pai foi uma figura fabulosa e o "Passarinho" filho também escreve um história de vida singular. Eles enriquecem nosso Patrimônio Humano. Abraço forte para você.
ExcluirTexto excelente, interessantíssimo. Mais uma contribuição fundamental do professor Luiz Cruz, a quem devemos muito por tudo que faz pela cultura, história, patrimônio, meio ambiente e humanismo. Forte abraço, meu amigo!
ResponderExcluirPassarelli, muito obrigado por sua presença aqui no Museu do Tiradentino. Os dois personagens "Passarinho" construíram histórias de vidas potentes. Estamos aqui dando nossa contribuição para que o nosso Patrimônio Humano seja conhecido e valorizado. Como você é um dos mais expressivos pesquisadores da Cultura no Campo das Vertentes, sua presença aqui nos alegra e honra. Grande abraço
ExcluirMuito interessante este Museu! 💙
ResponderExcluirObrigado, aqui teremos muitas histórias de VIDA. Abraço
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